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Fala da Criada dos Noialles…

...que no fim de contas vamos descobrir chamar-se também Séverine numa noite do Inverno de 1975 em Hyères - uma paródia inconsequente de Jorge Silva Melo.

Eis uma paródia cheia de leveza, de mel e de graça, encantadoramente bem encenada, bem escrita e bem representada, um espectáculo que delicia o sentido estético de quem é sensível a estas coisas da beleza, da arte e das palavras. Não é uma peça “sem qualquer importância” nem uma “paródia inconsequente”, é muito mais do que isso! A peça de Jorge Silva Melo, com os Artistas Unidos, esteve em cena na Culturgest nos dias 16 a 17 de Julho de 2010 (no âmbito do Festival de Almada) e passará pelo TECA, no Porto, de 16 a 19 de Setembro.

É uma peça escrita e editada em 2007 e lida nesse ano, a 3 de Junho, pela actriz Elsa Galvão, com a colaboração dos actores Sylvie Rocha e Paulo Pinto, numa sessão dedicada ao tema dos Mecenas, na Fundação Gulbenkian, a convite de Maria João Seixas.

Ser a feliz destinatária de confissões e desabafos animados de uma fiel criada que tudo sabe e relata, na primeira pessoa, dos episódios que testemunhou e viveu através da crueza e pureza do seu olhar, é algo precioso. Mais ainda quando se sente que essas memórias são todo o seu tesouro e felicidade. Na verdade é tudo o que tem na vida e, ao partilhá-lo, ainda mais vibrante e rica se torna.

Esta é a criada dos famosos Noailles, interpretada brilhantemente por Elsa Galvão, num monólogo exemplar, escrito pelo próprio encenador Jorge Silva Melo para aquela actriz (em) especial. Quem mais senão uma criada para nos apresentar a história da sua vida e dos seus patrões de uma maneira impar e sentida? Quem melhor para relatar, como se de um diário ao vivo e a cores se tratasse, o dia-a-dia desse famoso casal de mecenas da arte livre e dos surrealistas e o seu modus vivendi numa época tão própria como os anos 20 do século XX?

Séverine, a criada das botinas ay caray e dos artistas habitués do palacete dos Noailles em Hyères, relata os segredos em primeira mão dos tempos dos bailes loucos e do amor livre. Foi esta família quem financiou o polémico filme “L’Age D’Or” de Luis Buñuel, escrito por este realizador espanhol e por Salvador Dali. Todo o enredo se desenrola a propósito de um jantar que Séverine tem agora de preparar para Luis Buñuel e para o Conde Charles de Noailles, cinquenta anos depois, já surdos e sem luxo, sem arte nem jóias nas prateleiras e nas paredes, já sem a Condessa Marie-Laure ao lado e com uma ementa dietética anti-colesterol.

Que texto atrevidamente bem-disposto e rico! Jorge Silva Melo brinca com tudo e com todos, presta homenagem a quem ama, alimenta a arte e provoca todos aqueles que julgam que a arte serve para “formar, informar e educar” e “para contribuir para o PIB”. O texto é uma delícia literária, leve e solta, recheado de segredos e intimidades daqueles anos loucos bem misturados com pérolas de humor inteligente e culto. Texto, segundo o seu autor, “muito livremente inspirado em ‘O Meu Último Suspiro’ de Buñuel e nas botinas de ‘Diário de Uma Criada de Quarto’”.

Que regalo é, para os nossos olhos e ouvidos, ouvir os comentários da criada Séverine ao desabafo sincero que Buñuel deixou escrito sobre este jantar no primeiro livro atrás identificado. Aliás, todos os comentários e vocabulário pitoresco desta criada são imperdíveis.

Já há muito tempo que não via uma peça de teatro assim, descontraída mas séria, despreocupada mas rigorosa, leve mas carregada de peso histórico, divertida mas dramática, solitária mas cheia de fantasmas, em monólogo mas cheia de diálogos do passado de uma família desaparecida mas viva nas memórias de quem só tem as saudades e estas histórias para contar como forma de vida.

Todo o texto está pincelado de referências artísticas, culturais e históricas como Luis Buñuel, e o seu filme “L’age d’Or”, Tristão e Isolda, Marléne Dietrich, Errol Flynn, Eva Braun, Goethe, Michaelangelo.

O fim do espectáculo é único, contrastante, surpreendente e arrebatador. Entram, inesperadamente, dezenas de actores em cena representando os fantasmas de inúmeros e famosos mecenas como Peggy Guggenheim, Lourenço de Medicis, Calouste Gulbenkian, Frederico II, Marquês de Cuevas, Madame Gertrude Stein, Frau von Stein, Esterhazy, Catarina da Rússia, as irmãs Mitford, Júlio II, Kahnweiller… e por fim, o Conde Charles de Noialles, o fantasma nº 33 que “chega apressado agitando na mão um cartão de crédito do BPI e a dizer: Eu financio! Eu financio! Eu financio!”.

Às quintas-feiras, Séverine recebe agora na sua mesa de pé de galo, no palacete dos Noialles, os fantasmas de 33 mecenas e celebra com eles o amor à arte e à vida. Às sextas-feiras, o “dia de mais movimento” da semana no palácio, Séverine recebe outras festas e pessoas, bem diferentes dos seus tempos e memórias, pois, para poder sobreviver, arrenda quartos “a uma rapariga brasileira que por acaso até é rapaz”.

Elsa Galvão é uma actriz sublime e fora de série. Cativa e deslumbra durante todo o espectáculo. Jorge Silva Melo sabia-o de antemão, e ficou provado que este texto só podia ter sido escrito para esta radiosa actriz.
Vânia Rodrigues e Pedro Lamas interpretam graciosamente Nadja e Objectrouvé que só fala em latim, os irmãos gémeos religiosos e incestuosos, com especial destaque para a Vânia Rodrigues que interpreta notavelmente a Cantiga Manifesto «Cantiga da Harmonia Conjugal ou A arte não serve para nada» no final, como um brinde consequente e provocador à cena anterior que tem quase duas dezenas de actores em palco só para aquele momento.

Pedro Mendes, o Conde de Noailles, esteve elegante e bem no seu breve papel.

Todos os outros actores – António Simão, David Granada, Diogo Garcia, Estêvão Antunes, Inês Cunha, Jessica Anne, Joana Barros, Joana Sapinho, João de Brito, João Delgado, Marta Borges, Miguel Aguiar, Raquel Leão, Ricardo Batista, Rúdi Fernandes, Sara Moura, Sérgio Conceição, Susana Oliveira e Tiago Nogueira – que participam de corpo e alma, mas em silêncio e por breves segundos, estiveram igualmente radiosos e cheios de presença e glamour em palco.

O cenário é simples e belo. Uma sala aveludada com uns cortinados vermelhos, com uma criada, uma mesa e um lustre invejável.

A encenação está genial, tem soluções cénicas simples, eficazes e que permitem ao espectador seguir o texto sem se perder no tempo e espaço como acontece quando a criada fala directamente para o público ou para o Conde ao longe, ou o pormenor da criada a contar as 32 campainhas como se fossem as badaladas do Bolero de Ravel, ou o Conde aparecer na última cena, vindo do público de surpresa e, agora como fantasma, incluir a aparição repentina, surpreendente e arrebatadora de dezanove actores em palco, maravilhosamente vestidos, caracterizados e encarnados na personagem de mecenas.

Momento apoteótico. O público só pode ter ficado de boca aberta, sorriso fechado e olhar paralisado como eu. Percorri todos num rápido e atento olhar, tentando apreciá-los em pormenor. Tive pena de ter sido tão fugaz essa aparição! Que luxo, que cores, que luz, que imagem! Não imagino maior e melhor homenagem aos mecenas do que esta. Que magia, que encantamento, que maravilha! Parabéns às maquilhadoras e cabeleireiras Eva Silva Graça e Ana Duarte com o apoio da actriz Alexandra Viveiros, a quem agradeço a ajuda e disponibilidade. Parabéns a todos!

Rita Lopes Alves, regente da cenografia e figurinos e Pedro Domingos, o desenhador de luz, que fez um trabalho discreto mas bem feito, estão igualmente de parabéns.

Que mais posso acrescentar? Eis um espectáculo que honra e premeia as artes e os seus mecenas e que justifica, sem sombra de dúvida, uma ida ao Porto e esgotar as lotações no Teatro Carlos Alberto nos próximos dias 16, 17, 18 pelas 21h30 e 19 de Setembro, pelas 16h, provando assim que esta peça que, alegadamente “não tem qualquer importância” (uma blasfémia provocadora de Jorge Silva Melo) tem muita, mas mesmo muita, importância e faz falta sempre no bom teatro português!

Bem hajam, Jorge Silva Melo, Artistas Unidos, Culturgest, e Festival de Teatro de Almada! A não perder!

Fotografia de Jorge Gonçalves



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