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Felipe Oliveira Baptista

O designer português nunca sonhou com o mundo da moda, mas está na vanguarda dos criadores internacionais.

Encontrámos Felipe Oliveira Baptista no Edifício da Alfândega do Porto, em fim-de-semana de Portugal Fashion e a poucas horas de vermos “Pioneers”, a proposta do criador para o Inverno de 2010. Nos bastidores reina a calma, já que a grande apresentação decorreu há duas semanas, na Semana de Moda de Paris, sob os olhares atentos dos compradores e da imprensa internacional. “Waouh. Felipe Oliveira Baptista deixou-nos colados. A sua colecção, que os puristas dizem ser “demasiado comercial”, é de uma “mestria notável”, escreveu o jornal Le Figaro no dia seguinte. Enquanto os assistentes alinham as roupas, dão os últimos pontos e dividem os sapatos por cada manequim, sentamo-nos num canto da sala com o criador português para conversarmos sobre o percurso profissional, o processo criativo, a nova colecção e o futuro da marca.

Felipe Oliveira Baptista nasceu nos Açores em 1975, mas foi em Lisboa que cresceu. Aos 18 anos partiu para Londres para estudar design de moda na Universidade de Kingston. “Comecei por fazer um ano preparatório, tipo, vamos lá tentar. A meio do meu primeiro ano tive um clique! Apercebi-me que se um dia tivesse a sorte de ter a minha marca, como tenho hoje, poderia usar a moda como um vector que toca a muitas das disciplinas que me interessam: vestuário, imagem, fotografia, música, cinema, design gráfico, mise en scène e escultura. Foi quando comecei a trabalhar drapping em manequim que vi que tudo se juntava”.

O gosto pelas viagens e por outras culturas tomou-o ainda em pequeno. O pai era piloto, o que justifica a abertura ao exterior. “Acho que isso também me fez sair de Portugal de uma maneira muito fácil.” Terminado o curso, Felipe ruma a Itália para trabalhar na Max Mara. Um ano depois chega a Paris. Cerruti, Thimister e Christopher Lemaire foram as marcas pelas quais passou. Em 2002, apresenta a primeira colecção no Festival de Hyères, o mais prestigiado concurso de design de moda da Europa, e ganha o grand prix atribuído pelo júri presidido nesse ano por Karl Lagerfeld.

A Colette, a loja mais cool de Paris, comprou a colecção e durante a semana de moda parisiense dedicou-lhe uma montra. Na sequência da excelente recepção da estreia, em 2003 a marca Felipe Oliveira Baptista é oficialmente lançada. No mesmo ano, o criador é convidado a tornar-se membro da Federação Francesa da Costura, do Pronto-a-vestir, dos Costureiros e dos Criadores de Moda. Depois de seis assíduos anos a apresentar-se na Semana de Alta Costura de Paris, Felipe troca a alta costura pelo pronto-a-vestir. “Saí da Semana de Alta Costura por opção. Foi muito bom no início para me dar alguma visibilidade. A marca estava a crescer com alguma velocidade e a alta costura tem menos compradores e menos jornalistas. Como design, o meu trabalho tem mais a ver com o prêt-a-porter”.

Foi debaixo dos holofotes da Semana de Moda de Paris que, no início do mês passado, apresentou “Pioneers”, a proposta para o Inverno 2010 que marca a segunda presença no palco do pronto-a-vestir. “Pioneers apareceu quando estava a ler um livro. A palavra fez-me logo pensar no sentido mais literal de pioneiros e exploradores. Em Agosto do ano passado passei um mês no sul de Marrocos, onde andámos à procura de praias desertas e lugares perdidos. A natureza interessa-me pelo lado de paz e sossego, que associei também às imagens polares e antárcticas das revistas do National Geographic.” A mistura justifica o uso dos brancos, azuis, rosas “e mesmo os castanhos, que nunca tinha usado”.

Os universos da coreógrafa Pina Bausch e da escultora Tatiana Trouvé também foram influências. A última inspirou-o nos jogos gráficos: “Começámos a fazer experiências com blocos de cor, a cortar, montar e colar bocados de cor. Por exemplo, as partes gráficas e de bordados parecem prints, mas não são. Foram feitas através de técnicas de embellishment moderno, usando muita tecnologia”.

As críticas favoráveis da imprensa internacional colocaram Felipe Oliveira Baptista na mira dos investidores. Recentemente, o grupo vitivinícola Esporão adquiriu trinta por cento da marca, o que para o criador significa a estabilidade para que a marca possa crescer: “Eles fazem um acompanhamento directo da gestão e têm um grande respeito por toda a parte criativa. A ideia de trabalhar com um grupo que é português, um grupo de luxo no sector dos vinhos com projecção internacional, é interessante. De certa maneira, partilhamos valores”.

Fazer chegar a marca a um público mais abrangente continua a ser o objectivo de Felipe: “Estamos a trabalhar no lançamento de uma mini linha de roupa unissexo a apresentar na próxima colecção. A ideia é democratizar mais a marca.” Neste sentido, não descura as redes sociais. “A ideia de comunicar directamente com as pessoas que estão interessadas no meu trabalho e mostrar o outro lado é interessante.” O criador expôs no Facebook o muro da colecção, a base criativa que originou “Pioneers”. “Nós temos tanto cuidado a fazê-lo como temos com uma peça. É uma pesquisa enorme que dura um mês e ninguém a via”.

A tecnologia está presente no trabalho de Felipe Oliveira Baptista. Aliás, nem podia ser de outra forma, dada a percepção que o criador tem da moda: “É uma resposta e uma reacção à forma como vivemos. Faz-me confusão pensar que hoje estamos cheios de tecnologia, ipods, facebooks, twitters e temos montes de gente a fazer colecções anos 50 e vindas de histórias de outros tempos, sem um pensamento actual, cheio de possibilidades técnicas”.

E ainda bem que existem todas essas possibilidades técnicas. É que, apesar de a marca estar presente em quinze países e em cidades como Paris, Hong Kong e Londres, em Portugal apenas podemos comprar os artigos do criador no sítio das lojas que o representam.



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