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“Felicidade” de João Tordo

A vida, o amor e a morte em três atos

A escrita, e principalmente a literatura, pode ser uma espécie de viagem, algo que nos transporta para um espaço e tempo que, mesmo diferente do nosso, ecoa no presente, fazendo a ponte entre passado e futuro.

É essa sensação de omnipresença temporal que habita nos livros de João Tordo que nos faz aterrar em Felicidade (Companhia das Letras, 2020), um livro cujo protagonista desconhecemos o nome – referido como o «filho de arquiteto», mas também de uma mãe liberal – e que gira em torno do final da sua adolescência e fase adulta, épocas muito marcadas pela ditadura e primeiros anos de liberdade.

Assim, ao longo de quase 400 páginas, percorremos parte da sua existência, crescimento e (inúmeros) conflitos interiores, desde os tempos de liceu, na companhia dos inseparáveis amigos António, Núncio e Lagarto, até ao ocaso de uma trágica história de amor.

É esse mesmo sentimento que faz com que tudo mude nesta encruzilhada pela vida das trigémeas Kopejka, colegas de escola cuja presença e imagem deixa inebriada a população masculina, sendo, por um lado, fonte de desejo coletiva, mas, por outro, fantasia (quase) inalcançável.

Apesar disso, o filho do arquiteto consegue despertar a atenção de uma das irmãs, de seu nome Felicidade. Mas tudo acaba de forma trágica após o primeiro encontro. Seria o início de uma labiríntica trama que envolverá as outras irmãs (Angélica e Esperança) e que mudará a vida, não apenas do protagonista, mas um pouco a todos os que se aproximam deste romance.  

À boleia de algum mistério e muita culpa, ciúme, medo, drama e remorso, mas também de uma doce melancolia, humor negro e laivos de mitologia, percorremos década e meia marcada ligações estranhas entre passado e presente, sendo o futuro pura interrogação à medida que o atormentado e inseguro protagonista se envolve, direta ou indiretamente, com as três Kopejka, ao sabor do cenário de uma Lisboa que desperta para o futuro, percorrida entre as avenidas novas e as ruelas históricas, sem nunca esquecer o verde Monsanto, local de extrema importância para toda a trama.

Com personagens bem esculpidas e torneadas com camadas de tensão bem definidas e generosas, Felicidade é um livro que enche as medidas, bonito e dono de uma complexa e extraordinária narrativa, mas que exige um ritmo e aceitação próprios, que acaba por abrir caminho a um exercício alicerçado nas ruínas de um amor e sobrenaturalidade que, literalmente, assombra quem o sente e lê. Elogia-se ainda a sua contextualização social pertinente, não fosse a própria história de um país parte integrante de um perfil coletivo pautado pela mistura entre o encanto da mudança e uma certa tradição marcada pelo destino e desejo de redenção.

E é essa mesma vontade elevada ao extremo que tudo precipita, seja o nascimento de um amor quase que por “afinidade”, a fraternidade e solidariedade como gerador de uma catástrofe anunciada ou o recurso à espiritualidade como última tentativa de recuperar a sanidade por parte de alguém que vive no limite da racionalidade, na sombra de uma angústia que cauteriza, podendo levar ao colapso de uma vida vazia.



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