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Festival de Teatro de Almada: “o que há no teu mundo?”

O teatro estará cada vez mais político, mais comprometido? Um olhar rápido pelos 23 espetáculos nacionais e estrangeiros que de 4 a 18 de julho de 2019 vão fazer parte da 36ª edição do Festival de Almada lança-nos nessa pista.

Todos os anos, mal começa Julho, todos os anos a cidade do Teatro se repete. Um labor-ofício, reunir o seu povo, uma comunidade maior do que os limites e os contornos geográficos de Almada, convocando-a para a celebração do teatro. Da natureza festiva do encontro teatral.  Cerca de duas semanas de espetáculos, debates, concertos, exposições que se espalham por Almada, Lisboa e este ano também Cascais. 

Em Almada, a Escola António da Costa, com o seu Palco Grande e o seu Palco da esplanada, sempre, como o seu polo aglutinador. Na mesma avenida estão ao serviço do festival, do lado direito o Teatro Municipal Joaquim Benite, construído de raiz pelo arquiteto Manuel Graça Dias, com as suas duas salas, e do lado esquerdo, um pouco mais adiante, já na Praça São João Baptista, o Fórum Romeu Correia, Também o Teatro-Estúdio António Assunção, a histórica Incrível Almadense e o Seminário São Paulo. Há uma ocupação do território, mas também uma forma de construir memória. Os nomes de Romeu Correia, de António Assunção e de Joaquim Benite são mais do que pontos físicos na cartografia teatral da cidade.

Programa aqui.

O compromisso em cima do palco: de Brecht a Primo Levi

“-O que há no mundo?”, é uma das primeiras falas de Timão de Atenas, uma das últimas peças de Shakespeare. No seu texto de apresentação do Festival, Rodrigo Francisco invoca-a para realçar a diversidade estética e geográfica dos criadores presentes nesta edição, sublinhando a forma como ali se espelham as suas preocupações enquanto artistas.

E se seguirmos esse jogo interpelativo através dos espetáculos, descobrimos que sem estarmos em presença de um teatro declaradamente político, pelo menos da forma como antes o conhecemos,  encontramos alguns sinais de que os artistas nos seus projetos artísticos estão especialmente interessados e comprometidos em ser portadores de um olhar para as dimensões mais atuais da sociedade contemporânea. Falamos de espetáculos como “Provisional Figures” ( Números Provisórios), de Marco Martins segundo uma ideia de Renzo Barsotti, com textos de Isabela Figueiredo e Gonçalo M. Tavares, “Se isto é um homem”, a partir do texto homónimo de Primo Levi,  pela Companhia de Teatro de Almada, encenação de Rogério de Carvalho, “Terror e Miséria” de Bertolt Brecht, do Teatro do Bairro, encenação de António Pires,  “ De quoi sommes-nous faits?”, que junta a Compagnie 1 Er Temps do Senegal e a Compagnie ABC de Paris, encenação de Catherine Boskowitz, “Saison Sèche”, da Companhia francesa NON NOVA, encenação e dramaturgia de Phia Ménard e Jean Luc Beaujault, e até mesmo os espetáculos de rua, “La partida”, encenação e coreografia de Vero Cendoya, a partir de textos de Eduardo Galeano e Fahrenheit Ara Pacis, de Vicent Martí Xar, direção artística de Leandre Escamilha e Manuel Vilanova, pelo Xarxa Teatre, grupo valenciano que tem um dos trabalhos mais significativos no campo das artes de rua.


Provisional Figures”

Aliás, o teatro sempre interpelou o mundo

O que não quer dizer, e continuamos a acompanhar o texto de Rodrigo Francisco, “ que o teatro tenha de correr atrás da urgência mundana para constituir-se como “actual”: ontem e hoje, sempre existiram outros dispositivos concebidos para se prestar a esse papel.

Trazem também uma dimensão critica social e política que sempre enriqueceu o teatro espetáculos como “Feira dell´Arte”, do Teatro Meridional, encenação de Miguel Seabra e escrito por Mário Botequilha (dramaturgo e argumentista que reincide na comédia del arte, já tinha assinado, também para o Meridional, o premiado Al Pantalone),  “A Boda” de Bertolt Brecht, encenação de Ricardo Aibéo e que junta vários actores e actrizes que trabalhavam na Cornucópia quando esta se extinguiu, “Guerra e terebintina”, de Stefan Hertmans, adaptação e encenação de Jan Lauwers, da belga Needcompany, “Macbettu”, do Sardegna Teatro e da Compagnia TEATROPERSONA, encenação de Alessandro Serra,  “ O Sonho”, de August Strindberg, versão e dramaturgia de Graça P. Corrêa, produção do Teatro Experimental de Cascais, encenação de Carlos Avilez.

Não deixa de ser, segundo este ponto de vista interessante olhar para o espetáculo “País Clandestino”: reunindo autores e encenadores de França, Argentina, Espanha, Brasil e Uruguai que se encontraram em Nova Iorque em 2014 e que desde essa altura, por skype ou por email, debateram entre si as suas práticas teatrais, os seus contextos artísticos e políticos próprios, criando assim um objeto teatral que reflete a implicação que esses mesmos contextos têm nas suas criações artísticas. Neste ponto de vista da experimentação podemos também associar outros dois trabalhos: “Quinze bailarinos e tempo incerto” da Companhia Nacional de Bailado, uma criação de João Penalva e Rui Lopes Graça e “ As três sozinhas”, de Anabela Almeida, Cláudia Gaiolas e Sílvia Filipe.

Há também aqueles espetáculos como “Franito”, do Théatre de Nímes, encenação de Patrice Thibaud e Jean- Marc Bihour, que nos traz uma incursão pelo flamenco, “Esquilo, nacimiento y muerte de la tragédia”, monólogo-conferência sobre o simbolismo no mundo grego clássico e no mundo antigo oriental, a partir de Ésquilo e outros autores, adaptação e encenação de Rafael Alvarez, “El Brujo”, que também interpreta, “Um poyo rojo”, do T4, Buenos Aires, Argentina, que são objetos cénicos que, pelas suas características artísticas e técnicas, linguagens, número de atores, são já habituais nos circuitos dos diferentes festivais de teatro.

Merece também menção “que boa ideia, virmos para as montanhas” do Teatro da Cidade,  texto e encenação de Guilherme Gomes que também interpreta, com Nídia Roque, Rita Cabaço e o próprio Guilherme Gomes, e  que em 2019 recebeu o prémio SPA para melhor texto português apresentado.  Para além de Dr. Nest, da berlinense Familie Floz, o espetáculo de honra, processo muito peculiar do Festival de Almada, que através do voto dos seus espectadores possibilita uma nova apresentação na edição do ano seguinte do espetáculo mais votado pelo público. Dr. Nest, acontecimento mágico na sua relação entre os atores, as marionetas, e o espaço cénico, debruça-se sobre a natureza humana, observada a partir de um estabelecimento psiquiátrico.  

“Franito”

Bob Wilson, Isabelle Huppert, Maria de Medeiros, Bule Ogier e Junio Dar

Já referimos vinte dos espectáculos que vão estar na edição em Almada deste ano e conseguimos não falar ainda daqueles três que serão sem dúvida os grande momentos mediáticos do Festival: “Mary Said What She Said”, criação de Robert Wilson interpretada por Isabelle Huppert, texto de Darryl Pinckney e música de Ludovico Einaudi, no CCB, “Un amour impossible”, do Centre Dramatique National Besançon Franche-Comté, encenação de Célie Pauthe com Bule Ogier e Maria de Medeiros na Sala Principal do Teatro Municipal Joaquim Benite e Joan of Arc, do Visjoner Teater, da Noruega, criação e interpretação de Juni Dahr.

No seu texto de apresentação, Rodrigo Francisco não podia ser mais entusiasta: “ 2019 será o ano em que Robert Wilson e Isabelle Huppert vieram ao Festival de Almada”, salientando que isso acontece graças à parceria com o Centro Cultural de Belém. O Festival continua assim, como acontece desde finais da década de 90, a trazer alguns dos nomes mais significativos da cena mundial, como, entre outros,  Peter Brook, Giorgio Strehler, Peter Stein e Patrice Chéreau.

Novidade na edição de 2019: uma noite dedicada ao público mais novo com Porque voa o tempo?, de Nuno Cintrão, um espetáculo musical interativo.


“Mary Said What She Said”

A festa no Festival: música, exposições, debates e conversas com o público

Terminado este voo rasante sobre os momentos mais significativos que vão acontecer nos palcos da 36ª edição do Festival de Almada, ainda não falámos de toda aquela agitação que faz a festa de Almada, a começar pela Música na Esplanada (todos os dias, na hora do jantar e dia 18 o encerramento com os Carapaus Afrobeat). De 8 a 12 de Julho na Sala Pablo Neruda do Fórum Romeu Correia, em Almada, O Sentido dos Mestres, habitual espaço de formação, este ano dedicado à máscara teatral, com o encenador, ator e pedagogo Hajo Shuler, diretor artístico da Familie Floz. Também os colóquios na esplanada, em parceria com a Associação Portuguesa de Críticos de Teatro, que de 5 a 17 de Julho, sempre às 18h, trazem os artistas à conversa com o público. “As palavras e o mundo na herança de Primo Levi”, nos Encontros da Cerca, do Ciclo Primo Levi,  marcam o ano da comemoração do centenário do nascimento de Primo Levi, com intervenções de Giovanni Tesio, Esther Mucznik, Martina Mengoni, António Martins, Ricardo Presumido e Rogério de Carvalho, o encenador do espetáculo “Se isto é um homem”.

E as exposições documentais dedicadas à personalidade homenageada este ano:  O gabinete Otimista, “Para Carlos Avilez” e Gabinete de memórias e curiosidades com vista para o palco, “Vida e Obra de Carlos Avilez”, no Átrio e Sala Polivalente da Escola D. António da Costa, ambas assinadas por José Manuel Castanheira, que também coordena o 3º Encontro Internacional de Teatros da América Latina. Uma outra Exposição de Artes Plásticas, ZOO, na Casa da Cerca, de Luís Lázaro Matos, que este ano fez o cartaz do Festival. 

Como é que se faz um Festival como o de Almada?

Trinta e quatro anos de edições do Festival de Teatro de Almada foram o objeto de investigação de Rita Henriques, cujo trabalho “O Teatro faz a festa: o Festival Internacional de Teatro de Almada (1984-2018)”, edição da Companhia de Teatro de Alma­da, será lançado no âmbito do Festival.

Para além das muitas parcerias na cidade, há também aquelas que estendem o festival à cidade de Lisboa, como o Teatro Nacional D. Maria II, o Centro Cultural de Belém e o Teatro Municipal Mirita Casimiro, em Cascais. Este ano não integram a programação os dois teatros do Chiado: o Teatro da Trindade, que tinha sido em 1997 o primeiro espaço em Lisboa a juntar-se ao Festival de Almada, e o Teatro São Luiz, que também têm vindo a ser parceiro regular de Almada.

Quanto à componente económica do Festival de 2019, um exercício sempre difícil para um festival desta dimensão, o orçamento do Festival tem uma despesa de cerca de quinhentos mil euros. A Câmara Municipal de Almada suporta quase metade, as receitas próprias atingem cerca de um terço e a comparticipação da Direção Geral das Artes é de cerca um quarto. Sem entrar em derivas sobre o tema sempre escaldante do financiamento das artes em Portugal, duas notas: em primeiro lugar a capacidade de autofinanciamento, com um grande número de venda de assinaturas (na apresentação do festival, dia 14 de Junho, já havia quase 250 assinaturas vendidas). Em segundo lugar o valor da comparticipação do Ministério da Cultura, através da Direção Geral das Artes. Na apresentação do Festival o representante do Ministério da Cultura, Américo Rodrigues, o novo Director Geral das Artes, semeou alguma esperança ao reconhecer que o Festival de Almada, pela sua componente comunitária, pelo seu enraizamento nacional e internacional era um grande exemplo do que deve ser feito e que o Ministério da Cultura, reconhecendo esta evidência e assumindo que o apoio atualmente prestado é diminuto, pretende apoiá-lo de outras formas.



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