Fernando Assis Pacheco | “Trabalhos e Paixões de Benito Prada”

Fernando Assis Pacheco | “Trabalhos e Paixões de Benito Prada”

Poucos romances nascidos em Portugal começarão com esta violência, espírito de vingança e humor negro

Num tempo em que tanto de fala de empreendedorismo e oportunidades por terras lusas, a Assírio & Alvim acaba de publicar com um grande sentido de oportunidade o romance “Trabalhos e Paixões de Benito Prada”, história de um “Galego da Província de Ourense Que Veio a Portugal Ganhar a Vida”. A edição faz parte da publicação das obras de Fernando Assis Pacheco que, com este lançamento, chega ao quinto volume.

Poucos romances nascidos em Portugal começarão com esta violência, espírito de vingança e humor negro: “Quando o Padeiro Velho de Casdemundo teve a certeza de que Manolo Cabra lhe desfeiteara a irmã, em dois segundos decidiu tudo. Nessa mesma noite matou-o de emboscada, arrastou o cadáver para o palheiro e foi acender o forno com umas vides que comprara para as empanadas da festa de San Bartolomé. | O irmão do meio encarregou-se de cortar a cabeça ao morto. O Padeiro Velho amanhou-o e depois chamuscou-o bem chamuscado. Às duas da manhã untou o Cabra de alto a baixo com o tempero, enfiando-lhe um espeto pelas nalgas. Às cinco estava assado”.

O livro conta a história de Benito Prada, filho de Filemón e Nicolase, que aos treze anos deixa a cidade de Casdemundo, na região de Ourense, para começar a sua vida de emigrante em Portugal, andando de carroça por tudo o que é feira, vendendo tecidos e afins depois de uma primeira experiência como afiador. Para trás fica uma casa pobre, o pai que lhe ensinou o ofício e a pouca educação que recebeu. O Padre Oyarbide, figura maior de Casdemundo, cedo havia previsto que ”aquele menino que conversava com os bichos, ligeiro e alegre, filho de tão pouco bem querer, haveria de perder-se se o seu santo onomástico o não empurrasse para fora de Casdemundo”.

Benito começa a sua viagem pelo Norte de Portugal, até descer até Coimbra para se transformar num empresário de sucesso, tornando-se homem entre o amor, a ira, a guerra e o medo.

A política atravessa o livro, seja pela menção ao assassinato do arquiduque Francisco Fernando, à guerra civil espanhola, ao reinado de terror de Salazar ou à visita de Franco a Portugal para receber o título de Doutor honoris causa em Direito. Porém, como se lê a certa altura, “democráticos e evolucionistas eram o mesmo pessoal com nomes diferentes ou, na visão escarninha de Jorge Ourives, “as duas metades do mesmo cu””. O próprio Benito é um antiguerrista, e o seu diálogo com Jorge Ourives fica como prova da sua visão sobre a honra nascida da guerrilha: “Dizem que a farda é a melhor das mortalhas. | Uma porra. Quem diz isso? | Os poetas. | Cago nos poetas.”

Escrito num português de primeira água, “Trabalhos e Paixões de Benito Prada” é um romance fascinante, que mistura na perfeição violência com ternura, desvendando-nos a vida de Benito Prada, afiador de almas, pessoa escrupulosa e íntegra, homem de valores e princípios, que luta por se tornar alguém num país que, a certa altura, começa a olhar para os galegos – e para os espanhóis – com muito má cara.



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