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Cinema Português em Delft

Conversámos com Pedro Borges, um dos responsáveis pelo Festibérico, uma mostra de cinema ibérico que decorre entre 15 e 25 de Abril em Delft na Holanda.

As dificuldades de exportação da cinematografia nacional, compensada de alguma forma pelas notáveis prestações que as curtas-metragens e o cinema documental têm conseguido em festivais internacionais, são antigas. Ao contrário de outros países europeus, Portugal não consegue colocar, de uma forma regular, os seus filmes no mercado de distribuição europeu e mundial. Felizmente para a 7ªarte nacional, existem pólos dinamizadores que, um pouco por todo o mundo, mostram o cinema português. O Festibérico, que irá decorrer entre 15 e 25 de Abril, é um excelente exemplo.

Pedro Borges, é um dos responsáveis pela produção do Festibérico, que nos explicou tudo sobre esta iniciativa que começou em 2001 e tem como principal objectivo divulgar a cinematografia ibérica na Holanda.

RDB: Descreve-nos a cidade de Delft

Pedro Borges:
Delft é uma cidade histórica e bonita que vale a pena conhecer. O centro tem a dimensão certa para se visitar a pé, embora os locais utilizem sobretudo a bicicleta. A maioria das casas parece manter o traçado original, mas aqui e ali descobrem-se ruas inteiras em que existiu liberdade para criar de novo. Delft é percorrida por canais onde nidificam patos e habitam nenúfares. Qualquer rua é fotogénica e habitada.

Nesta cidade é fácil imaginar o ambiente representado pelos pintores da escola de Delft como Johannes Vermeer. A rapariga com brinco de pérola morava cá.

Sendo uma cidade histórica, Delft é também uma cidade jovem, participativa e cultural. Para isso contribui a universidade técnica TU Delft, que tem um impacto rejuvenescedor na cidade. É aqui que se localiza a associação Filmuis Lumen, que designamos por cinemateca Lumen, onde o Festibérico se realiza de 15 a 25 de Abril deste ano.

Existe uma grande comunidade portuguesa na cidade? Em que trabalham?Pedro Borges

A comunidade portuguesa em Delft tem como componente principal os que trabalham ou passaram pela universidade local. Há por isso sobretudo gente ligada às áreas tecnológicas. Existem comunidades bem maiores e diversificadas nas cidades vizinhas de Haia e de Roterdão, cujos centros estão a menos de 15 minutos de comboio.

Dada a proximidade, é habitual o público vir de outras cidades para participar em festivais, concertos e espectáculos. É quase como ir de metro dentro de uma só cidade.

Note-se que o festival não tem sequer como alvo principal a comunidade portuguesa, embora esta seja um dos principais públicos que serve.

O Festibérico é (co)organizado por portugueses para toda a população local.


Como surgiu a ideia de organizar este Festival?

O Festibérico surgiu a partir de 2001 e do encontro de vontades da cinemateca Lumen, em Delft, e do Clube Ibéria de funcionários do Instituto Europeu de Patentes, em Haia.

Inicialmente a ideia foi criar um festival de cinema espanhol. Quando sugerimos incluir filmes dos dois países o conceito pareceu estranho aos programadores habituais da cinemateca, dada a distância entre a cinematografia dos dois países. Como dizia Fernando Pessoa: “Primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

A cinemateca Lumen funciona graças a cerca de 80 voluntários de todas as idades, que se dividem por diversas funções desde a bilheteira à projecção. São evidentemente amantes do cinema e em geral conhecedores exigentes. Sempre nos apoiaram.

O Festibérico propriamente dito é organizado por voluntários ligados sobretudo à TUdelft e ao Instituto Europeu de Patentes, mas temos gente que trabalha noutros sectores e vive também em Leiden, Amsterdão, Roterdão, etc.

Esta é a única forma da cinematografia portuguesa e espanhola chegar a essa comunidade?

O Festibérico é quase a única forma de ver filmes portugueses na Holanda. No passado, apenas Manoel de Oliveira e João César Monteiro conseguiam ter os seus filmes regularmente exibidos. Hoje temos apenas o primeiro. Além do Festibérico apenas o festival internacional de Roterdão vai permitindo ao público conhecer alguma produção portuguesa actual.

O panorama para o cinema espanhol é diferente. É comum ver filmes vindos de Espanha em distribuição e o público holandês é muito receptivo a alguns realizadores espanhois. No entanto as dificuldades à distribuição de filmes espanhóis têm aumentado. Nesta edição haverá um debate precisamente sobre este assunto e sobre a importância de eventos como o Festibérico.

Qual o critério de escolha dos filmes a apresentar?

Procuramos seleccionar uma mostra o mais diversificada possível, tanto em termos de género (ficção, documentário, animação, curta) como de estilo (cinema de autor e mais comercial), daquilo que se tem feito nos últimos anos em Portugal.

Não nos dirigimos exclusivamente ao público português, mas pretendemos dar a conhecer o cinema de Portugal aos holandeses e isso também influencia a selecção.

Caso tenha havido algum destaque nos festivais nacionais (por ex o “Pare, Escute, Olhe”) ou internacionais (por ex o “Arena”), consideramos incluí-lo no programa.

Dentro disso o processo não é simples pois há que conciliar questões orçamentais, logísticas, volume de produção e gostos pessoais. Há sempre bons filmes que gostaríamos de mostrar mas por alguma razão não podemos.

Para o resultado final tem sido fundamental a colaboração do ICA, da Agência da Curta Metragem e de algumas produtoras nacionais a quem agradeçemos.

Qual o balanço que fazes das edições anteriores e quais as expectativas para a edição deste ano?

O Festibérico tem sido um sucesso e estar na sétima edição justifica que se considere implantado. As embaixadas de Portugal e Espanha cedo reconheceram o seu carácter único e têm participado no festival. A atmosfera criada permite uma proximidade com os filmes, realizadores e actores que não é possível em festivais maiores como, por exemplo, no festival de Roterdão. Recebemos regularmente perguntas sobre quando se realiza a edição seguinte.

No início não sabíamos se iríamos ter público para as sessões de cinema português mas com o passar das edições confirmamos que ele existe. Temos tido boas surpresas.

Os filmes que misturam Portugal e Espanha encontram um público único no Festibérico. Na última edição tivemos o “Fados”, realizado por Carlos Saura e produzido por Luís Galvão Teles, que a cinemateca Lumen decidiu exibir durante alguns dias após o festival. A experiência de ir ao cinema é diferente para cada participante. Quando passou a “Jangada de Pedra”, de George Sluizer, notou-se que os portugueses, espanhóis e holandeses por vezes riam em alturas diferentes do filme. A nossa expectativa é tentar que todos encontrem no programa filmes e eventos que lhes digam algo.

Pessoalmente, para esta edição tenho especial expectativa pela sessão do “Alice”, que contará com a presença do realizador Marco Martins. Estou curioso pela reacção do público a algumas curtas de animação como o “Guisado de galinha” de Joana Toste e o ibérico “Mi vida en tus manos” de Nuno Beato, e pelas sessões de documentários sobre o desaparecimento da linha do Tua, de Jorge Pelicano, e sobre Buñuel.

Qual a tua opinião relativamente ao cinema português da actualidade? Tens realizadores “preferidos”?

O cinema português enfrenta um período difícil que se nota pela escassa produção de longas metragens que contrasta com a boa qualidade de algumas curtas metragens.

Sobre realizadores preferidos destacaria os realizadores de animação que acabaram por nos visitar e também nos adoptaram, conquistando um lugar cativo para a animação no Festibérico: José Miguel Ribeiro, Abi Feijó, Regina Pessoa e Zepe. Todos únicos e excelentes. Mas há mais animadores de que gostamos em Portugal.

Mencionaria ainda os documentários, que começámos a incluir mais tarde no festival e que conheceram um sucesso inesperado, como foi o caso do “Ainda há pastores” do Jorge Pelicano. Recordo conversas com a Catarina Mourão a propósito dos filmes dela que vimos.

Como para nós o importante nesta altura é que as pessoas que queiram ver cinema português e espanhol na Holanda saibam que o podem fazer de 15 a 25 de Abril de 2010, em Delft.



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