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Fantasporto 2017 | Reportagem

O Fantasporto – “Fantas” como é carinhosamente chamado por muitos que o frequentam - voltou a dinamizar a Invicta pelo trigésimo sétimo ano consecutivo, escolhendo para a celebração um edifício tão emblemático como o festival em si: o teatro Rivoli.

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Foi nos acolhedores auditórios deste belo edifício que assistimos a uma variada selecção de cinema maioritariamente contemporâneo, mas onde houve também espaço para pequenos e saudáveis mergulhos no passado, como o caso do filme de culto “Drop Dead Fred”, uma hilariante – muitas vezes absurda – comédia negra com elementos de fantasia da autoria de Ate de Jong. No âmbito da homenagem com o prémio carreira, a organização do festival decidiu exibir a mais recente proposta do realizador holandês ( love Is Thicker Than Water”) em conjunto com esta obra de 1991, que conta com a participação da lendária Carrie Fisher.

Para todos os efeitos, a apreciação de um filme como “Drop Dead Fred” depende da abertura que o espectador aceite ter durante a visualização. Aproximando-se frequentemente do território do ridículo – e estando plenamente consciente disso – o filme é altamente contagiante se nos deixarmos levar pela onda de gargalhadas que tão eficazmente oferece através da sua loucura caótica. Contudo, o mais curioso é constatar que, no meio de toda a brincadeira, acabam por ser abordadas questões sérias sobre, por exemplo, a necessidade de um amigo imaginário em tempos difíceis; um filme bastante original e divertido, ainda que a sua excentricidade não agrade a todos.

Ainda no campo de comédias deliciosamente absurdas destacamos “Omg, I`m a Robot”, filme israelita sobre um jovem de emoções particularmente intensas e que descobre que é, na verdade… um robot. Estamos, como é fácil de perceber, perante um filme feito essencialmente para proporcionar um bom serão ao espectador e fazê-lo rir, ainda que acabe por questionar o que é que nos torna verdadeiramente humanos. Contudo, mesmo isso é apresentado de forma leve e o filme mantém-se fiel á sua natureza cómica. Absolutamente recomendável.

Contudo, houve muitos outros tipos de cinema exibidos ao longo do Fantasporto e isso reflectiu-se na lista de premiados. ReAlive” de Mateo Gil (responsável pelos argumentos de filmes como Mar Adentro”) conta a história de um homem chamado Max, diagnosticado com uma doença incurável e que decide congelar o seu corpo na esperança que a medicina do futuro o possa curar. Esse desejo torna-se realidade, mas tem o seu custo: Max perde a companhia  da sua mulher de sonho e acorda numa sociedade avançada mas que lhe é estranha.  Um drama onde a evolução tecnológica e a ética se confrontam, e que conquistou o prémio para melhor filme e melhor argumento.

Num tom bem mais simples e meigo, Saving Sally” obteve o prémio especial do júri (assim como uma menção honrosa nos prémios Orient Express) por, como descreveu a organização, taking a simple love story and expressing it in a very imaginative and creative way. Verdade seja dita, a descrição resume na perfeição o filme de Avid Liongoren , na medida em que pega na fórmula do Boy Meets Girl (um rapaz apaixona-se por uma rapariga e tenta conquistá-la, nunca desistindo) e adiciona-lhe uma mistura fantástica de live action com animação, resultando na criação de um universo visualmente fascinante. Podemos dizer que narrativamente é bastante linear, mas parte do charme reside nessa assumida simplicidade, na maneira como apresenta uma doce fantasia no qual a audiência investe emocionalmente e deseja que aconteça na vida real – afinal, quem não procura encontrar a pessoa ideal com quem passar o resto da vida? Tendo isso em conta, não é de admirar que “Saving Sally” tenha também ganho o prémio do público.

Todavia, a vida nem sempre é um mar de rosas e algum do cinema que passou pelo Fantasporto fez questão de mostrar – ou relembrar – precisamente isso. “Pamilya Ordinario” mostra-nos um casal adolescente, com poucos meios, que tenta da melhor forma educar a sua criança. Esta é eventualmente raptada e os dois jovens partem numa busca para a encontrar. Um drama poderoso do início ao fim (e sobretudo no fim – mais não dizemos) que granjeou os prémios Melhor Filme Semana dos Realizadores e Melhor Actriz para Hasmine Killip.

Por falar em impressionante, o filme “Lines”, do grego Vassilis Mazomenos, poderá não ter ganho prémios, mas ganhou a nossa admiração. Uma obra emotiva de uma forma desconfortável, que versa sobre a situação económica na Grécia – e na Europa em geral – concentrando-se na forma como as pessoas tentam lidar com a situação miserável em que se encontram, e como as suas vidas se transformaram num mar infinito de desespero. Uma obra em que a ficção se torna muito real, numa visualização tão maravilhosa como desafiante. Simplesmente brilhante.

A preocupação do Fantasporto em mostrar cinema que se foca nos problemas que afectam a sociedade foi, portanto, um dos destaques do festival, tendo também “Sins of the Flesh” – que analisa as consequências do adultério na civilização muçulmana – recebido bastante carinho na forma de dois prémios: o de melhor actriz para Nahed El Sebai e o prémio especial do júri (Semana Realizadores). Pelo seu lado, “ The Citizen” – a história de um homem negro que tenta durante vários anos tornar-se um cidadão húngaro – foi reconhecido com o prémio para melhor argumento, também dentro da categoria Semana dos Realizadores. Destaque ainda para The Net ”, obra sul-coreana de Kim ki – Duk que também conquistou o prémio para melhor filme na secção Orient Express e o prémio de melhor actor para Park Ji-Il (Semana Realizadores). Ainda dentro desta última categoria, Kim Jee-Woon foi eleito o melhor realizador com The Age of Shadows, um sólido drama recheado de acção que versa sobre uma luta entre resistentes coreanos contra invasores japoneses. Ainda que algo longo, é um projecto ambicioso e com momentos de uma intensidade admirável.

Há também que referir o bom trabalho que foi desenvolvido no nosso país, sendo que “Um Refugio Azul”, de João Lourenço, levou para casa o prémio de melhor filme português, ao passo que o Politécnico do Porto foi eleito a melhor escola de cinema portuguesa e “Schlboski” de Tomás Andrade e Sousa, da ETIC, recebeu uma menção especial do júri para filme de escola na área da criatividade.

No entanto. fora dos vencedores,  houve naturalmente amostras fantásticas. Foi isso que sentimos ao verA Floresta das Almas Perdidas” de José Pedro Lopes. Inicialmente um drama, rapidamente evolui para o universo do terror, num salto estilístico extremamente bem dado. Junte-se a isto a escolha inteligente de um cenário a preto e branco que enfatiza a melancolia inerente à história e ainda o desempenho memorável de Daniela Love, e temos aqui uma das melhores produções portuguesas dos últimos anos.

O cinema de terror/fantástico é, de resto, um dos pilares da programação do Fantasporto, pelo que a sua presença não foi esquecida na entrega de prémios. “Caught”, onde o britânico Jamie Patterson nos mostra um tenso e bizarro episódio na vida de um casal que recebe uma inesperada visita de maléficos seres misteriosos (certamente um dos mais eficazes filmes de terror desta edição), recebeu o prémio da crítica, dividindo-o com “Division 19” de Susie Halewood.

Frederick Koehler foi honrado com o prémio de melhor actor pelo seu desempenho em “The Evil Within”, um filme onde um drama intenso, enraizado em questões de identidade e problemas familiares, se associa a um terror absolutamente perturbador. Já “Dearest Sister” de Mattie Do foi reconhecido com o prémio especial Orient Express.

Outro grande vencedor, ainda na área do terror, foi o filme irlandês “A Dark Song”, ao qual foi atribuído o prémio de melhor realização para Liam Gavin e o de melhor actriz para Catherine Walker.

No campo de melhores efeitos especiais, “ The Darkest Dawn” de Drew Casson triunfou. No das curtas-metragens, Espanha foi a vencedora com “ Cenizo” de Jon Mikel Caballero (ao passo que “Garden Party” recebeu uma menção especial).

Houve igualmente um prémio de carreira para Gloria Perez, argumentista e vencedora de um Emmy. No que diz respeito aos prémios especiais do Fantasporto, foram dados à pintora Catarina Machado e à famosa rede de televisão brasileira Globo.

O Brasil esteve, na verdade, bem representado nesta edição, não só através do filme Punch the Clock/ a Repartição do tempo”, que conseguiu uma menção honrosa por parte do júri, como também graças a “ Through the Shadow”( Através da Sombra), um trabalho deveras interessante onde Walter lima Jr assina um thriller de elementos sobrenaturais e recheado de suspense, com direito a um final onde a narrativa é deixada em aberto…

Assim foi o Fantasporto, um evento que ano após ano continua a oferecer-nos a oportunidade de vermos filmes que, muito provavelmente, passariam ao lado se não fossem aqui exibidos. Acima de tudo, é uma tradição que já faz parte da cidade e que esperamos que continue por muito tempo. Até para o ano!

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