Festa do Cinema Italiano 2013 | Reportagem

Festa do Cinema Italiano 2013 | Reportagem

Homenagem aos clássicos do western spaghetti, destaque para “Tulpa” de Federico Zampaglione

Nota: Artigo em actualização

O segundo dia do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano fica marcado por uma sincera homenagem aos clássicos do western spaghetti dos anos 70. De destacar o filme “Tulpa” de Federico Zampaglione, realizador considerado por muitos o herdeiro de Dario Argento e que aqui traz um novo fulgor ao género de horror. Alguns destes filmes vão ser exibidos nos seguintes dias, consultem a programação.

“Tulpa” (2012) de Federico Zampaglione

Federico Zampaglione confirma-se como o verdadeiro herdeiro de Dario Argento no que toca à gestão do efeito surpresa e do derramamento de sangue ao inventar crimes cada vez mais hediondos no decorrer da acção. Depois de “Shadow”, o realizador continua a explorar o seu universo de horror. “Tulpa” é um filme de atmosfera e charme que não deixa qualquer espaço para perguntas. O seu estilo e humor remetem para os clássicos do género dos anos 70. Os ingredientes que fazem o filme são os mais tradicionais possíveis – uma protagonista loira de contornos fatais; personagens ambíguos e evasivos e cenas com um alto grau de erotismo. Tudo isto banhado em sangue. O filme transporta os espectadores aos locais dos crimes numa tentativa de adivinhar a identidade do culpado.

“A.C.A.B All Cops Are Bastards” (2012) de Stefano Sollima

Stefano Sollima tem a sua primeira aventura no grande ecrã com este imponente filme com a força e poder na coragem de contar uma história. O realizador presenteia os espectadores como uma obra que, não só é capaz de se mover transversalmente entre uma realidade pessoa e uma universal, mas, acima de tudo, capaz de contar uma história desafiante, emocional e intelectual. Um impacto de agressão súbita para despertar a percepção do Cinema. O filme não mostra mais de que uma fatia de vida de um grupo de polícias, entre a sua vida quotidiana e a sua eterna luta contra a máfia. Podia continuar por muito mais tempo, mas tudo acabará quando o realizador considerar que já vimos o suficiente.

“È stato il figlio” (2012) de Daniele Ciprì

Retrato maduro e surpreendente dos perversos mecanismos de um microcosmos familiar arruinado através de uma lente que distorce de forma drástica os defeitos mais abomináveis desse mesmo microcosmos. Não existe nenhuma tentativa de nos fazer sentir mal, pois a família nem se dá ao trabalho de lamentar a sua perda quando percebe que poderá receber uma substancial compensação. Um robusto olhar sobre um mundo construído de forma secreta, num tom satírico e estilo excessivamente degenerativo de uma tragédia sangrenta.

“Eurocrime! The Italian Cop and Gangster Films That Rulled the 70’s” (2012) de Mike Malloy

Itália tem que agradecer aos Estado Unidos da América por ter sido fonte inspiradora do subgénero conhecido como Eurocrime. Agora cabe aos espectadores agradecerem a Mike Malloy ter compilado numa longa-metragem documental tudo o que há para saber sobre o subgénero, desde as suas origens ao seu legado, passando pelo seu apogeu. A paixão e objectividade do realizador faz do filme uma sincera homenagem ao subgénero, sem nunca deitá-lo abaixo ou dar-lhe mais importância do que ele merece de facto.

“Keoma” (1976) de Enzo G. Castellari

Esta obra cinematográfica do realizador italiano faz parte da segunda onda de western spaghetti que marcaram a década de 1970, considerado um dos melhores filmes do género e muitas vezes colocado à altura dos clássicos de Sergio Leone. Contudo, apesar do enorme esforço para que se pareça a uma obra elegante e sofisticada, o que consegue ser à primeira vista, o espectador poderá facilmente perceber que está longe de alcançar esses objectivos. É evidente que Castellari tem um arsenal de truques na manga – slow motion, ângulos com a câmara não convencionais, subtis introduções de flashbacks, e por aí em diante – todos eles são retirados do trabalho de outros realizadores. Por si só, isso não é algo de mau; afinal, o Tarantino também tem construído uma carreira a fazer o mesmo. O problema aqui é que o realizador italiano não faz ideia de quando, e como, recorrer a essas técnicas.

 

O terceiro dia do 8 1/2 Festa do Cinema Italiano fica marcado por uma contemporaneidade e qualidade evidentes. Destaque para o filme “Una Famiglia Perfetta” de Paolo Genovese, no qual esteve presente o realizador, Paolo Genovese. A representar a secção Competitiva estiveram “Gli Equilibristi” de Ivano de Matteo e “Il Futuro” de Alicia Scherson. Todas as obras apresentadas neste dia remetem a sua realização ao ano passado, 2012, excepto os 3 filmes que pertencem à secção Mani in Alto!. Alguns destes filmes ainda serão repetidos. 

“Gli Equilibristi” (2012) de Ivano de Matteo

O realizador, Ivano de Matteo, continua a demonstrar a sua sensibilidade e capacidade de contar uma história de forma eficaz. Desta vez conta a história de um homem igual a tantos outros, pai afectuoso e marido presente, que por causa de uma traição é afastado de casa pela sua esposa. A partir daí é uma viagem em espiral até ao inferno, uma odisseia que o levará a confrontar-se com a realidade.

 

“Il Futuro” (2012) de Alicia Scherson

À primeira vista pensamos estar perante um surpreendente passeio pelo fortemente estilizado universo Lynchiano. Contudo, logo após Biana e Tomas ficarem entregues a si mesmos e à sua sorte, as intermitentes narrações omniscientes da primeira, que parecem ter surgido de um conjunto de monólogos interiores densamente estruturados, tudo tende para a distracção. Por entre interacções físicas inteiramente práticas, correntes de pensamentos irremediavelmente abstractos, a acção flutua livremente. Enquanto isso, um fluxo de consciência leva-nos a seguir cada passo destes irmãos.

 

 

“Una Famiglia Perfetta” (2012) de Pablo Genovese

O realizador foi inspirado por uma comédia espanhola de 1996, mas a história desta trama desenvolve-se de forma original e com um tom pessoal. Nela o abastado e solitário protagonista constrói aquela que seria a sua família perfeita contratando um grupo de actores. O resultado é uma espécie de ballet surreal de profunda melancolia, que vai para lá das expectativas.

 

“La Guerra dei Vulcani” (2012) de Francesco Patierno

O filme de Francesco Patierno revive o escândalo internacional de 1950: o famoso realizador Roberto Rossellini deixa a sua companheira, e frequente protagonista, Anna Magnani, para casar com a actriz seuca Ingrid Bergman, que surge grávida do realizador. O realizador decide evitar cabeças falantes, optando por uma narração em voz-off de um anónimo, imagens de arquivo, e pequenos clips dos filmes onde encaixam, tematicamente, os eventos em discussão. Quase totalmente a preto e branco, o documentário capta uma nítida sensação da época. Apesar de não deixar de ser bastante informativo, para muitos não passará de um programa de fofocas para cineastas de luxo.

 

“Su Re” (2012) de Giovanni Columbu

Este singelo objecto cinematográfico é uma experiência única, onde as imagens, acompanhadas pela melodia do distinto dialecto da Sardenha consegue atingir os espectadores na medida certa. Sem a linearidade conhecida através dos Evangelhos, que compactam a visão de várias testemunhas sobre um mesmo acontecimento O realizador foca-se nos rostos dos personagens, colocando-os sobre novas perspectivas, através da pureza e da beleza de uma pintura. O grupo de actores que constituí o filme não é profissional, mas conseguem um extraordinário produto final. Note-se que alguns dos actores são actuais pacientes de Centros de Saúde mental.

 

“Tutto Parla di Te” (2012) de Alina Marazzi

Depois de algumas experiências com documentários a realizadora milanesa decidiu aventurar-se pela ficção. Começa com um tema que em nada é fácil, ao tentar representar os problemas vividos por jovens mães. Para essa representação desenvolve um fio narrativo que alterna momentos de ficção e momentos documentados. Recorrendo a uma estética limpa e subjectiva consegue atingir os seus objectivos. Por vezes, há algumas cenas que se arrastam ligeiramente, mas no seu conjunto é um filme que fará muitos reflectirem sobre a temática.

 



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