Festival Músicas do Mundo

Sob o signo de Vasco da Gama.

Para quem olha de fora o Festival Músicas do Mundo parece pertencer a outro campeonato. Pura ilusão! O Festival de Sines é, cada vez mais, uma referência a fixar no extenso calendário dos festivais nacionais.

A sua qualidade tem vindo a crescer proporcionalmente ao impacto mediático ao longo destes últimos anos sendo, quiçá, o festival português mais sadio e com mais boa onda. Para além disto, como o próprio nome indica, proporciona uma grande exposição à, muitas vezes desconsiderada, world music, como que influenciado pelo espírito do navegador Vasco da Gama, que apadrinha o certame do alto do castelo.

1º Dia – Que a festa comece

Projectado para a barulhenta praia de Porto Covo, o pontapé de saída do festival foi dado pelos argentinos 34 Puñaladas, um interessante colectivo de tango, com tanto de Carlos Gardel como de politicamente incorrecto. Apenas uma amostra para o que nos esperava no imponente cenário do Castelo de Sines.

Cristina Branco, a Brigada Victor Jara e Segue-me À Capela, três pesos pesados da música portuguesa, representaram da melhor maneira as cores nacionais no palco principal do FMM, numa amálgama (quase) perfeita de fado, folclore de raíz tradicional e canto a capella.

Logo a seguir, lançou-se os dados da festa que seria o resto da noite. Primeiro sob a forma de Ljiljana Buttler & Mostar Sevdah Reunion, colectivo bósnio com tradição na música festiva balcânica, abrilhantado com a voz profunda de Ljiljana Buttler, a mãe da soul cigana. Sevdah significa em português algo como “fluído de paixões”. Que melhor palavra para descrever o que se passou em cima do palco.

A festa ficava completa com a Mahala Raï Banda, já no palco junto à praia, num concerto contagiante e festivo, que não deixou ninguém impávido com a energia da música balcânica, que até os mais desatentos de ouvido reconhecem do colectivo de Emir Kusturica.

Pelo meio, brilhara Amadou & Mariam, aqueles que foram os reis da primeira noite. Definitivamente, o Mali está no mapa da world music. Mas, ao contrário de Ali Farka Touré ou Toumani Diabaté, a música deste casal de invisuais tem tanto do Mali como do resto do Mundo. Uma mistura explosiva de rock, funk e soul, misturada num caldeirão de ritmos africanos, que é o melhor exemplo do epíteto música do mundo. O público saiu rendido às evidências e Amadou & Mariam lembraram-nos que a visão é muitas vezes um dom que raramente justificamos.

2º Dia – A noite do Albino Louco

Já alguém a definiu como a Nico gótica, mas a portuguesa Lulu Pena é, acima de tudo, uma Voz, assim mesmo, com letra maiúscula. Uma Voz são aquelas pessoas cujo cantar pode ser despojado de qualquer instrumento para encantar e hipnotizar. Se um dia Deus descer à Terra, necessitará de um arauto para ser as suas palavras ao dirigir-se a nós, meros mortais. Esse arauto só poderá ser uma Voz e Lulu Pena estará, certamente, entre o lote dos possíveis escolhidos.

Perante uma Capela a abarrotar (foram muitos os que abandonaram indispostos o exíguo espaço), Lulu Pena abriu o segundo dia de festival num concerto gratuito, com uma actuação sóbria e comovente como é seu timbre, com a particularidade de raras vezes parar entre os temas. A sua música é um registo muito pessoal e particular de fado à guitarra acústica, mas Lulu Pena também deambulou pelos cantautores brasileiros e espanhóis.

Se a Capela da Misericórdia (um excelente exemplo de valorização de património) foi o cenário perfeito para a actuação intimista da jovem lisboeta (apesar de serem somente 18.30 horas, como a cantora fez questão de frisar (como justificação da sua timidez), já a noite foi descerrada com guitarras! Mas não foi uma guitarra qualquer; foi a guitarra do norte-americano Marc Ribot, que se fez acompanhar em Sines pelos três Young Philadelphians.

O percurso musical do guitarrista norte-americano é bastante eclético: ora está a acompanhar Tom Waits, ora está a acompanhar John Zorn. E ora está a deambular pelos ritmos cubanos, como ora está a enveredar pelo jazz de fusão. Em Sines o público rendeu-se à música mais livre de Ribot, num registo de free jazz e de jazz de fusão, qual Jeff Beck nos ácidos,  com raízes no blues, mas também com resquícios de funk, cortesia dos The Young Philadephians, atingindo momentos de verdadeira cacofonia sonora. Acompanhado por um baixo omnipresente, foi no entanto a guitarra de Ribot que se destacou, num concerto bombástico que fez o público exigir o primeiro encore da noite.

Se a música é, no entanto, um espectáculo visual, então a mexicana Astrid Hadad foi a raínha da noite. Esta verdadeira show-woman (que uma fusão entre Freddie Mercury e Madonna não faria melhor), saída literalmente de um cabaret da coxa, apresentou um espectáculo predominantemente visual, trocando de traje em todas as músicas, passando de mariachi a prostituta provocadora, sempre em tom lascivo e politicamente interventivo, onde nem George W. Bush se safou da sua língua afiada.

Hermeto Pascoal não é humano. Não pode ser. Ele próprio não só se apresentou, na conversa que mantivera durante a tarde com um largo grupo de admiradores, como um homem que vai viver 500 anos, como ainda revelou alguns diálogos que manteve com o próprio Criador. Hermeto Pascoal, o homem que não encontra diferença entre a música de um clarinete e a de um passarinho a cantar, defende que na vida tudo deve ser misturado; por isso, ouvimo-lo a fazer música com tudo, seja um pandeiro, uma flauta, ou um copo de água(!), misturando o jazz com o forró brasileiro, o tropicalismo ou o samba. Hermeto é omnipresente em palco: não só é maestro, como professor e pai de um grupo de músicos geniais, do qual se destaca uma jovem de voz lírica, capaz de arrepiar as pedras da calçada. Se existir o céu depois da morte para os misericordiosos e piedosos, então a banda-sonora de lá só poderá ser a música de Hermeto Pascoal.

A noite não terminou sem antes o público dispersar para o concerto junto à praia dos Ba Cissoko. Para quem está habituado a ouvir a kora tradicional de Toumani Diabaté, ver Ba Cissoko a empunhar uma kora electrificada ou ligada a um pedal wah-wah pode ser um cenário surreal. No entanto, musicalmente é um cenário bastante válido e a noite foi rematada sob os ritmos africanos do kora-rock.

3º Dia – E o Diabo chegou a Sines

O terceiro e último dia começou com um concerto gratuito junto à praia de um quarteto japonês chamado Samurai 4. E estes foram a maior surpresa do festival, uma vez que foram aqueles que traziam menos expectativas e que proporcionaram uma das melhores festas dos três dias.

Agarrados a instrumentos tradicionais, os Samurai 4 (duas mulheres e dois homens) distribuíram um concerto de música tradicional japonesa, mas sempre num registo dinâmico, transportando-nos ora para a companhia de geishas em prados verdejantes oníricos, ora para coreografias cénicas de Akira Kurosawa. No entanto, o riff poderoso de Smoke On The Water por aquele tipo de banjo de três cordas, fez o concerto culminar em catarse surreal, com os Samurai 4 a cantar em uníssono com o público o clássico We Will Rock You, enquanto o manager aluado pulava pelo palco de braços abertos, ao mesmo tempo que arremessava água para o público.

Os Masters Musicians Of Jajouka de Bachir Attar abriram a noite no Castelo. Músicos que, segundo os registos, já cá andam há mais de 4000 anos, deixaram os menos preparados incrédulos, quando anciões milenares se chegaram à frente para minutos intermináveis de dança pélvica, despertando a líbido das jovens presentes. Encantadores de serpentes (leia-se pessoas), os Master Musicians Of Jajouka hipnotizaram o Castelo de Sines, com a sua percursão e gaitas do deserto, dando total significado à palavra transe. Música tão natural quanto a água, que renasce naturalmente longe das convenções musicais habituais, limitando o espectador ao gosto de ver e ouvir, teria sido o melhor concerto do festival se a seguir não tivessem subido ao palco uns senhores que respondem pelo nome de KTU.

Os KTU são duas metades distintas: Kimmo Pohjonen e Samuli Kosminen de um lado e Trey Gunn e Pat Mastelotto do outro. De um lado os Kluster, de outro os King Crimson. De um lado, o acordionista do Diabo e do outro os reis do rock progressivo. Juntos, formam os KTU, uma auto-estrada cósmica entre o Texas e a Finlândia.

Se Kimmo Pohjonen é mesmo o demónio como afirma, então os KTU são os quatro cavaleiros do apocalipse e deles não se pode esperar nada menos do que o armagedão. A sua música é abismal, um eco de improvisação superior entre um acordeão sombrio e uma guitarra warr (uma guitarra com dez cordas e com o alcance de um piano), que arrepiou e arrebatou todos os presentes. No final a cólera de Deus não veio, mas o vento soprou sempre forte e há quem diga ter ouvido a terra a gemer.

Para o fim, ainda com a festa final do ano passado, de Femi Kuti, presente na mente de muito dos espectadores, apresentaram-se os Kíla. Fiéis às suas raízes irlandesas, ao violino, à percursão, à música celta e até aos assobios, os Kíla, após ultrapassarem alguns percalços técnicos, acabaram por não atingir as expectativas, alternando alguns momentos interessantes de virtuosismo, com outros momentos mornos e insípidos. O resultado final foi um concerto banal, com mais querer do que poder.

No entanto, a grande decepção da noite estava guardada para o fim. Os Konono n.º 1 foram uma das bandas que receberam mais elogios em 2004, graças ao álbum Congotronics, que os retirou do anonimato do Congo, devido aos ritmos de dança africanos deformados pela distorção. Talvez inadaptados ao espaço aberto junto à praia, ou talvez apressados pelo facto de terem de apanhar um avião poucas horas depois, o concerto ficou-se pela boa vontade dos músicos e dos mais resistentes espectadores, que estoicamente se mantinham a dançar na pista de dança improvisada, depois de três dias cansativos, de música, dança e excessos.

Estava no entanto rematado mais um FMM, aprovado com o selo de qualidade pela grande maioria dos festivaleiros.



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