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Cinema e Arquitectura no Fantas

Sobre as ruínas do futuro.

A organização do Fantasporto lançou o desafio e a Ordem dos Arquitectos aceitou: pensar as relações entre cinema e arquitectura na retrospectiva “Cinema e Arquitectura” que ocupou este ano o período pré-Fantas de contagem decrescente até à abertura oficial. Houve filmes e conferências com convidados de prestígio. E o público adorou.

A abertura oficial da edição 29 do Fantasporto estava marcada apenas para sexta-feira, dia 20 de Fevereiro, mas entre segunda e quinta-feira já havia programação. O Fantasporto, em colaboração com a Ordem dos Arquitectos e por intermédio do comissário-arquitecto Jorge Patrício Martins, escolheu filmes e convidou os arquitectos Sou Fujimoto e Marcos Cruz com o objectivo de problematizar o diálogo entre duas áreas que partilham experiências entre si. Numa cidade como o Porto, com tradições cinéfila e arquitectónica muito fortes, e ainda por cima com uma nipónicofilia (a ver se o neologismo pega) galopante, o ciclo “Cinema e Arquitectura” tinha tudo para resultar – e resultou mesmo.

As salas estiveram sempre compostas durante os quatro dias de projecção (11 sessões, sempre nocturnas) e as conferências “Sobre as Ruínas do Futuro” (na terça e na quinta-feira) quase encheram o Grande Auditório. O próprio Mário Dorminsky, director do festival, mostrou-se surpreendido com o sucesso do ciclo no início da conferência de quinta-feira e voltou a frisar o êxito da retrospectiva na conferência de imprensa do último dia de festival. O arquitecto Jorge Patrício Martins diz ter-se tratado de um “pré-Fantas que foi um verdadeiro Fantas” e justificou este ciclo com o interesse em que as pessoas fizessem uma reflexão ao “discutir o que é a cidade, o que é a arquitectura, qual a nossa relação com ambas e também com as novas tecnologias”.

Os filmes

Uma vez que o Fantasporto é um festival de cinema, vou começar pelos filmes. Houve escolhas mais óbvias do que outras: se “Blade Runner” e “Metropolis” são decisões pouco originais mas sempre válidas, “Dark City” e “Immortel” foram boas surpresas, ao passo que “Breaking and Entering” foi claramente o elo mais fraco de uma selecção no geral consistente. Ainda assim, duvido que fosse realmente necessário rever “Artificial Intelligence” (sobretudo quando acompanhado da seguinte sinopse: “qualquer filme de Spielberg é sempre uma obra-prima”).

Parece-me também que faltou alguma articulação entre a escolha dos convidados e a selecção de filmes. “The Dead Zone” ou “eXistenZ”, por exemplo, ambos do canadiano David Cronenberg, teriam ido muito bem com a conferência de Marcos Cruz. E, a propósito de Sou Fujimoto, não há maior desafio urbanístico no Japão do que Godzilla, por isso teria sido bom assistir a “Godzilla, King of the Monsters” em qualquer um dos auditórios. O comissário Jorge Patrício Martins disse que o critério na selecção foi o de filmes que tivessem que ver com “visões sobre a cidade, sobretudo com a ideia de cidade no futuro” e que, ao mesmo tempo, “reflectissem preocupações actuais”. Cá vai uma preocupação actual pessoal: não ver mais filmes de Michael Bay (presente no ciclo com “The Island”) depois do falhadíssimo “Transformers”.

As conferências

As conferências “Sobre as Ruínas do Futuro” com os arquitectos Sou Fujimoto e Marcos Cruz foram o grande trunfo do ciclo “Cinema e Arquitectura” e o maior indicador do seu sucesso. Mário Dorminsky confessou no discurso de encerramento do festival que só por exigência da Ordem dos Arquitectos se realizaram no Grande Auditório, quando ele próprio achava o espaço demasiado grande para o interesse que adivinhava irem suscitar.

Mas estava enganado: ambas as conferências foram bastante participadas e o público pareceu rendido à oportunidade de ver e ouvir ao vivo dois dos arquitectos mais originais do panorama internacional. Pessoalmente, e como ponto negativo, apontaria o interesse superficial de ambos os convidados em falar de cinema ou em, pelo menos, relacionar mais directamente os seus conceitos de arquitectura com a outra metade temática do ciclo. Ainda assim, as duas conferências, prolongamentos lógicos das sessões de filmes, foram oportunidades interessantes e uma aposta ganha da organização, ainda que potencialmente mais interessantes para estudantes de arquitectura do que para amantes de cinema.

Jorge Patrício Martins descreveu Sou Fujimoto, convidado de terça-feira, como um arquitecto que “põe em causa os conceitos da arquitectura e que é extremamente inovador a esse nível” através da inversão da lógica da “relação tradicional da construção com as pessoas e a envolvente, criando conceitos extremamente simples e relações espaciais novas”. O arquitecto japonês adapta-se na perfeição à dicotomia passadoVSfuturo implícita no nome das conferências. A comprová-lo está o título que escolheu para a sua apresentação: “Primitive Future”.

De resto, esta noção de um modernismo de pulsão primeva está muito em voga até noutras áreas artísticas, nomeadamente na música. Fujimoto, de visita a Portugal pela primeira vez, começou com uma tentativa ternurenta de falar português e logo na terceira frase mencionou Siza Vieira – rotina de rock star que conquistou o público. Para o japonês pensar o futuro é sinónimo de pensar sobre arquitectura e ao longo de quase duas horas Fujimoto foi mostrando em slides projectos seus, a maioria dos quais (surpreendentemente) construídos ou em vias de construção.

Trabalhos como o edifício-nuvem, uma estridência orgânica a fazer lembrar uma trepadeira em que as escadas são, ao mesmo tempo, prateleiras e mesas. Esta fuga à ortodoxia está presente em todo o trabalho de Fujimoto: sem chão, sem escadas, sem pilares – uma arquitectura funcional mas não pré-determinada. A sensação de um caos ordenado também é uma variável constante, assim como a predominância do conforto e funcionalidade sobre a beleza, embora todos os seus trabalhos sejam visualmente apelativos.

Trabalhos ainda como a sua biblioteca pentagonal que forma uma espiral sobre si própria; ou como “Tokyo Apartment” que reflecte na perfeição o binómio homem-natureza e em que as casas se engalfinham umas nas outras formando uma habitação colectiva que parece mais uma aldeia do que um condomínio; ou como a “House before House” em que cada casa é uma casa-vaso emparelhada a uma árvore e cuja vista geral se assemelha a uma floresta 3D; ou como a sua caverna de madeira que faz lembrar um gigantesco jogo de Tetris 3D (olá Virtual Boy da Nintendo). As suas construções mais emblemáticas são, no entanto, outras, ambas numa matriz de arquitectura comportamental em que o desenho não define mas prepara comportamentos. A primeira: no centro de tratamento para crianças, Fujimoto dispõe edifícios de forma aleatória no que chama “no design”, criando, no processo, espaços aleatórios entre cada edifício, clareiras para criar relações. Para um português, as comparações com a cultura castrense ibérica são quase inevitáveis, apesar da referência histórica para Fujimoto ser a caverna (as suas qualidades, não as suas características).

A segunda: em “House N”, um fantástico jogo de escalas e gradação, o arquitecto japonês desafia ao limite as noções de interior e exterior, construindo sub-unidades dentro de uma parede exterior que serve basicamente como um exoesqueleto. O resultado final é uma casa-matrioshka naquele que é provavelmente o seu trabalho mais cinematográfico: um edifício que incorpora imagens do exterior (os buracos-janela são molduras vivas para a envolvente urbana) numa sensação de continuidade permanente que funciona como uma montagem de imagens, planos e sensações (“House O” entra na mesma categoria). A leveza da arquitectura do livre-arbítrio de Fujimoto é resultado das paisagens acidentais que constrói, da ambiguidade dos seus interiores, da ramificação das suas possibilidades.

Marcos Cruz, orador convidado na quinta-feira, é um arquitecto embrenhado “num processo vanguardista” segundo palavras do comissário Jorge Patrício Martins, seu antigo professor. Radicado no Reino Unido, o arquitecto português saltou para o radar generalista nacional depois de ser distinguido pelo Royal Institute of British Architects pela sua tese de doutoramento “The Inhabitable Flesh of Architecture”. De resto, a influência britânica é notória ao nível das referências de Marcos Cruz: Peter Cook, Nicholas Grimshaw e Future Systems.

O comissário pareceu ter adivinhado a desconfiança da audiência perante Marcos Cruz e toma da palavra antes do convidado para falar das dificuldades em introduzir uma nova arquitectura face à tradição da escola do Porto, realçando ao mesmo tempo o pioneirismo do ex-aluno nas teorias do desconstrutivismo. E foi ao longo de 125 slides que Marcos Cruz teorizou sobre o seu conceito de arquitectura, numa apresentação a que chamou “Qual o rumo da nave espacial Terra?”, mais casual e menos solene do que a de Fujimoto, facilitada, claro, pela língua em comum. Apesar das pontes com o cinema muito mais explícitas do que tinha acontecido na terça-feira com o colega japonês, Marcos Cruz quase que abriu a sua intervenção avisando que não iria falar de cinema. Em comum com Fujimoto a obra de Marcos Cruz tem uma certa ideia subjacente de retorno, embora com o português seja um retorno quântico para a frente, pelos caminhos da biologia, engenharia e tecnologia num contexto de novas cidades como máquina urbana.

Ainda nos momentos iniciais Marcos Cruz menciona o filme “Barbarella” e contrapõe a visão positiva e inocente de alguma ficção científica (que reflectia a esperança num futuro melhor, veja-se o livro “Where’s My Space Age?”) ao título pessimista das conferências que reflecte um outro género de sci-fi e daí parte para outros filmes como “Blade Runner” (os edifícios multimédia) e “Matrix”. Outra diferença entre Marcos Cruz e Fujimoto: o português não foge à categoria de “avant-garde”, ao contrário do japonês que tentou apresentar-se como um prolongamento lo-fi mas hi-tech da cultura tradicional do seu país. Para o português a arquitectura avant-garde é aquela que flutua, que foge do solo – que cria, portanto, um novo enquadramento paisagístico. Depois, Marcos Cruz passou para alguns proto-exemplos de evolução arquitectónica como a China ou o Dubai: “a inovação não está na verticalidade, a arquitectura é mais do que uma barreira física, é imagem em movimento” e, de novo, uma referência directa (ainda que provavelmente involuntária) à linguagem do cinema.

Depois partiu para o corpo contemporâneo, insurgindo-se contra a falta de debate sobre o mesmo nos meios arquitectónicos – “a arquitectura moderna falhou o corpo” – e acusando os arquitectos de delegar nos cineastas a função de prever o futuro (ilustrando o seu argumento com screenshots de “Matrix”), demasiado consumidos que estão em pensar pontos, linhas e intersecções. Para Marcos Cruz esta arquitectura do corpo é muito atractiva pelo seu lado táctil e maleável, pelas novas barreiras que estabelece, pela transgressão da parede como tradicional limite – na concepção de Marcos Cruz a arquitectura serve sobretudo para habitar e o edifício para vivenciar (no sentido sensorial do termo: “a arquitectura deve ser sentida e vivida e não apenas observada como obra de arte”). O edifício está vivo e simula um organismo, trabalhando com escalas e espaços cromáticos. À arquitectura já não basta ser bonita e funcional: tem de ser imersiva, experimentável, sentimental.

A apresentação de Marcos Cruz, mais conceptual e expositiva do que a de Fujimoto, é todo um programa contra o que ele chama de “arquitectura estéril e branca” e contra as antigas noções da arquitectura como repositório cultural, como defesa e como espaço para a sociabilização. No final da apresentação, o arquitecto em representação da Ordem presente no palco, Luís Tavares Pereira, quase monopolizou a sessão de Q&A no que foi puramente uma discussão arquitectónica que certamente transborda para fora do Rivoli. Às acusações de ser um arquitecto de protótipos Marcos Cruz respondeu: “não faço protótipos, faço possibilidades”.

Apesar do sucesso, o ciclo “Cinema e Arquitectura” acaba este ano, havendo lugar em 2010 para uma nova problemática que explore um tema diferente. A sucessora provável da arquitectura é a robótica. Já podemos fazer apostas sobre os filmes que vamos ver para o ano. Pode ser que o Fantasporto convide o robô Robby para uma palestra.



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