Festival de Corroios

11 anos a descobrir novos talentos. Entrevista.

Onze anos são muitos anos. Foi em 1996 que o Festival de Música Moderna de Corroios deu o pontapé de saída, numa edição que terminou com a vitória dos Luazzuri. Onze anos é muito tempo; o tempo suficiente para que o festival tenha vindo a crescer e a consolidar a sua posição dentro do respectivo panorama nacional, sendo hoje não só um dos mais antigos, mas também um dos mais importantes e reconhecidos festivais de novos talentos no nosso país.

O objectivo continua o mesmo e é muito simples: combater o marasmo que teima em entorpecer a imprensa e o público português e dar a conhecer o que de melhor se faz de música moderna em Portugal, dando-lhes um precioso empurrão até às linhas da frente.

2006 é o ano da décima primeira edição do Festival de Música Moderna de Corroios, que procura o sucessor para o projecto UMEED, vencedor no ano transacto. O prazo para o envio de maquetas terminou no passado dia 24; agora em Março seguem-se três eleminatórias (dia 11 no Espaço Março Fora D’Horas, 18 no First Bar e dia 25 no Ritmus Bar), de onde sairá um de três projectos directamente para a final, que se realiza no dia 1 de Abril, no Ginásio Clube de Corroios. Esta final terá ainda a presença dos portugueses Wraygunn, como banda convidada.

Mas o Festival de Música Moderna de Corroios não fica por aqui e estende os seus braços até outras iniciativas pela cidade de Corroios. Durante todo o mês de Março decorrerão, paralelamente ao festival, workshops, cursos musicais e debates.

A Rua de Baixo esteve à conversa com o professor António Nabiça, responsável pelo Festival de Música Moderna de Corroios desde o seu início. Porque onze anos são muitos anos para passarem despercebidos.

RDB: Esta é a 11ª edição do Festival de Música Moderna de Corroios. Onze anos são muitos anos. Qual é a motivação que vos faz continuar?

António Nabiça: O nosso objectivo primeiro é a defesa da nova música portuguesa. Contribuir, ainda que modestamente, para a promoção, divulgação e apoio aos novos projectos da música portuguesa é imperativo e continua a ser para nós uma forte motivação e responsabilidade assumida.

Com o passar dos anos presumo que tenham vindo a aumentar o número de maquetas recebidas. É cada vez mais difícil fazer essa selecção ou, pelo contrário, a experiência já vos diz claramente quais é que devem ficar de fora?

Sim, é um facto que o número de maquetas recebidas tem aumentado ano após ano e que esse facto torna também mais difícil a sua selecção. Contudo, porque se encontram bem definidos os critérios de selecção e porque os responsáveis pela mesma possuem uma grande e longa experiência profissional e artística nessa área, essas dificuldades vão-se atenuando. Incluem-se aqui pessoas que tiveram responsabilidades nos concursos do saudoso Rock Rendez Vous e outros concursos, músicos e produtores de eventos com os grandes nomes da música portuguesa.

Quais são os “requisitos mínimos” para as bandas que são aceites a concurso?

Não existem “requisitos mínimos” para a admissão. O único requisito é que respeitem o texto do regulamento e nomeadamente não possuam edições comerciais nem contratos com editoras.

Para a banda que triunfar no final, qual é o prémio que receberá?

O prémio será o contrato de gravação, produção e edição de um CD-EP com quatro temas originais, uma sessão fotográfica profissional e a possibilidade de actuação na primeira parte de um dos espectáculos das Festas de Corroios. Nesta edição de 2006, os projectos participantes vão fazer parte de um CD interactivo produzido em colaboração com a Escola Superior de Tecnologias de Setúbal. Após o final de cada edição, procuramos manter uma relação próxima com o projecto vencedor. “Prémios” extra têm aparecido no passado, tais como actuações, entrevistas e outras formas de promoção dos projectos, que consideramos importantes.

Yellow W Van, Factos Reais, Plasma… Estes são alguns nomes de bandas que venceram edições anteriores em Corroios. Como se sentem ao observar o percurso destas bandas nos anos seguintes? Sentem-se um pouco responsáveis pelo seu sucesso?

Ficamos obviamente satisfeitos quando verificamos que continuam a trabalhar e conseguem atingir os seus objectivos. Não diríamos responsáveis pelo sucesso, até porque nesses casos falamos de bandas que se encontram ainda num processo de difícil afirmação no meio e será eventualmente abusivo falar em sucesso. Contudo não temos dúvidas que terá sido importante a sua passagem pelo Festival e que nalguns casos foi sem dúvida um importante primeiro passo, a que terão de se seguir muitos outros, da sua responsabilidade, para conseguirem o que tanto anseiam…

Apesar de tudo, continua a haver um certo afastamento entre o público nacional e a sua música. Que falta para que as bandas se possam impor? Oportunidades parece que há, como é prova o Festival de Música Moderna de Corroios. É culpa do sistema?

Essa é uma discussão que já dura há muitos anos, sem resultados visíveis, mas que obviamente interessa discutir, por isso estamos a organizar também um debate (o que sabemos não ser nada original) que se integra na programação do festival. Em nossa opinião, como costumamos afirmar, mais importante do que nos lamentarmos perante a apatia de jornais, rádios, televisões e editoras, que teimam em desaproveitar o enorme talento de uma cultura musical jovem e verdadeira que se exprime sem disfarçar o que pensa, há que procurar cada vez mais, apesar do espaço difícil e limitado em que nos movemos, distinguir a Música Moderna Portuguesa, até que haja alguém para escutá-la e isso só é possível se cada um de nós der o seu contributo e de alguma forma trabalhar para o tornar possível.

Como encaram a nova lei da música na rádio?

Haveria muito para dizer… mas o que era importante mesmo, nesse como noutros casos, é que não se limitasse a mais uma lei ou um processo de boas intenções e que fosse efectivamente aplicada independentemente da opinião que temos em relação à mesma.

Voltando ao festival: sei que vão ocorrer em paralelo outras actividades. Querem falar delas?

Em paralelo com as actuações, a edição de 2006 promove diversas iniciativas igualmente importantes e complementares. Tiveram lugar duas workshops de guitarra eléctrica nas escolas secundárias da freguesia, com o intuito de promover e sensibilizar os mais jovens, fomentar o gosto pela música e incentivar a aprendizagem. No seguimento das Workshops irá realizar-se um Curso de Iniciação à Criatividade Musical, durante o mês de Marco, num total de 12 horas, sob orientação do Professor Pedro Almeida. Vamos promover um concurso de fotografia do festival, que culminará com uma exposição de todos os trabalhos recebidos, no final do concurso. Dia 4 de Março terá lugar um debate sobre a música em Portugal, em parceria com a Associação de Músicos do Seixal – Barulho, que pretende debater diversas questões que afectam o mundo a música no nosso país.

E na final actuarão ainda os Wraygunn. Como chegaram a essa escolha?

É uma opção que resulta de vários critérios onde também se incluem os financeiros. Trata-se de uma banda que consegue afirmar-se mais rapidamente e vender mais fora do que dentro do seu próprio país, o que não deixa de ser curioso, embora não seja caso único. Os seus espectáculos têm sido elogiados por todos e são de facto uma verdadeira festa. Já tínhamos pensado neles no ano transacto e chegámos a encetar os contactos. São uma banda que já tocou no Seixal, há já muitos anos, davam então os primeiros passos, mas que nos últimos anos não têm tocado na margem sul do Tejo.

É um exemplo de como se pode e deve trabalhar para contrariar as questões de que atrás falámos e que encaixa no espírito do festival.



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