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Fazer Quotidiano + Fazer Teatral + Fazer Performativo = 3D

"3D" da Mala Voadora, na procura de um entendimento sobre o real e a ficção, põe em equação o fazer quotidiano, o fazer dos actores e o fazer performativo de dois trabalhadores sexuais que se tornam no grande final que o espectáculo procurava.

Um espectáculo que se assume como uma interrogação sobre a diversidade performativa do fazer, merece que comecemos por tentar um levantamento das principais acções cénicas.

Comecemos por imaginar uma casa com sala, quarto e cozinha incorporada e um pequeno chuveiro ao fundo. Não é importante, por agora, sabermos que o recheio é todo da casa de Jorge Andrade (como já o era o do espectáculo “Single”). Ao fundo Jorge Andrade toma banho num pequeno chuveiro. Bruno e Anabela estão sentados na cama. D. Gracinda passa a roupa, D. Emília arranja a cozinha. Um pintor pinta a parede. Bruno decora um texto e Anabela passa com um vestido antigo, do tempo dos bailes da corte. Durante alguns minutos estas são as acções que se passam diante de nós.

Jorge Andrade sai do banho, vem à boca de cena explicar que era assim que acabava o “Single”. Pede a Bruno para ler a carta de um filho a um pai, em que este lhe falava da Etiópia, da desagregação do país. É nessa altura que Jorge Andrade explica que aquele é o cenário da sua casa. Esmiuça os vários elementos. Explica que agora pintaram uma parede que representava um pôr do sol exótico. Apresenta Tiago, D. Emília e a Gracinda que “não entraram no Single mas entram no 3 D que está a acontecer neste momento.”

Depois há uma cena que se destaca: Bruno surge a dizer uma lista de ingredientes de cozinha à D. Emília. A seguir os três actores, Jorge, Anabela e Bruno, vão sentar-se junto a uma mesa, de costas para o público, e ensaiam. Parece que rezam, que oram. A certa altura Anabela confessa:

“Tive uma ideia maravilhosa: vou dizer compota de morango de uma maneira totalmente diferente.” E diz: “Compota de Morango”. Depois repete várias vezes. Os actores jogam com os clichés próprios desta linguagem dos actores. Elogiam mutuamente “ a peça magnifica que têm entre mãos”. Jorge está preocupado com o final que ainda não têm. Começam a ocupar-se com as suas irritações e questiunculas privadas. “Ela implica sempre comigo quando se esquece do texto”, diz Bruno referindo-se a Anabela. “Parem com isso os dois!”- responde Jorge Andrade. Rezam o texto, e discutem, rezam o texto e discutem por pequenas coisas. Anabela a certa altura levanta-se para ir aos bastidores verificar se tem conversar ou falar no seu texto. Voltam a rezar o texto. Jorge lê as disdascálias e vai fazer de criado, vestindo um fato que retira do armário instalado ao lado da cama. Aspira o chão, um tapete persa, enquanto Bruno e Anabela mudam de roupa e o pintor arruma a cena.

Há uma pequena mesa com toalha branca e duas taças no lado esquerdo.  O casal burguês (Bruno e Anabela) prepara-se. Ao centro, os bancos estão em linha, virados para a parede, como se esta fosse um pequeno teatro. Tiago, D.Emília e D.Gracinda sentam-se nos bancos, virados para a parede, de costas para a cama. Neste momento eles representam que são público. Música. O criado distribui os canapés – que a D. Emília teve a fazer – pelo casal burguês e mais quatro actores que vêm representar um excerto de “Cocktail Party” de T.S. Elliot. A única coisa de substantivo que parece acontecer é o esvaziamento dos pratos de canapés e das taças, servidos pelo criado. Os palitos dos canapés amontoam-se no chão enquanto este frívolo espectáculo de teatro se desenrola. Entra um casal. Aproxima-se da zona da cama. Começam a beijar-se, despem-se. Fazem sexo. Hão-de ser os únicos que olham o público. Escuro. Fim do espectáculo.

3 D, um ciclo sobre o real, o quotidiano e a ficção

Falámos com Jorge Andrade sobre o espectáculo e também sobre o próprio projecto da Mala Voadora (entrevista a sair no número de Março) que desde 2003 já apresentou dezasseis espectáculos, alguns deles já noticiados aqui na Rua de Baixo. Depois de um ciclo sobre a identidade, surge esta reflexão sobre a natureza do trabalho performativo, do trabalho ficcional e do trabalho quotidiano. Jorge Andrade não quis ensaiar muito com o Tiago, a D. Emilia e a D. Gracinda, só ensaiou em questões de tempo. Explicou:

“Não quero que o passar a ferro, o cozinhar, o pintar possa ter uma componente performativa declarada. Ela é performativa porque colocada dentro de um palco.”

Porquê?

“Não queria que fossem trabalhados, contaminados pelo nosso fazer. Porque me interessava perceber o que é aquele fazer. E o que é o nosso fazer. Em que é que o nosso fica devedor da verdade do outro fazer.” Nós estamos a representar que estamos a ensaiar. Portanto há este fazer cru, quotidiano, este nosso fazer de pessoas cujo trabalho é representar e depois um fazer que tem uma componente performativa, sem simulação, que é o fazer dos trabalhadores do sexo. Eles não simulam, fazem mesmo sexo.

E entre si, estes diferentes fazeres, como estão?

“Há aqui uma componente política do que é o trabalho. Nós queremos colocar em pé de igualdade os vários trabalhos. Como um quadro único. O excerto da peça que apresentamos, o Cocktail Party,  é de uma grande vacuidade.”

Também é muito vazia a conversa entre os actores…

“E que no fundo são as nossas vidas. Estamos sempre a passar para último plano o conflito que deviamos tratar no espectáculo e a pôr à frente as nossas questões pessoais. E de repente quando aparece um casal a fazer sexo, que é uma coisa tão vazia de dramaturgia,  nós ficamos sem tapete. Aquilo vêm-nos dar um final que funciona. É o tal final que estávamos à procura. Como um culminar…é o trabalho que faz a súmula dos outros dois.

Que faz a súmula dos dois?

“Porque eles não estão a representar. Ele tem mesmo de estar excitado. E por isso aquele casal é o único que olha o público.” Tudo isto é um bocado o questionar-me qual é o sentido de continuarmos a fazer espectáculos.

Crise de sentido?

“Não, não é crise de sentido é só um leitmotiv para continuar a trabalhar. Um trabalho que  não é só encontrar temas que me parecem interessantes mas também descobrir a forma como os trato. Ajuda-me a reequacionar a linguagem que eu poderei utilizar em palco. E há também isto que é uma constante do nosso trabalho que é esta coisa política de investir no trabalho dos actores e na dramaturgia do espectáculo e não no cenário. Para mim não faz sentido o investimento diverso.”

3D

direcção Jorge Andrade . com Anabela Almeida, Bernardo de Almeida, Bruno Huca, Jorge Andrade, Rita Seguro, Vítor Oliveira, Wagner Borges e, também, Emília Ferreira, Gracinda e Tiago Rafael . cenografia e figurinos José Capela . fotografias de cena José Carlos Duarte . produção Manuel Poças . co-produção mala voadora e O Espaço do Tempo . agradecimentos Ilídio Silva, Júlio Esteves e Liz Vahia



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