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Festival Andanças 2017

Quando se fala no Andanças, não se fala em cabeças de cartaz. Os consumidores mais fervorosos dos festivais, ditos alternativos, muito julgam quem vai a tais acontecimentos “pelo ambiente”. Quem foram os artistas que tocaram naquelas noites? _Não interessa. Aqui estabelece-se a ponte para o Andanças, porque a questão é mesmo essa: vai-se ao festival pelo espírito e conceito. No Andanças não há vedetas nem um artista megalómano que arrebatasse. Pelo contrário: os fazedores da arte são, na verdade, só uma pequena parte do que é o festival.

Depois do incêndio pelo qual ficou tristemente conhecida a edição passada, este ano a Pé de Xumbo moveu o Andanças para o meio da vila de Castelo de Vide. Para além de pequenas salas onde tiveram lugar oficinas tradicionais espalhadas pela localidade e de lugares nobres, como o cineteatro e a igreja da vila, o festival circunscreveu-se a um recinto mais pequeno do que é habito. Esse novo formato poderia ser proveitoso para qualquer visitante. Um dos grandes problemas de anos anteriores era o facto de ser difícil acompanhar oficinas de dança uma vez que a quantidade de pessoas era demasiado grande para o espaço disponível. No entanto, o Andanças não conseguiu evitar o problema chave nem deixar de ser vítima do seu sucesso. Apesar do espaço ser mais pequeno, o número de bilhetes vendido foi tal que muitas oficinas foram impossíveis de acompanhar pelo pouco espaço disponível ou pela falta de visibilidade em direção aos instrutores. O Andanças peca pela organização. A ausência de filas diferenciadas, na bilheteira, não é usual nem recomendável. Os portadores de bilhete que querem trocá-lo por pulseiras, aqueles que ainda gostariam de comprar o ingresso, portadores de convite (desde que não sejam convidados por artistas), membros da imprensa, etc., tiveram de se alinhar numa fila até ao fim do quarteirão, esperando a sua vez ao longo de horas que se encaminharam noite a dentro. Desta forma, inúmeras pessoas perderam grande parte do concerto de abertura do festival feito pelo grupo “Ethno Portugal” (cuja performance e trabalho é de louvar). Os atrasos também não largaram a saia ao festival, principalmente nos bailes e concertos noturnos. O som do festival não foi o melhor. Houve erros crassos no que toca ao funcionamento de microfones (atrasando ainda mais as oficinas) e uma grande falta de comunicação entre técnicos e artistas. Não foram acordadas marcações de entrada ou saída de elementos áudio, resultando em momentos de espera constrangedores e, mais uma vez, perda de tempo, coisa a evitar quando se embarca na demanda de aprender um estilo de dança numa hora e meia. No pequeno recinto apenas havia três palcos onde decorriam quer as oficinas de dança quer, já durante a noite, a maior parte dos concertos. Os três funcionavam em simultâneo e a sua proximidade resultou, não raramente, numa cacofonia e cruzamento de estilos, andamentos e estados de espírito que divergiam do propósito das atividades.

O Andanças mudou de espaço, mas desejamos que o seu espírito não morra. É, desde 1996, um espaço e um tempo mágicos de sorrisos constantes e de incansáveis boa disposição e partilha; sentimo-nos implicados e cúmplices numa atmosfera de amizade e de segurança. Saúdam-se completos desconhecidos e dança-se. O som das canecas (o recipiente reutilizável usado para venda de bebidas) a chocalhar em cintos, os guizos de calças e saias coloridas que envolvem pernas enérgicas saltitantes nos estrados, onde se conduz a dança, mas também em qualquer percurso simples desde o ponto A ao ponto B. No Andanças há água potável para beber, cordões de sabão para lavagens à descrição e uma cantina onde a fila para o prato vegetariano é, por norma, consideravelmente maior à do prato omnívoro. O desconforto é amenizado por intervenções artesanais à guisa de mobiliário urbano o que é só mais uma peculiaridade que descreve o cenário. Em volta, estava o magnífico horizonte de Castelo de Vide. Paralelamente, há sempre uma série de outras oficinas conduzidas, na sua grande maioria, por técnicos com boas capacidades de ensino. Este ano estas atividades focaram mais as tecnologias para a sustentabilidade e as artes e ofícios do património local do que a música e a dança. Havia menos músicos no recinto pelo que as sessões de improviso, instrumentais ou cantadas em sítios como a cantina, deixaram de ser tão habituais como em edições anteriores.

Muita gente que vai ao Andanças demora alguns dias a libertar-se dos resquícios da sua vida quotidiana e a permitir-se imergir e fundir-se com o mundo de sensações que estas outras formas de movimento físico sugerem. Ao visitante não avisado, o Andanças pode parecer um freak show. Olhemos melhor: é uma comunidade diversa, tolerante e divertida, experimentalista e inconformada, mas sempre cívica. Não sendo necessárias nem a visão esotérica nem uma crença, é um festival para ser experimentado de mente aberta e a ser acompanhado. A comunidade e o conceito são excecionais, mas o evento merece, indiscutivelmente, um melhor trabalho de produção.



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