Festival de Almada 2016

Festival de Teatro de Almada

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É a partir da ideia de diversidade, diversidade em relação às várias expressões artísticas, diversidade em relação às propostas estéticas, que Rodrigo Francisco, o director do Festival e da Companhia de Teatro de Almada constrói a ideia chave da 33ª Edição de um Festival que, pese embora as suas diferenças de orçamento abissais com os seus congéneres na cena europeia, é neste momento o principal certame nacional e uma importante referência internacional. Escreve o encenador e director do Festival: “-Olhando para estes 29 espectáculos apresentados em 15 dias, se não nos focássemos na referida diversidade não conseguiríamos relacionar, por exemplo, a linguagem beckettiana da coreógrafa Maguy Marin com o flamenco de Mercedes Ruiz; ou o pós-dramatismo de Falk Richter com a devoção à literatura de Thomas Ostermeier; ou a consagração de Joël Pommerat com a juventude e a irreverência dos jovens incluídos no ciclo O Novíssimo Teatro Italiano. “.

Por outro lado esta edição do festival assume trazer para o interior da sua programação uma tensão estética que existe no teatro europeu de hoje, aquela que existe entre aqueles que mantêm o texto teatral e a composição de personagens como especificidades centrais da criação teatral e aqueles que, muitas vezes englobados na categoria de pós-dramáticos, abandonam a perspectiva da criação de papéis e do texto, valorizando a natureza performativa e actancial do espectáculo teatral. Esta tensão surge evidenciada nos trabalhos que trazem Thomas Ostermeier, com A Gaivota, de Anton Tchecov (Teatro Municipal Joaquim Benite,  Dias 10 e 11, 21h30 e 19h) e Falk Ritcher com Città del Vaticano, espectáculo que verbera algumas características e princípios da vida no Vaticano ( Teatro Nacional D. Maria II, 8 e 9, 21h).

Festival de Almada 2016

Na programação um destaque para “Um museu vivo de memórias pequenas e esquecidas” ( dias 7,8 e 10, Teatro Estúdio António Assunção, às 19.30, 16h e 15h, respectivamente), um monólogo de quatro horas e meia de Joana Craveiro do Teatro do Vestido, espectáculo que se levanta a partir de uma questão, “Quando é que acabou a revolução?”, e que motiva respostas que seguem diversos pontos de vista, que vão desde a história oficial à perspectiva de cidadãos mais ou menos anónimos que participaram no 25 de Abril. Este espectáculo na edição do ano passado, foi seleccionado pelo público para espectáculo de honra. Esta escolha, num tempo em que a velocidade de consumo da comunicação e da própria arte contaminam as próprias linguagens artísticas, coloca-nos algumas questões. O que é que se pode dizer de um público, e de um festival, cujo público escolhe um monólogo de quatro horas e meia para que ele possa voltar no ano seguinte?

Outros espectáculos há que certamente se vão tornar imprescindíveis por aquele público que já aguarda com expectativa esta quinzena alucinante de teatro: Otelo, variação para três actores, texto escrito por Olivier Saccomano, dirigido por Nathalie Garraud, uma criação da Compagnie du Zieu, feita numa arena a um ritmo frenético (dias 11,12 e 13 na Incrível Almadense, às 17h, 21h e 19h respectivamente); Housewife, de Esther Gerritsen, encenação de Morgane Choupay, um concerto de câmara dado por pequenos electrodomésticos domésticos (dia 13, 22h, Palco da António da Costa); os dois espectáculos no Teatro da Trindade, O Terror e a miséria (não só) no Terceiro Reich, dramaturgia e encenação de Jesús Garcia Salgado a partir do texto de Brecht (dia 14, 21h), e A Conferência dos Pássaros de Farid Ud-Din Attar (dia 17, 18h), texto que foi apresentado pela primeira vez em Portugal em 1980 no Antigo Convento do Beato, numa encenação de Peter Brook, nome maior do teatro contemporâneo; Susn, de Herbert Achternbusch, outra encenação de Thomas Ostermeier, e com o qual a actriz Brigitte Hobmeier ganhou o prémio da Bienal de Veneza (CCB, Pequeno Auditório, 14 e 15, às 21h e 18h, respectivamente) e Pinóquio, pela Compagnie Louis Brouillard, que na encenação de Joel Pommerat, director francês que tem obtido crescente reconhecimento internacional e em 2006 recebeu o Grande Prémio de Literatura Dramática do Festival de Avignon, com a peça Les Marchands nos traz um Pinóquio que mente porque não tem coragem de dizer aos amigos que é pobre(CCB, Grande Auditório, dias 15 e 16, 21h e 18h, respectivamente).

A Conferência dos Pássaros

No campo das produções e criações teatrais portuguesas, alguns destaques, para além do já referido espectáculo de honra: A Lição, de Eugéne Ionesco, encenação de Miguel Seabra, criação do Teatro Meridional ( Dia 8, 22h, Palco Grande da Escola D. António da Costa), Cimbelino, versão cénica de Luísa Costa Gomes do texto de William Shakespeare, encenação de António Pires ( Dia 16, Palco Grande da Escola D. António da Costa 22h), Ricardo III, direcção artística de Tónan Quito (Dias 17 e 18, Teatro Municipal Joaquim Benite, às 21h30 e 18h respectivamente) e Hotel Lousiana quarto 58, com interpretação de Joana Bárcia e criação, dramaturgia ( a partir de Albert Cossery) e encenação de João Samões (Fórum Romeu Correia, Dia 16, às 18h) e finalmente, a criação Graça – Suite Teatral em três movimentos, a partir de textos de Graça Morais, António Tabucchi e Carlos J. Pessoa (que como é habitual neste colectivo assina a encenação).

Ricardo III

Há também uma co-produção que merece ser assinalada de forma especial: “Não d’amores”, de Gil Vicente, cujos cenários e figurinos evocam o teatro renascentista, com música da época tocada ao vivo, numa encenação de Ana Zamora, directora espanhola muito premiada (e que cria a sua companhia Não d’amores a partir deste primeiro trabalho).

O Sentido dos Mestres, que em edições anteriores contou com Luis Miguel Cintra e Peter Stein, convidou este ano o encenador Ricardo Pais para um conjunto de encontros que terão como ponto de partida o trabalho deste criador (Dias 13, 14 e 15, inscrição prévia para geral@ctalmada.pt com carta de motivação e curriculum. Preço 60 euros (50% desconto para assinantes do Festival).

Voltando à ideia chave desta 33ª Edição, a diversidade, Rodrigo Francisco escreve que ela serve o propósito principal do Festival, cativar todos aqueles que se interessem pelas artes do palco, desafiando-os a encontrar um ponto de  interesse na programação desta alucinante quinzena teatral: “ – Se o teatro quer falar da polis, é necessário que toda a polis se envolva”, afirma ele.

E se é muito claro que este desafio ao espectador é feito através de uma intensa programação onde estarão importantes criadores e grupos do teatro contemporâneo, ele também encontra eco na bilheteira do Festival, com assinaturas a 70 euros ( 56 para o clube de amigos do Teatro Municipal Joaquim Benite”,  o que permite o acesso a todos os espectáculos em Almada (nos espectáculos em Lisboa há um acréscimo de 2 euros por bilhete).

Este facto é tanto mais relevante quanto o orçamento global do Festival é de cerca de 800 mil euros, dos quais apenas cerca de vinte por cento provêem do Ministério da Cultura/ Direcção Geral das Artes. A parte maior, quase cinquenta por cento vem das receitas próprias e de várias parcerias.

Banda ás Riscas

A Câmara Municipal continua a ser o grande suporte público do Festival. António Matos, histórico vereador da Cultura do Município de Almada, e o único responsável público presente na apresentação do Festival,  fez questão de assinalar que este apoio e esta ligação do Município à Companhia de Teatro de Almada e ao seu Festival são para continuar.  Ligação que se inscreve numa missão maior de promoção da actividade teatral e que passa pelas escolas, pelos professores, pelo teatro amador e pelas colectividades. António Matos assumiu o compromisso público de continuar com o apoio e foi mais longe, lançando aquilo que chamou uma “interpelação, um desafio à República” para que se consiga uma clarificação de competências dos diferentes órgãos da administração pública e que para se consiga que o próximo quadro comunitário de apoio não restrinja o seu financiamento para a cultura àqueles que a relacionam com a actividade turística.

E se festival é festa, o de Almada bate-se por isso: espectáculos de rua em Cacilhas, música na esplanada da Escola António da Costa, que é historicamente o grande ponto de encontro de todos os participantes do Festival, exposições documentais, encontros, colóquios e formação completam uma programação que nos pede em primeiro lugar um grande esforço na escolha para que possamos saborear ao máximo esta intensa programação cultural.



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