Festival Musicas do Mundo | Sábado, 21 de Julho de 2012

Festival Músicas do Mundo | Sábado, 21 de Julho de 2012

A festa continua muito em breve e desta vez com o palco da Avenida Vasco da Gama já a entrar nas contas

O que pode saber melhor do que algumas horas de descanso seguidas de umas de praia? Talvez um concerto de Dead Combo no Castelo de Sines ao final da tarde… Ainda para mais com a participação de Marc Ribot, “o nosso herói da guitarra”, segundo as palavras de Tó Trips. Um concerto dos Dead Combo é sempre apetecível. É uma janela para uma Lisboa que muitos desconhecem. Uma janela aberta para o mar e para o rio, mestiça e mulata. Para confirmar isto temos uma enchente no Castelo como nunca se viu para um concerto ao final da tarde, mesmo sendo sempre de entrada gratuita. 2012 está a ser um ano generoso para o duo lisboeta, quer dentro, quer fora de portas, e isso está estampado no rosto de Pedro Gonçalves e Tó Trips, este último apenas visível de tempos a tempos, quando surge debaixo da habitual cartola. Até à entrada de Ribot temos uns Dead Combo iguais a si próprios – e com Alexandre Frazão na bateria – porém, nesse momento tudo se transfigura e é elevado a um outro nível. As composições ganham um novo requinte, surge uma veia mais roqueira até aqui pouco ou nunca vista nos lisboetas. Tudo somado assistimos a um momento único e inolvidável mas que no fundo não conseguimos de deixar de esperar que se repita o mais brevemente possível. É que vale mesmo a pena meter ao barulho um guitarrista com o calibre de Marc Ribot.

Oumou Sangaré já é uma repetente no FMM mas desta vez traz consigo Béla Fleck, um dos maiores tocadores de banjo da actualidade. E é exactamente por aqui que tudo começa, com Fleck só em palco, a mostrar a sua arte de banjo em punho. Uma entrada certeira. Depois entra a banda de suporte onde pontifica o kamele n’goni, um instrumento de cordas cuja tradução literal significa cauda de cavalo. Só depois de preparado o terreno, Sangaré, recebida como a diva da música maliana que é, e para nos presentear com um excelente concerto, sem nunca esquecer a sua vertente activista e defensora dos direitos humanos e das mulheres do seu País, o Mali. O equilíbrio entre o banjo, um instrumento com raízes africanas, como Fleck faz questão de frisar durante o concerto, e a música maliana é perfeito; a alegria que paira no palco do castelo é contagiante ao ponto de conduzir à palavra, um habitualmente parco em palavras, Béla Fleck, como a própria Oumou faz questão de mencionar com uma expressão de espanto estampada no rosto.

Chega então a vez de Marc Ribot regressar ao palco, desta vez para apresentar ao vivo o seu projecto Los Cubanos Postizos, para aquele que terá sido o melhor concerto da noite. O melhor porque os músicos eram de eleição e isso reflectiu-se na sua prestação, sincera e contagiante na forma como combinam os ritmos eléctricos da guitarra de Marc Ribot, com música cubana e latino-americana, num quase rock tropicalista, capaz de pôr qualquer anca a abanar e sempre com a memória de Arsenio Rodriguez (a inspiração original dos Los Cubanos Postizos) presente. A espalhar classe e magia em palco – porque merece ser dito – estiveram Anthony Coleman no piano, Brad Jones no baixo, EJ Rodriguez nas percussões e Horácio “El Negro” Hernandez na bateria.

O problema de assistir a um grande concerto e este não ser o último é que o concerto seguinte pode, inadvertidamente, pagar por isso e tornar-se menos interessante. Foi exactamente esse o problema da Imperial Tiger Orchestra & Hamelmal Abate, que combinam o jazz europeu com a música etíope. Uma mescla bem combinada, é verdade, e com direito a várias mudanças de indumentária por parte da etíope Hamelmal Abate e dos seus bailarinos, que acabaram por funcionar mais como quebras do que propriamente como motivo de interesse.

As honras de encerramento deste primeiro fim-de-semana no Castelo de Sines couberam ao grupo que à partida mais interesse e curiosidade atraíam mas que acabaram por ficar um pouco aquém das expectativas; os Shangaan Electro da África do Sul. É fácil estabelecer um paralelo com os “nossos” Buraka Som Sistema mas a verdade é que estes últimos estão um pouco mais à frente que os Shangaan. A palavra-chave aqui é velocidade. Velocidade no número de batidas por minuto que a música atinge. Velocidade na dança, que se torna desconcertante e frenética e que faz com que não consigamos tirar os olhos do palco. No castelo o número a que Richard “Nozinja” Mthetwa se propôs atingir e manter foi 189, ou não tivesse repetido quase até à exaustão “one, eight, nine”. E os corpos que dançaram ao som dos Shangaan Electro não tiveram outro remédio que acompanhar…

Agora seguem-se uns dias de descanso mas a festa continua muito em breve e desta vez com o palco da Avenida Vasco da Gama já a entrar nas contas.

Fotografia por Mário Pires.



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