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Festival de Veneza 2011

Os destaques da 68ª edição do Festival de Veneza. "Faust", de Aleksander Sokurov arrecadou o Leão de Ouro.

O cinema regressou ao Lido que, entre charme e glamour, apresenta uma forte selecção na edição deste ano do Festival de Veneza. Entre muito Óscar buzz e bastante hype, as atenções estiveram viradas para vários cineastas, alguns desde logo preferidos e com apostas de Leão de Ouro à cabeça. Mas a atenção esteve também sobre Darren Aronofsky, querido do festival e director do júri do certame deste ano que, com a sua “equipa”, tem de fazer esquecer as decisões (tão criticadas e badaladas) de Quentin Tarantino no ano anterior.

A passadeira vermelha foi inaugurada por George Clooney – outro dos habitués do festival – com uma das longas-metragens mais aguardadas do ano: “The Ides of March”. O filme vira-se para o mundo político – o olhar mais crítico e uma visão mais cínica do universo das campanhas políticas e da criação da imagem do candidato ideal – mas o realizador e actor fez questão de salientar em conferência de imprensa que esta “não é uma crítica aos Estados Unidos”. Sendo ou não, a verdade é que, embora bastante apreciado na sua generalidade, “The Ides of March” não convenceu completamente. Alguns consideraram-no um “forte pontapé de saída” para o certame deste ano, apontando a sua estética “clássica e sólida” – alguns comparam-no a um aprendiz de Sidney Lumet – e ao seu “argumento aguçado com um elenco forte”. Contudo, para muitos é tido como um “filme liso” e “demasiado convencional”. Poderá ser também um dos fortes candidatos à próxima temporada de prémios: há quem veja como praticamente certa uma nova nomeação para Ryan Gosling.

Ao segundo dia, as atenções viraram-se para o novo filme de Roman Polanski, que não compareceu em Veneza dadas as suas habituais “restrições” de viajar sem receio de ser novamente colocado em prisão domiciliária. “Carnage” foi ovacionado no Lido e embora tido como “algo exagerado”, dada a quase-comédia de costumes instaurada, há quem diga que Roman Polanski devia fazer comédias mais vezes. Adjectivado na sua maioria como “agradável”, Jodie Foster e Christoph Waltz são considerados o melhor do filme, embora Kate Winslet seja uma autêntico crowd pleaser e John C. Reilly acabe por surpreender.

As coisas não correram tão bem para a rainha da pop Madonna, que agitou as águas do Lido, com centenas de fãs da cantora a iniciarem a caça aos autógrafos e agitou também a crítica, sendo arrasada na sua maioria. Alguns consideram “W.E.” um “desastre completo” e que nem os actores o salvam disso. São feitas críticas à forma como a figura feminina é tratada e à história demasiado “açucarada”, mas também é considerado como ligeiramente superior ao esperado – não que isso seja necessariamente positivo. Porém, a sua estética é apreciada (comparada ao estilo de Tom Ford) e o guarda-roupa é largamente elogiado (possível nomeação ao Óscar?).

Dias 3 e 4

O terceiro dia em Veneza começou com aquele que se esperava ser um dos preferidos candidatos ao Leão de Ouro deste ano. David Cronenberg apresentou “A Dangerous Method” (três anos depois de “Eastern Promises”) e, embora as expectativas não tenham saído frustradas, o filme dividiu algumas opiniões. Especialmente porque – e talvez seja esta a maior crítica ao filme – diz-se que o filme não é cronenberguizado, opinião que se generaliza por quem diz que falta a identidade e arrojo do cineasta canadiano, que conduziu um filme mais formal e contido que o esperado. Contudo, não significa isto que “A Dangerous Method” seja um mau filme, já que afirmam que esta é uma obra “consistente, cativante e rica”.

Adjectivos esses que não se aplicam a “Un Été Brûlant”, longa-metragem de Philippe Garrel, protagonizada por Monica Bellucci e Louis Garrel, que se diz ter criado grande burburinho na sala, entre gargalhadas e apupos. A crítica fala numa “auto-paródia”, que cai nos “clichés do cinema europeu” da nudez, relações extra-maritais e relacionamentos vagamente homoeróticos.

Na secção Orizzonti, foi exibida a média-metragem do português Gabriel Abrantes e Daniel Schmidt. “Palácios da Pena” não gerou grande buzz na crítica internacional, mas foi apelidado de “radical e alternativo”, designações que os jovens têm ganho perante todo o mediatismo internacional dos últimos tempos.

Ao quarto dia, Vincent Paronnaud e Marjane Satrapi regressam, depois de “Persepolis” (2007), com “Poulet aux Prunes”, com Isabella Rossellini, Mathieu Amalric e Maria de Medeiros. O filme é apelidado de “amigável e bonito”, mas que lhe falta “o imaginário” que pretendia imprimir.

Mas a grande confirmação deste dia e que se fala que poderá ser o grande vencedor do ano foi “Alps”, do grego Giorgos Lanthimos. A crítica aplaudiu a nova longa-metragem do cineasta, afirmando que pelo seu estilo quase aparenta ser uma sequela de “Dogtooth” (2009). “Alps” foi considerado “divertido, triste e firmemente original”, mas ao mesmo tempo bastante “formal, expandindo a comédia absurda e composição elegante de “Dogtooth””.

Outra surpresa – mas esta fora de competição – foi o ecléctico Steven Soderbergh com “Contagion”. Não reuniu consenso, mas gerou também agradáveis críticas. Embora para alguns o filme tente ser “simultanemente um disaster movie, thriller, drama e documentário, mas sem funcionar em qualquer um dos géneros” e “mais convencional que o desejado”, para outros, o filme é completamente o oposto: “entretenimento para adultos, directo e sério”, com uma “história perfeitamente credível, não-sensacionalista e não dependente de efeitos visuais”.

Dias 5, 6 e 7

Ao quinto dia do festival estreou um dos filmes mais esperados do certame e a reacção final é que as expectativas não saíram goradas. Steve McQueen apresentou a sua segunda longa-metragem, depois da excelente estreia com “Hunger” (2008), “Shame”, que se tornou num dos preferidos do festival e um dos principais candidatos ao Leão de Ouro. A crítica considera-o “poderoso, com um visual assombroso e com prestações cruas de Michael Fassbender e Carey Mulligan, impossível de ser ignorado pelo júri de Veneza” e “cinema fluído, rigoroso e sério; o melhor tipo de filme para adultos”.

Já o novo documentário de Al Pacino, “Wilde Salome”, é considerado “mais pessoal e obsessivo” que o anterior sobre Shakespeare e a peça “Richard III” (“Looking for Richard”), e simultaneamente uma “intrigante exploração da peça “Salome” de Oscar Wilde” e “um auto-retrato intimista do actor e realizador”. Al Pacino foi homenageado com um Prémio Carreira.

Ao sexto dia, mais um peso pesado a adicionar à competição: “Tinker, Tailor, Soldier, Spy”. E o que se diz da segunda longa-metragem do sueco Tomas Alfredson? Primeiro que tudo “confirma o trabalho do cineasta em “Let the Right One In””, depois fala-se sobre o desempenho de Gary Oldman, com uma “serenidade calculada e uma intensidade sombria” e provavelmente já a acenar para a próxima cerimónia dos Óscares. Do filme em si há quem o considere uma “obra-prima” e há quem prefira não tecer já juízos de valor do género. Contudo na generalidade fala-se de “uma enorme atenção aos detalhes, uma adaptação triunfal, memorável e calmamente devastador filme de espionagem”.

Já ao sétimo dia nova e memorável estreia: “Wuthering Heights”, nova adaptação do clássico homónimo de Emily Brontë, por Andrea Arnold. Depois de “Fish Tank” (2009), a cineasta britânica apresenta a sua renovada visão do clássico inúmeras vezes já adaptado ao cinema, desta vez de uma “forma livre e nada académica” e, como tal, não adequado para puristas. A cineasta continua com a utilização do formato 4:3 (especialmente rara actualmente, ainda para mais em filmes de época), filmando de uma forma “selvagem”, investindo numa “sensibilidade contemporânea”, ao mesmo tempo que é “primitivo e sensual”.

Já o japonês Shion Sono (parte da sua filmografia foi recordada no MOTELx) apresentou “Himizu”, o seu mais recente filme, sobre o terramoto e tsunami de 11 de Março no norte do Japão. O cineasta continua com a sua “pouca disciplina como realizador” e o filme foi considerada “uma bizarra sobreposição de estilos”, uma “estética do cinema do absurdo” e uma “adaptação, quase impossível de se ver, de um género de comédia direccionado para adolescentes japoneses”.

Dias 8, 9 e 10

Ao oitavo dia, Abel Ferrara apresentou o seu “4:44 Last Day on Earth”, um drama sci-fi apocalíptico que segue o que aconteceria caso as pessoas soubessem que o mundo ia acabar em determinada data. Um filme bem mais pacífico do que aparentaria ser dada a sua temática. A crítica indicou que apesar da ideia em potencial, o que Abel Ferrara “tem para oferecer são delírios ideológicos e lições de moral baratas”, sendo este “um filme de tamanha fragilidade produtiva investido de tanto poder fundador”.

No mesmo dia, o italiano “Quando la notte”, de Cristina Comencini, começa por ser um drama romântico-familiar, mas apesar da bela fotografia, é acusado de ser “demasiado dramático e clichê”. Também o filme português “Cisne”, de Teresa Villaverde, estreia na secção Orizzonti, sendo que o maior elogio feito ao filme tem sido a maravilhosa “sinergia entre Teresa Villaverde e Beatriz Batarda”, especialmente vindo de uma realizadora que sempre trabalhou bem com actrizes e personagens femininas. Contudo, diz-se que nunca antes a associação realizadora/actriz foi tão forte como em “Cisne”, mas que infelizmente o filme “perde-se nas histórias secundárias”.

Ao nono dia, Killer Joe” e William Friedkin surpreendem a crítica. Do realizador de “The Exorcist” ou “The French Connection” chegou uma obra que se tornou rapidamente um dos filmes favoritos do festival dado o seu carácter de “puro entretenimento, um virtuoso e divertido exercício de comédia negra ao jeito de uma soap texana”.

Também foi exibido “L’ultimo terrestre”, de Gian Alfonso Pacinotti, um filme que “usa os seus elementos de ficção-científica para explorar as pessoas e o seu medo da diversidade e do desconhecido” e que recebeu grandes aplausos no final da sua exibição.

“Faust” – o filme que viria depois a ganhar o Leão de Ouro – marca o regresso do russo Aleksandr Sokurov completando a sua tetralogia sobre grandes figuras do poder, numa obra considerada como um “pastelão de quase três horas”, mas ao mesmo tempo um “poderoso e fascinante trabalho de arte”, e “tecnicamente perfeito”.

Ao décimo dia, o cineasta de Hong Kong, Johnnie To, apresentou “Life Without Principle”, um dos últimos filmes a serem adicionados à selecção do festival. O filme assenta no instável mundo financeiro, como “uma crónica de uma espantosa actualidade temática”, com uma realização “versátil” e “uma espantosa atenção à realidade que o rodeia”. A desilusão veio de Ami Canaan Mann, filha de Michael Mann. O seu “Texas Killing Fields” é considerado “demasiado académico para criar mistério e tensão”.

Encontrem todos os galardões AQUI!

Este texto pode também ser lido no blog SplitScreen



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