Fantasporto 2013 | Reportagem

Fantasporto 2013 | Reportagem

Um lugar de encontro, de calor humano, onde se podem realizar os sonhos

Chegou ao fim a 33ª Edição do Fantasporto. Apesar da conjuntura que o País atravessa, aquele que é o festival de Cinema português mais reconhecido pelo Mundo, levou a bom termo a intenção de brilhar no meio da escuridão.

E de escuridão foi feito, no fundo, porque assim que as luzes se apagam e a tela se ilumina com histórias fantásticas, a crise e as suas vicissitudes e assimetrias desvanecem-se.

Antecedido por três dias de pré-festival, onde já se prenunciava o potencial da mostra deste ano, os dez dias de festival trouxeram até ao público verdadeiras obras cinematográficas, visões díspares do mundo em forma de filme, provenientes de dezenas de Países diferentes.

Vários são os números que a organização lançou a público sobre o sucesso do festival, como os mais de quarenta mil espectadores que passaram pelos acolhedores auditórios do Rivoli. Da mesma forma, os apelos multiplicaram-se, pois a continuidade do Fantasporto pode estar em risco.

No seu discurso de encerramento, algo emocionado com a ocasião, o director do festival Mário Dorminsky não poupou palavras contra promessas por cumprir e burocracias. Reforçando a sua revolta quanto ao apoio que recebem outros eventos e suportando a sua opinião sobre os turistas que apreciam o Norte, afirmou peremptoriamente que “Lá fora o Porto é Portugal, não é paisagem. Como considerado por esse ainda micropaís chamado Lisboa”.

Mario Dorminsy

Secção Oficial Cinema Fantástico

Problemas à parte, para a História ficam os nomes dos vencedores do festival. Dentre estes, o grande vencedor foi “Mamã”, que se encontra também em exibição no resto do País.

Nascido de uma curta-metragem realizada e produzida, respectivamente, por Andrès Muschietti e Barbara Muschietti, regressa agora como longa com a garantia de Guillermo del Toro e arrecada o Grande Prémio Melhor Filme Fantasporto 2013, Melhor Realização (Andrès Muschietti) e Melhor Actriz (Jessica Chastain). “Mamã” conta a história de um casal que se vê obrigado a cuidar das sobrinhas que viveram na floresta por cinco anos e cujo regresso inclui algumas intensas surpresas.

Nas suas duas subidas ao palco, o realizador brindou a plateia com o seu sentido de humor e com a mensagem de que todos preservassem o amor das suas mães.

O prémio de Melhor Actor foi entregue a Toby Jones pelo papel de engenheiro de som em “Berberian Sound Studio”. No filme, enquanto tenta recrear com objectos reais os sons de um filme de terror italiano, o especialista acaba por desesperar pelo regresso à sua terra de origem onde encontrará a paz que perdeu com este trabalho.

O prémio de Melhor Argumento foi para Alex Shmidt e Valentin Mereutza do filme “Forgotten”, do próprio Alex ASchmidt, um thriller de terror que conta a história do reencontro entre duas amigas.

José Luís Aleman e a sua curta “Hotel” venceram o prémio de Melhor Curta-Metragem Fantasporto 2013 e o prémio de Melhores Efeitos Especiais e Fotografia foi para “Iron Sky” de Timo Vuorensola, uma sátira política com nazis na lua, muito humor e alguns pormenores non sense.

“O Apóstolo”, animação galega de Fernando Cortizo e primeiro stop motion estereoscópico da Europa, recebeu o prémio Especial do Júri.

Prémios Fantasporto

Três prémios foram atribuídos no festival com este nome. Bernard Despomadères foi distinguido pelo seu trabalho de promoção do Cinema francês em Portugal, tendo reiterado, na cerimónia de entrega, a amizade que nutre pelo Porto, pelo País e pelos organizadores do festival.

Jean Loup Passek e Paulo Neves foram os restantes distinguidos, o primeiro pela personalidade que é no mundo do Cinema, tendo doado o seu espólio à autarquia de Melgaço, e o segundo por ser o escultor das obras que povoaram os espaços físicos do festival.

Manoel de Oliveira

Um dos momentos mais emotivos deste festival foi a homenagem ao decano dos realizadores mundiais pelos setenta anos de “Aniki Bobó”, o filme de Teresinha e os seus dois pretendentes, um retrato do Porto fluvial e das traquinices típicas das crianças da época. Elogiado pelos organizadores e por Fernanda Matos, a própria Teresinha, Manoel de Oliveira agradeceu de forma sentida, contando que este seu filme foi retirado de exibição por ter sido mal recebido pelo público e pela crítica. No Fantasporto, aquele que o próprio considera o seu filme mais aclamado recebeu uma longa ovação, que mais tarde se repetiu na cerimónia de entrega de prémios onde o realizador de 104 anos ainda no activo esteve também presente.

23ª Semana dos Realizadores – Prémio Manoel de Oliveira

Com o nome do grande realizador português, a Semana dos Realizadores é uma das duas competições paralelas aos prémios de Cinema fantástico.

Desta feita os prémios dividiram-se entre o sul-coreano Kim Ki Duk, realizador de “Pietà”, e o russo Karen Shakhnazarov com o seu “White Tiger”, ambos já premiados em edições anteriores.

O filme de Shakhnazarov, baseado em factos verídicos, é uma história do final da Segunda Guerra Mundial que retrata o mistério envolvente a um tanque nazi apelidado de “White Tiger” que massacra as tropas russas quando aparece vindo do nevoeiro. Venceu os prémios Especial do Júri, Melhor Realizador e Melhor Actor (Aleksey Vertkov).

A história de um jovem e violento cobrador para agiotas e da mulher que diz ser sua mãe, inspirada na obra de Michelangelo como o nome e o cartaz indicam, é um filme duro de se ver que mostra o lado mais negro do dinheiro, a perda de valores, a vingança e a degeneração da humanidade em alguns, mas que também reafirma o amor e o perdão, por entre cenas de elevado teor violento e sexual. Já premiado noutros festivais, recebeu o prémio de Melhor Actriz (Cho Min-Soo) e, principalmente, o prémio de Melhor Filme da Semana dos Realizadores.

O prémio de Melhor Argumento coube aos criadores do argumento de “Kauwboy”, Jolein Laarman e o também realizador Boudewijn Koole.

Orient Express

Esta secção do Fantasporto é, como indica a sua denominação, dedicada aos filmes orientais.

O Prémio Especial coube a “The Weight”, de Jeon Kyu-hwan, que conta a história de Jung, o último cuidador dos mortos numa morgue, que vive entre a realidade e a fantasia dada a sua condição de agente funerário.

O desejado prémio de Melhor Filme foi atribuído a “The Grand Heist”, de Joo-ho Kim. Passado na Coreia do Sul de há 250 anos, trata de um rapaz subestimado que é afinal o cérebro que arquitecta uma armadilha para o corrupto primeiro-ministro que controla o comércio de gelo, produto mais importante do que o ouro. Com um plano infalível que não pára de surpreender, reúne os mais diversos especialistas, génios e loucos, para roubar todo o gelo ao tirano e desmascarar a sua verdadeira índole. Um divertido filme que nos recorda o “Ocean’s Eleven” com teor histórico e muitas referências jocosas à nossa realidade ocidental.

Prémio Carreira e prémios não oficiais

Além de todos os premiados pelo festival, também “Thale” de Aleksandre Nordaas recebeu o Prémio do Público. Baseado no folclore escandinavo, “Thale” aborda a existência de huldras, seres das florestas que atraem os humanos, seduzindo-os, e conta a história de um belo espécime que é mantido longe dos seus semelhantes como objecto de estudo.

O Prémio da Crítica pertence agora a “The Seasoning House” de Paul Hyett, que se passa numa casa de prostituição onde raparigas muito jovens são exploradas de forma violenta e desumana. Uma jovem muda cuida delas e decide vingar a morte de uma das suas amigas devido aos maus tratos, alterando para sempre o rumo daquela casa.

António de Macedo, realizador português afecto ao Cinema fantástico, foi distinguido com o Prémio Carreira Fantasporto 2013, tendo-se feito representar pelo filho na cerimónia de entrega dos prémios, não sem antes agradecer em vídeo num divertido tom contagiante, expressando votos para que “estes 118 anos de cinema se repitam, pelo menos por mais 118.”

Em bom Português

Chama-se Restart – Instituto de Criatividade, Artes e Novas Tecnologias a escola vencedora do Prémio de Cinema Português Escolas de Cinema e a organização do Fantas fez questão de frisar a evolução que se tem notado na qualidade das produções escolares.

Apesar do título do filme vencedor do Prémio de Cinema Português Fantasporto 2013 ser “Mia Mia Sudan Tamam Tamam”, não podia ser mais Português, como demonstra o discurso abrilhantado com sotaque de Luís Moya que agradeceu à sua “menina, a minha cybershot” e ao seu telemóvel utilizados no projecto porque, como terminou, “assim se faz Cinema”.

Secção Oficial Première & Panorama e outros destaques

Além dos premiados há outros filmes a destacar pela qualidade.

“Robot & Frank”, filme de encerramento do festival, conta-nos a história de um ex-condenado por roubo com problemas de memória. Por não poderem estar presentes, os filhos compram-lhe um robot andróide com quem Frank acaba por criar uma estranha mas agradável relação.

Realizado por Kristina Buozyte e produzido por Bruno Samper, presentes no festival, “Vanishing Waves” é um drama de ficção científica quase hipnótico que decorre entre o exterior e o interior do cérebro de duas pessoas, ligadas entre si por uma experiência científica, uma em coma profundo, outra consciente, que acabam por viver um romance repleto de erotismo, ansiedade e dor.

Com Jessica Biel no papel principal e realizado por Pascal Laugier, “The Tall Man” é uma trama de dúvidas entre a razão e o sentimento de fazer arrepiar qualquer mãe, principalmente as de Cold Rock, onde as crianças desaparecem às mãos de um homem misterioso.

“Tulpa”, um tributo de Federico Zampaglione ao género giallo, mostra-nos um clube privado de um guru tibetano onde a promiscuidade é fonte de libertação. No entanto, quando as mortes dos membros se sucedem, a única pessoa em comum entre eles começa a investigar.

Realizado por Juan Carlos Medina, “Insensibles” é sobre um grupo crianças estudadas num hospital porque não têm dor. Como isso tem repercussões no passado e no futuro de pessoas que desconhecem a sua existência é algo que se descobre passo a passo, num enredo cheio de prolepses e analepses que nos transporta pelo passado, pelo presente e pela reflexão dos valores que a guerra faz perder.

Acima de tudo, o Fantasporto é um festival de pessoas, onde os olhares cinematográficos se cruzam, onde os directores do festival e os realizadores estão entre os espectadores, onde se vivem momentos a recordar e onde se brinca.

A cerimónia de encerramento, que contou com a presença de grande parte dos premiados, foi vivida de forma divertida. Entre os mais animados estiveram José Luis Aleman (realizador da curta “Hotel”) que dedicou o prémio à mulher grávida e afirmou estar assustado porque todos os três filhos foram concebidos aquando das suas três produções e já assinou contrato para uma série com dezoito episódios; Silje Reinamo, actriz principal de “Thale”, que se declarou tão surpreendida ao ponto de ter de comprar um vestido numa conhecida loja de vestuário do País vizinho; Barbara Muschietti de “Mamã”, disse sobre o irmão que “continua a ser o mesmo idiota de sempre” mas que adora fazer filmes com ele, brincando com o “bom gosto do júri” para com o seu filme e com o prazer que o Porto lhe proporcionou ao ponto de saber que o estranhará. Andrès Muschietti ainda acrescentou “que ao fim de uma semana a minha irmã regresse a casa solteira é…”.

No meio de palavras sentidas e de alegres sorrisos dos vencedores fica a vontade de que o Fantasporto se repita por muito mais anos porque, citando o premiado Despomadères, este festival é “um lugar de encontro, de calor humano, onde se podem realizar os sonhos”.

Até para o ano!

 

Fotografia: Andreia Filipa Cardoso



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