Fernando Alvim

O nosso primeiro convidado foi este "Perfeito Anormal". Descubram a outra face do Alvim.

Conhecido pelo público mais jovem, principalmente pela participação em programas de televisão, Fernando Alvim é um homem com muitos projectos. Para além da rádio, está também ligado à realização dos Festivais de Música Termómetro Unplugged e 365, dirige igualmente uma revista com o mesmo nome, é DJ ocasional e, recentemente, publicou um livro. Entre uma destas actividades concedeu uma entrevista que aborda todos estes aspectos, bem como algumas curiosidades pessoais.

RDB: Como começou o percurso na rádio e na televisão? Quando é que achas que começaste a ganhar notoriedade?

F.A.: A notoriedade não se ganha de um momento para o outro e não sei se a terei. Andei a saltar de estação em estação em média de 2 em 2 anos e isso faz parte de uma evolução. Eu já trabalhei numa rádio local em que passava Linda de Susa.

RDB: Não é de todo o tipo de trabalho que fazes actualmente.

F.A.: Sim, uma vez disseram-me que o gosto educa-se e a verdade é que eu acredito piamente nisso. Os que nascem com mau gosto podem evoluir e tornarem-se em pessoas com bom gosto ou, pelo contrário, nascer com bom gosto e perdê-lo completamente.

RDB: De que forma tem evoluído o teu trabalho na rádio?

F.A.: O que se ganha na rádio, à medida que se vai trabalhando, é o timing, a forma de estar, as respirações, é o à-vontade com que dizes as coisas, a segurança com que debitamos palavras. O simples facto de estarmos nervosos é suficiente para a voz estar mais frágil. A voz fica mais sólida, mais forte. Ao fim dos anos, notei que estava mais confiante. Mas acho que nunca fui pretensioso. Sentia-me era à-vontade para dizer aquilo que queria e também tive a vantagem de, a partir dos 18 anos começaram a deixar-me dizer tudo aquilo que eu queria porque perceberam que eu era uma espécie de cavalo selvagem mas que poderia resultar. E essa personagem desde os 18 anos que existe.

RDB: Essa imagem, achas que dura muito mais tempo? Há a sensação de que não podes ser sempre aquele miúdo maluco da rádio que diz tudo o que quer.

F.A.: Não. Mais um ano, dois. Há quem diga que tenho a síndrome do Michael J. Fox. Ele nunca envelhece e, eu espero que esta imagem me acompanhe durante algum tempo. Mas não é uma coisa que me preocupe. Gosto de gerir bem a minha carreira, trabalhar para ela e esforçar-me para que as coisas corram bem, agora a ideia se estou a acabar um ciclo ou não, não é uma coisa que me preocupe.

RDB: Influências musicais? O que ouves no dia-a-dia?

F.A.: Oiço de tudo. Desde Cowboy Junkies, a Lenny Kravitz, David Bowie, Rage against the machine, Fionna Apple, Jeff Buckley, Massive Attack. São tantas as influências, tantos os sons… Gosto de Rodrigo Leão, Xutos & Pontapés. Não existe uma linha musical muito bem definida no meu gosto. Não tenho um gosto muito comercial.

RDB: Disseste que gostarias de um dia dirigir uma rádio. Como seria a “Alvim FM”?

F.A.: Primeiro não se chamaria “Alvim FM”! A rádio que eu dirigisse seria, provavelmente, uma rádio onde não existiria playlist, onde o som que passasse acompanharia mais os animadores e os seus gostos e haveria mais personalidade no ar. Acho que é o que falta à radio. Acho que a rádio passa por uma fase de inquietação, em que as pessoas se interrogam sobre muita coisa. Está cada vez mais segmentada, mais mecânica e isso inquieta-me. Há que, usando o humor e a rebeldia, fazer uma estação com que as pessoas se identifiquem perfeitamente, tanto miúdos de 18 anos, como pessoas de 30. A rebeldia não é dizer palavrões. É a atitude que pões a fazer as coisas.

RDB: Ultimamente têm surgido alternativas viáveis e com qualidade na rádio devido a esse aspecto da banalização e de ser tudo igual. Começam a ter mais peso no mercado e a fazer-se sentir?

F.A.:Sim, porque há rádios só de rock, só de dança, rádios que passam só jazz, rádios para jovens, para adultos. Por um lado isso é bom, porque passam apenas aquilo que as pessoas querem ouvir e a informação e a comunicação pode ser muito mais específica. Por outro lado, está cada vez mais incómoda. Em algumas estações, as pessoas são obrigadas a gravar antes para se ouvirem depois e isso é cruel. Não me imagino a fazer isso. Acho que o animador tem de cometer erros e aprender com isso.

RDB: O que mudavas mais na rádio?

F.A.: Muita coisa. Daria mais poder aos animadores, porque seriam mais precisos e apelaria à personalidade de cada um. Aí, não seria fácil juntar os animadores, porque seriam os melhores… e os melhores fazem-se pagar bem. Algo com que eu concordo plenamente.
Faria uma rádio em que aconteceriam coisas. E acontecer coisas é muito importante em rádio. Seria uma rádio em que as pessoas não ficariam indiferentes. Gosto de ver coisas a acontecer na rádio. Onde há eventos, rubricas… Não gosto de rádios que seguem aquilo que as outras fazem. É necessário criar novas canções e passá-las. Não se pode estar à espera que as rádios mundiais digam que Nickelback está em primeiro lugar para se começar a passar Nickelback.

RDB: Serviço público em rádio. Existe verdadeiramente?

F.A.:
As pessoas falam muito de serviço público… Confesso que quando vim para aqui (Antena3) vinha com um certo medo. Não sabia o que ia encontrar aqui. Imaginava paredes cheias de pó e pessoas a vigiar-me, mas não notei diferença nenhuma. Acho que o ambiente é óptimo e fazemos serviço público, nomeadamente em relação à música portuguesa. Especialmente a antena3, que é a rádio que mais deu apoio a novos projectos e até obriga outras rádios não só a passar música portuguesa, mas a cometer uma estupidez que é anunciar que passa música portuguesa e apoia-a, mas não a passa. Passa bocados de discos, mas nunca música portuguesa. Acho isso genial.

RDB: Victor Espadinha, foi a entrevista da tua vida?

F.A.: Foi uma delas. Gostei muito de a fazer e era alguém que eu já perseguia há muito tempo. Devo dizer que, recentemente, consegui entrevistar alguém que fazia parte do meu imaginário, que é a Samantha Fox. Na próxima edição da 365 vou entrevistar alguém que faz parte do imaginário de toda uma geração que é o Piranha, o mítico personagem de uma série espanhola “O verão azul” que passava na RTP. Conseguimos finalmente contactá-lo e vamos entrevistá-lo a Madrid.

RDB: Falando agora da revista 365. Como é que ela surgiu e como é a sua recepção por parte do público? É mais uma revista com saída no Porto e Lisboa do que noutros sítios?

F.A.:
Sim, nas grandes urbes é onde se vende mais. Porque as pessoas sabem que vão à FNAC e encontram-na lá rapidamente. Mas gostava que fosse mais generalizada.

RDB: E como passa de uma revista para um festival?

F.A.: Algum ataque de caspa, seguramente. Eu queria fazer um festival que complementasse o termómetro unplugged, visto que é inteiramente acústico. O 365 é um festival sem regras rígidas, itinerante, mais eléctrico e onde tudo é permitido. Fizemos agora uma pausa de um ano, para regressarmos com uma edição internacional.

RDB: Um dos princípios do festival era ter um membro do júri estrangeiro para apelar a bandas internacionais que não tivessem contrato que participassem.

F.A.: Sim, mas há sempre uma coisa importante nestas iniciativas que é o dinheiro e que falta sempre. E neste meio, assim como noutros, é preciso muito dinheiro e por causa disso as coisas que se fazem, ficam por vezes à pele, muito limitadas.

RDB: Os Blind Zero ganharam agora o prémio de melhor banda portuguesa na MTV. É de alguma forma motivo de orgulho, visto eles terem já ganho a edição do Termómetro Unplugged?

F.A.: Orgulho, na medida em que os Blind Zero são uma excelente banda e que se mexe, faz muito por ela própria e que se for preciso carregam eles próprios com as colunas e batalham imenso, mas há aqui um equívoco em relação à MTV porque aquele prémio não tem a dimensão que as pessoas julgam. Ele tinha de sair a uma das bandas portuguesas e só passou em Portugal e não lá fora. Mais uma vez, é genial. É a canção do bandido de novo.

RDB: Que balanço fazes do Festival Termómetro desde o seu início em 1994?

F.A.: Acho que tem sido bom. Aqueles que não ganharam e passaram por lá como os Ornatos Violeta, Astonishing Urbana Fall e outros que se tornaram conhecidos e que não foram à final como os EZ-Special, Hands on approach. E mais, como os Sloppy Joe, Terrakota e que provaram que não é o festival que lança as bandas mas sim as bandas que lançam o festival e é o percurso da banda que prova, ou não, se a nossa avaliação foi a correcta ou errada.

RDB: Como arranjas tempo para todos os projectos em que trabalhas?

F.A.: Não arranjo… Às vezes eu próprio não sei como consigo ordenar as coisas e o meu trabalho é muito criativo, e preciso de espaço para que as ideias surjam no papel, e o stress é tanto que sou obrigado a desligar todos os telemóveis, isolar-me completamente para fazer algo porque senão é impossível e não faço nada.

RDB: Não há o perigo de perderes a sanidade mental?

F.A.: Acho que já a perdi, mas é por uma boa causa.

RDB: Não há o perigo de, pelo facto de estares inserido em muitos projectos, algum deles perder qualidade?

F.A.:
Sim, tem esse perigo mas que hei-de fazer? O que tenho feito é que, antes fazia tudo, preparava o Termómetro Unplugged, ia para lá, falava com as bandas… Depois, tornou-se diferente. Organizo as coisas, delego funções… Tenho agora pessoas que tomam completamente conta do Termómetro Unplugged e eu só lá vou praticamente à final. Acompanho todo o processo criativo, as bandas e isso, mas aí largo-o…

RDB: Por causa do teu ar característico, há também a ideia de que as pessoas por vezes te consideram ridículo pelo trabalho que fazes e que não consegues levar nada a sério por que estás metido em tudo, fazendo tudo por impulso. Tens essa noção?

F.A.: Acho que as pessoas são livres de pensar o que querem e as que me acham ridículo, são capazes de ter razão. Eu também me acho ridículo por vezes e sou o primeiro a dizê-lo. Agora, existem coisas que eu faço melhor e outras pior. Numas sou claramente superior e outras sei que não. Já fiz tantas coisas boas e tantas coisas más e eu sou o primeiro a reconhecer se uma coisa é muito boa ou muito má. Consigo reconhecê-lo e, se falhei, tento corrigir, se conseguir, tento manter o nível.

RDB: És um insatisfeito?

F.A.: Sim, eu gosto muito de fazer coisas novas, de progredir sempre e acho que nunca vamos estar satisfeitos com o que fazemos. Eu hoje faço muitas coisas e, no entanto, ainda me apetece fazer mais correndo o risco de nem sempre ter o tempo que devia para dedicar as coisas.



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