Festival Músicas do Mundo | Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

Festival Músicas do Mundo | Sexta-feira, 20 de Julho de 2012

A noite começa com o concerto com entrada gratuita, no interior do Castelo de Sines, o coração do Festival Músicas do Mundo (FMM)

É Sexta-Feira. Está uma agradável tarde de Verão que se vai aproximando do fim. O relógio aproxima-se das 19h, hora marcada para o início do concerto com entrada gratuita, no interior do Castelo de Sines, o coração do Festival Músicas do Mundo (FMM). As pessoas vão chegando com calma, devagar. Algumas sentam-se no chão e outras optam pelas bancadas que existem, quer do lado esquerdo, quer do lado direito.

Já passam alguns minutos da hora marcada quando se ouve a voz de Mário Dias, da TSF, e habitual presença no FMM. É dele a voz do festival já há anos. Os Osso Vaidoso são uma dupla que dispensa apresentações, porém esta é feita, como sempre, com toda a pompa e circunstância. Alexandre Soares e Ana Deus serão sempre associados aos Três Tristes Tigres, porém, com os Osso Vaidoso as ideias e o fio condutor são bem diferentes. “Animal”, o álbum de estreia editado pela Optimus Discos, cose-se por outras linhas; há a guitarra eléctrica de Alexandre Soares e a voz de Ana Deus, que parece não ter perdido absolutamente nenhuma qualidade com o passar dos anos. No entanto, no palco do Castelo de Sines as palavras de Ana Deus e os acordes que saem da guitarra de Soares, parecem ficar curtos. As canções de “Animal” não parecem ter sido talhadas para palcos ao ar livre. Há algo que se perde, as canções surgem despidas mas talvez em demasia, o que é uma pena porque as canções merecem ser escutadas. Já o sol, esse, esconde-se, imperturbável atrás do topo da igreja e das muralhas do castelo.

Os Al-Madar, nome que pode ser traduzido como “Circumferência” em arábico, são um conjunto proveniente de Nova Iorque, criado pelo libanês Bassam Saba. A acompanhá-lo está um conjunto de quatro músicos norte-americanos, onde se destacam April Centrone (bateria e percussões) e Timba Harris (violino e trompetes) que integram também os Secret Chiefs 3 que passaram pelo festival na edição de 2011. As composições apresentadas centraram-se mais em sonoridades do médio oriente, muito por culpa dos instrumentos tocados pelo libanês: alaúde, nay (uma flauta feita de cana) e o saz (um instrumento de cordas, cujo número pode variar, e que tem a forma de um alaúde mais esguio). A complementar, ou completar, estão os restantes músicos, que vindos de outros quadrantes, com saberes e leituras distintas, incorporam elementos de funk e rock nas composições que umas vezes resultam de forma surpreendentemente boa e agradável e outras nos fazem franzir um pouco o sobrolho. Algo normal num festival tido como de descoberta.

A descoberta prossegue com os L’Enfance Rouge & Lofti Bouchnak, que integra elementos de França, Itália e Tunísia. Dos L’Enfance Rouge, repetentes no festival, sabemos o que esperar; rock progessivo, musculado e pujante. Já quanto a Lofti Bouchnak não podemos afirmar o mesmo e, há que dizê-lo, estamos curiosos para perceber como será incorporado o canto arábico de um tunisino no rock dos L’Enfance. O resultado é interessante mas não menos estranho e a designação de post rock arábico parece assentar que nem uma luva no som que é destilado do palco, enquanto Lofti não surge em palco. Quando isso acontece o registo muda um pouco, muito por culpa do canto arábico daquele que é tido como um dos melhores tenores do Norte de África e Médio Oriente. É que o resultado torna-se um pouco difícil de processar por vezes, tal a estranheza do objecto que é apresentado em palco. O arábico, língua densa e que, para quem não a compreende, encerra em si uma quota parte de enigma e mistério, parece que nem sempre encaixa. Interessante mesmo foi a ligação que se estabeleceu entre os dois lados do Mediterrâneo. Realmente interessante, pela maneira ora subtil, ora rasgada e sem qualquer tipo de pudor como ambos os registos musicais acabam combinados. Uma ponte estabelecida pelo baixo, bateria, do lado dos L’Enfance Rouge, e o alaúde, violino e qânum (um descendente da antiga harpa egípcia), do lado dos músicos que acompanharam Bouchnak em palco.

Segue-se uma viragem de 180º ao som do folk multicultural e plurigeográfico dos finlandeses Frigg, também conhecido por nordgrass, pela forma como incorpora elementos do bluegrass americano, da folk nórdica e de música irlandesa. O objectivo a que se propunham foi fácil de atingir. Aos primeiros acordes dos violinos, violas e contra-baixo, todo o castelo irrompeu numa dança colectiva que só terminou quando a banda deixou o palco visivelmente satisfeita consigo mesma e com o público pela entrega que houve de parte a parte.

O encerramento da noite coube aos Nortec Collective Presents: Clorofila + Los Mezcaleros de la Sierra, provenientes do México e com o objectivo de colocar as largas centenas de resistentes que ainda se encontravam no castelo a dançar. O nortec é um estilo de música de dança onde são combinados elementos da música típica do norte do México, com elementos electrónicos. Uma mistura diferente do habitual que consegue ter tanto de interessante como consegue também momentos algo banais e totalmente desnecessários que nos fazem lembrar aquela noite em que acabámos por ir parar à “discoteca a que nos recusamos sempre a ir mas que mais cedo ou mais tarde acabamos por visitar”. Mas foquemo-nos nos elementos que são uma mais-valia, e que no fundo são assegurados pela componente orgânica da música, assegurada pelo trompete, pelo trombone e pela tuba. A completar a prestação está um VJ que chama a si toda a componente visual do concerto, com uma forte mensagem política e social, ou não seja o nortec de uma zona com grandes problemas relacionados com a actividade dos cartéis de droga mexicanos.

Cansadas mas satisfeitas, as pessoas deixam o castelo e os mais resistentes prosseguem a festa junto ao largo do castelo e à estátua de Vasco da Gama, entre copos, risos, boa disposição, violas e djambés. Daí a umas horas a viagem pelo mundo recomeça e tem passagens marcadas por Portugal, Estados Unidos, Mali, Suíça, Etiópia e, a encerrar a África do Sul.

Recuperemos então algumas energias…

Fotografia por Mário Pires



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