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FESTin 2011

A verdadeira festa da lusofonia.

Na passada semana (26 de Abril a 1 de Maio), Lisboa recebeu mais um festival de cinema. O FESTin 2011- Festival de Cinema Itinerante da Língua Portuguesa contou com a sua segunda edição e consagrou o seu lugar neste circuito cinematográfico que atravessa a capital lisboeta. Este festival, organizado pela Padrão Actual, em co-produção com a Fundação Luso-Brasileira e a EGEAC / Cinema São Jorge, contou, nesta edição, com 72 produções (variando entre longas e curtas-metragens) oriundas da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, que estiveram em competição entre si.

A cerimónia de abertura teve uma sala completamente lotada para assistir à antestreia do filme “Lixo Extraordinário” (Brasil, 2010), nomeado para os Óscares na categoria de melhor documentário. Este documentário retrata o processo artístico e criativo de Vik Muniz (um dos mais conceituados artistas plásticos do Brasil que marcou presença na abertura deste festival) num dos maiores aterros sanitários do mundo: o Jardim Gramacho no Rio de Janeiro. Este processo envolveu um grupo de “catadores” de materiais recicláveis que ali sobrevivem misturados com a pobreza extrema. O artista resolveu fotografá-los e recriar essas mesmas imagens com o próprio lixo. Sendo que o dinheiro da venda das obras reverteu para os próprios “catadores”. Ao assistir ao documentário, o espectador apercebe-se de que são pequenos gestos de apoio e confiança entre estes seres humanos que tornam possível a mudança de todo o percurso de uma vida / comunidade. No final, a plateia emocionada aplaudiu de pé.

No decorrer do festival houve duas mesas de debate. A primeira com o tema “O cinema e as identidades lusófonas”, na qual se debateu o assunto da colonização e as suas consequências e se tentou compreender o elo de ligação entre culturas bastante distintas, mas com a língua em comum. Entre os convidados moderadores estiveram presentes José Manuel Costa (sub-director da Cinemateca Portuguesa – Museu do Cinema), o actor Miguel Sermão e o produtor de cinema Luís Correia.

Na segunda mesa de debate o tema proposto foi “Escrito e filmado: a literatura lusófona vai ao cinema” onde se pretendia obter pontos de vista acerca da relação que se pode criar entre o olhar do cineasta e o olhar de um escritor e a melhor maneira de serem adaptados ao grande ecrã. Entre os convidados, esteve José Farinha, jovem realizador português, cuja longa-metragem “Inimigo Sem Rosto” (Portugal 2010) se encontrava em competição, e Brisa Paím, escritora brasileira, cujo romance de estreia “A Morte de Paula D.” ganhou o prémio LEGO.

Inserida na programação do festival esteve também a homenagem ao realizador Manoel de Oliveira, prestada pela Câmara Municipal de Lisboa, que dará o nome do mais internacional realizador português à sala principal do cinema São Jorge. Esta homenagem contou com a presença do próprio realizador, do actor Ricardo Trêpa, de António Costa – presidente da Câmara Municipal de Lisboa – e de Catarina Vaz Pinto, entre outras personalidades e amigos do cineasta. Foi também exibido em primeira mão o novo filme do cineasta chamado “O Estranho Caso de Angélica” (Portugal 2011). Filme esse que abriu as honras no festival de Cannes e que tem recebido inúmeras críticas positivas.

O FESTin 2011 teve ainda na sua programação algumas sessões e actividades dedicadas aos mais jovens. Este ano apostou na realização de duas oficinas de experimentação. A primeira direccionada para crianças dos 8 aos 12 anos de idade e que consistiu na criação de desenhos em animação de forma a explicar como se obtêm imagens em movimento através de jogos visuais. A segunda oficina, já direccionada para uma faixa etária mais alta (dos 16 aos 21 anos), consistiu na partilha de noções básicas sobre cinema e a introdução de técnicas cinematográficas para a realização de uma curta-metragem. Esta oficina tem continuidade ao longo do ano para que uma curta-metragem realizada pelos participantes possa ser exibida no FESTin do próximo ano.

Portugal foi o país escolhido para ser homenageado, por ser a “casa” do festival e por ser a pátria da lusofonia. Esta homenagem passou pelo destaque dado a várias individualidades da cena cultural portuguesa e pela exibição de uma pequena retrospectiva da filmografia do realizador João Botelho em que foram exibidos 4 filmes escolhidos pelo próprio: “Conversa Acabada” (1980) – filme escolhido para encerrar o festival, “Um Adeus Português” (1985), “Tempos Difíceis” (1987) e por último a curta-metragem “Três Palmeiras” (1987).

Tal como no ano passado, os prémios do festival foram divididos entre melhor longa e curta-metragem e foram escolhidos tanto pela votação do público como pela votação de um júri composto por Mário Fançoni (Embaixada de Angola), Francisco Barbosa (EGEAC/Cinema São Jorge) e José Amaral (Embaixada de Timor). O filme “Hortas di Pobreza” (Guiné-Bissau, 2010), de Sara Sousa, foi o vencedor da Melhor Longa-Metragem em competição. O prémio teve o valor de €5.000 e foi atribuído pelos estúdios brasileiros Quanta em parceria com o FESTin. O documentário “Lixo Extraordinário” (Brasil, 2010), foi o filme que obteve a melhor classificação dada pelo público e foi agraciado pelo júri com uma menção honrosa.

Quanto às curtas-metragens, o júri composto por Ângelo Torres (actor e realizador), Brisa Paím (escritora) e Salomé Llamas (realizadora) elegeu “Contagem” de Gabriel e Maurílio Martins (Brasil, 2010) como a melhor curta-metragem, com um prémio no valor de €2.500, igualmente atribuído pelos estúdios Quanta em parceria com o FESTin.

Foram entregues igualmente menções honrosas a “Verónica” (Portugal 2010), de António Gonçalves e Ricardo Oliveira, e a “Vidas Deslocadas”, de João Marcelo Gomes (Brasil, 2009). “Aos Pés” (Brasil, 2009), do realizador brasileiro Zeca Brito, foi a curta preferida pelo público.

Todas as expectativas da produção do festival foram agradavelmente superadas, quer pelo número e qualidade dos filmes em exibição, quer pelo número de espectadores. Isto vem mostrar que existe um maior interesse da nossa parte, meros espectadores, em explorar o cinema lusófono (tanto as grandes produções com excelente qualidade de países como Portugal e Brasil, como as mais pequenas de países como Moçambique, Guiné-Bissau, entre outros), que infelizmente ainda não está ao alcance de todos e não é devidamente valorizada.



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