Fátima

“Fátima”

As mulheres de João Canijo

Em 2011 numa entrevista à Rua de Baixo a propósito do lançamento do filme “Sangue do meu sangue”, conduzida por Inês Monteiro, o realizador João Canijo falou em fazer um “foot movie”, explicando que “andava à procura de uma situação em que pudesse fazer um filme exclusivamente com mulheres”. As mulheres e as relações que elas criam são temas queridos do realizador. Este filme é “Fátima” que estreou no passado dia 27 de abril.

A história é sobre de um grupo de mulheres transmontanas em peregrinação de Vinhais a Fátima por ocasião do 13 de Maio. Olhando para o mapa percebe-se que o realizador colocou a fasquia alta, pois este é o percurso mais longo que se pode fazer dentro do país.

Sobre a narrativa, invoco uma das cenas que mais gosto: durante a caminhada, quando as mulheres estão a rezar o terço, Isabel, interpretada por Teresa Madruga, ultrapassa-as, e é chamada a atenção, porque lhes parece falta de respeito ela não estar também a rezar. Isabel continua a andar, com os seus dois bastões de caminhada, e nem responde.

Com esta cena é dado o aviso: estas 11 mulheres não são uma entidade única.

O realizador individualiza-as, confere a cada uma motivações, um percurso de vida e escolhe momentos específicos para o transmitir ao espectador.

Um dos recursos que Canijo usa é investir numa cena mais longa que capta a personagem a caminhar sozinha em silêncio. Pela maneira como caminha percebemos o seu estado de espírito, a sua resistência e até alguns traços de personalidade.

Quando Canijo junta as mulheres, escolhe situações ou onde estão em causa as diferenças entre elas – discussões, queixas, diferentes opiniões sobre a logística da viagem – ou em que o grupo está a tentar manter o seu objectivo de chegar a Fátima – orar, cantar.

É um trabalho que se aproxima muito do registo documental, que permite ao espectador ser observador, às vezes voyeur, e que permite às actrizes desenvolver um trabalho mais imersivo na personagem, de resto um registo que já tinha sido feito em “Sangue do meu sangue” e documentado em “Trabalho de Actriz, Trabalho de Actor.”

Na cena da Isabel também o realizador levanta outra questão que se prende com o estado de espírito que um grupo quando vai em peregrinação deve ter. Canijo retrata mulheres em conflito, seja conflito interior, seja conflito provocado pelo brutal desgaste físico e emocional da caminhada que estão a fazer.

Arriscando-me na comparação, este não é um filme do tipo “Comer, Orar e Amar”, de meditações e pacificação interior. Como diz a Carla, interpretada por Sara Norte, “aqui ninguém é santo” depois de tudo acabar “voltam para as vossas vidinhas e para o ano há mais”. É por ser assim, que este filme é bom.

Apesar de estar escrito no trailer, para mim a real premissa de “Fátima” é esta: como é que 11 mulheres, que pouco ou nada têm em comum, se entendem para cumprir a tarefa que é percorrer 400 quilómetros a pé.

O que posso acrescentar é que vale mesmo a pena ver o filme para saber a resposta.

 

Ilustração de Joana Fernandes



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