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Feist @ Coliseu dos Recreios | 18 de Março

Perfeita

18 de Março de 2012. É noite de enchente na sala que dá para a Rua das Portas de Santo Antão. Quem não sabia disso, rapidamente fica informado pelos flyers acabadinhos de colar nas bilheteiras a informar que o concerto está esgotado. Cabe a Fionn Regan a honra de abrir para a canadiana mais desejada do momento. O irlandês surge em palco, por volta das 21h, de guitarra acústica em punho para apresentar alguns temas. Foi uma tarefa um pouco ingrata aquela que Fionn teve pela frente. Em primeiro lugar porque, ainda antes de entrar em palco, já toda a gente esperava por Leslie Feist. Em segundo lugar, porque continuam a existir pessoas que acham que uma sala de espectáculos é o sítio ideal para manter uma conversa com um concerto a decorrer… As canções de Fionn são simples, despidas de grandes adornos. Serão porventura agradáveis para desfrutar num espaço mais pequeno e acolhedor. O Coliseu revelou-se um espaço demasiado grande para o irlandês. Foi um concerto curto, simpático, mas inofensivo.

A espera por Feist começa a revelar-se um martírio. A ansiedade na sala era quase palpável. Eis então que pelas 22h05 as luzes se apagam e se fazem ouvir os primeiros acordes de «Undiscovered First». Logo aí salta à vista que não estamos ali apenas para ver Leslie Feist, a compositora canadiana. Não. Há um baterista e um teclista que vão muito para além da mera competência. Há Charles Spearin, muti-instrumentista (seria mais fácil enumerar os instrumentos que não tocou…) e um dos vários elementos dos Broken Social Scene. E há as Mountain Man, o coro formado por Molly Erin Sarle, Alexandra Sauser-Monnig e Amelia Randall Meath, que por si só seriam motivo suficiente para sair de casa e ir a um concerto. Falam todos a uma só voz. Cada verso, cada coro, cada acorde, são uma celebração e isso transparece nas suas faces. É o início perfeito.

«A Comotion» é o tema que se segue e é interpretado com uma pujança incrível que confirma aquilo que transpareceu logo no primeiro tema: as composições de “Metals” têm músculo ao vivo. As Mountain Man também começam a dar um ar de sua graça e a mostrar o peso que têm em palco. Ora acrescentam uma pitada saudável de loucura e boa disposição, ora abrem o coração para nos desarmarem por completo.

«Graveyard» leva para palco o tom soturno que a caracteriza, acompanhada por uma iluminação vermelha que consegue acentuar ainda mais essa sensação. É também por esta altura que se escuta o primeiro coro (à séria!) no Coliseu. O final da canção, com o crescendo que conduz ao refrão, “Bring them all back to life”, é perfeito. Sente-se mesmo uma onda de prazer a percorrer-nos o corpo.

À quarta canção continuamos a percorrer o alinhamento de “Metals”, desta vez ao som de «How Come You Never Go There», que mostra a faceta mais requintada e delicada do último trabalho de Feist. Depois de uma tentativa mais ou menos bem sucedida para ensaiar uma coreografia com o público, surge «Mushaboom» numa versão quase irreconhecível, despida por completo de todos adornos pop que a caracterizam. Poderia perfeitamente fazer parte do alinhamento de “Metals”.
Escutar “Realize what you know that you know by now that… / First light was, last light was alright when / The circle married the line” é pura e simplesmente arrepiante. Neste momento a sala encontra-se no mais profundo silêncio para escutar o sussurrar de Feist. É um daqueles momentos que não tem preço…

É altura de visitar “The Reminder”. Primeiro ao som de «My Moon My Man» e depois com «I Feel It All» e «So Sorry». Em qualquer dos temas pode-se sentir a influência que a sonoridade de “Metals” tem na música de Feist actualmente. A aura mais pop destes temas acaba por dar lugar a uma roupagem mais fibrosa, sem que isso seja sinónimo de perda de qualidade.

A forma como Feist vai dialogando com o público é algo que não está ao alcance de todos. A maneira como arranca um coro construído de forma gradual entre a plateia, a bancada e os camarotes é um exemplo disso mesmo. Também não faltou a frase em português; um muito bem arrancado “Vocês são do caralho!”, para logo de seguida nos oferecer «Anti Pioneer». Não conseguimos deixar de sorrir.

«The Bad In Each Other» surge com um tom grave, conferido pelos teclados, enquanto Feist canta: “When a good man and a good woman / Can’t find the good in each other / Then a good man and a good woman / Will bring out the worst in the other / The bad in each other”. Perfeição sonora. Perfeição que prossegue em «Pine Moon», iniciada apenas ao som da guitarra acústica.

Cada canção parece um ser vivo, que respira e se alimenta das reacções que despoletam no público. Tome-se por exemplo «Confort Me», o tema seguinte, que começa apenas ao som da guitarra, a serpentear pelos nossos ouvidos, e depois, no momento exacto, os restantes elementos juntam-se. Sentimo-nos nas nuvens.

Até à saída de palco que antecede o encore, é ainda possível escutar «Little Bird» e «Get It Wrong, Get It Wrong». Escusado será dizer que o que se seguiu foi uma monumental ovação de um Coliseu completamente rendido…

O regresso ao palco é feito apenas por Feist, de guitarra em punho, e pelas Mountain Man para nos presentear com uma versão acapella, e sem qualquer amplificação de «Cicadas and Gulls». O silêncio que foi possível vivenciar foi quase indescritível. O momento, esse, foi mágico. Segue-se uma nova investida por “The Reminder”: «The Limit to Your Love» e «Sealion», uma reinterpretação muito pessoal de «Sea Lion Woman» de Nina Simone. Depois escutamos embevecidos «Let It Die», que permite ver as Mountain Man e Charles Spearin darem alguns passos de dança, em jeito de slow.

O segundo encore esconde uma surpresa; Feist decide convidar para o palco um casal que havia conhecido no dia anterior na estação do Rossio e que a tinha presenteado com uma música. Assim, com Feist (que fez questão de frisar o quanto adora “momentos estranhos e maravilhosos) a vestir a pele de espectadora, sentada atrás dos teclados, é possível escutar uma versão simples, é certo, mas bem executada de «Imagine», de John Lennon. É daqueles momentos completamente inesperados mas realmente puros e em que se sente uma comunhão perfeita.

A fechar uma noite mágica pudemos ainda ouvir «Secret Heart» e a deliciosa «Intuition» com Feist a fechar com chave de ouro enquanto vai repetindo “Did I, Did I”. Yes you did… Foi uma noite perfeita.



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