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Novos Fados LX 09

9, 10 e 11 de Abril @ Santiago Alquimista

Fundado há cerca de três anos atrás, o Projecto Marginal é uma entidade que se tem vindo a afirmar enquanto dinamizadora do panorama cultural português.

Tendo como mote a divulgação de novas bandas portuguesas num evento nunca antes realizado, o Festival Novos Fados Lx 09 surge como a festa (algo antecipada) de encerramento da Quaresma. O Santiago Alquimista, local predilecto para os happenings do Projecto Marginal, recebeu nos dias 9, 10 e 11 de Abril, este festival estreante, dando um sabor diferente à Páscoa lisboeta.

Antes de continuar, proponho uma reflexão acerca do nome do festival. Enquanto novidade e antes de ter conhecimento do mainstream musical, o nome sugere-nos uma exibição representativa da nossa tradição: o Fado. Quando se ouve falar em Fado, a primeira imagem que irrompe é a do símbolo cultural português. No entanto, esta palavra esconde um significado muito mais abrangente que merece ser explorado. Fado também é Destino. Não é só tradição, também é novidade. É a exibição do Presente que se vai revelar no Futuro.

Retomando a temática da música, a questão que se coloca talvez seja: que novos caminhos nos trazem as mais recentes bandas portuguesas? Nesta linha de raciocínio, o Festival Novos Fados Lx 09 leva-nos por uma viagem colorida e multifacetada, que nos oferece uma nova construção da identidade cultural, plena de uma diversidade artística que atravessa o sector das artes performativas, plásticas e audiovisuais.

Para além do alinhamento apelativo, este festival envolveu-nos num ambiente de constante movimento, que oferecia concomitantemente mostras das várias Artes.

Em cada dia, a recepção foi feita com a apresentação de uma curta-metragem da autoria de Tiago Pereira, que nos propunha uma reflexão diferente acerca da etnografia musical portuguesa e os seus novos elementos sonoros e gráficos. O novo, não como o antónimo do velho, mas sim como a sua forma de expressão actual e enriquecida. De seguida, as salas 1 e 2 do Santiago Alquimista brindavam-nos com uma apresentação alternada de algumas das melhores bandas jovens portuguesas.

No entretanto, o mesmo espaço era partilhado por uma pequena feira representada por editoras independentes, nomeadamente a Flor Caveira, Amor-Fúria e Raging Planet. Aqui, era possível comprar a preços bastante apetecíveis os trabalhos das bandas representadas neste evento. Para os mais resistentes, houve diariamente a actuação de um DJ convidado, fazendo jus ao tema escolhido para cada dia.

No dia 9, a curta-metragem “Tradição Oral Contemporânea” contou com a participação de B-Fachada. Partindo do trabalho deste fenomenal cantautor, viajámos pela tradição oral portuguesa, descobrindo que transmissão é a keyword para a tradição.

O tema para o alinhamento deste primeiro dia foi o novo rock luso, cantado na nossa língua. A abertura ficou a cargo dos Oioai, amplamente conhecidos, tendo sido tocados temas do novo disco. Seguiram-se João e a Sombra, cujos temas soturnos e melancólicos adaptam na perfeição os cânones do Cancioneiro Português. Aos enérgicos Feromona e o seu não menos frenético tema «Psicologia», seguiu-se a aguardada actuação de Samuel Úria que, a par de B-Fachada, é uma grande promessa da editora Flor Caveira.

Estes dois cantautores, diga-se de passagem, têm estado a revolucionar o panorama musical português.
Por último, actuaram os Doismileoito. A banda da Maia tem sido muito aclamada e o espectáculo dado provou que a escolha para cabeças de cartaz do primeiro dia de Festival foi acertada. Pedro Moreira Dias foi o DJ que fechou a noite, com uma temática alusiva ao rock, folk e pop em português.

No dia 10, a curta-metragem “Meta” explorou a desconstrução dos elementos audiovisuais recolhidos em Trás-os-Montes, musicados por Eduardo Vinhas, Rodrigo Costa e João Osório. Com comentários de Domingos Morais, a viagem inovadora ao Portugal rural e profundo surgiu novamente como um pedido de reflexão acerca do tempo, como elemento para o qual converge o ancestral e o vindouro.

A introduzir a temática musical deste segundo dia, direccionada para uma vertente marcadamente mais pesada e experimental do novo rock, actuaram os Gnu, embaixadores do pós-punk português. Aos electro-rockeiros Tsunamiz, seguiram-se os If Lucy Fell, a banda mais irreverente do cartaz deste dia. A presença feminina da banda PressPlay fechou as hostes da Sala 2. Em último lugar, os Murdering Tripping Blues banquetearam o público com uma actuação enebriante e teatral. Miss Nicotine foi a DJ escolhida para animar a festa after-hours, ao som de blues, pós-punk e música electro.

A World Music foi o tema eleito para encerrar o Festival Novos Fados Lx 09, no dia 11. O documentário “Arritmia” abordou de forma caleidoscópica a dança enquanto expressão popular. Partindo das peças iniciais, pequenos excertos gráficos e sonoros, as imagens foram recombinadas num padrão visualmente enriquecido e muito colorido. Inserida neste tema, a referência ao festival Andanças é incontornável, assumindo-se como a peça-chave deste padrão multicultural e que teve como interlocutores alguns dos monitores de dança e músicos.

Os The Ratazanas, representantes do reggae português, deram início à festa, seguidos pelos Anaidcram, de influências orientais, que muito agradaram com a actuação de dança de Diana Rego. Anonima Nuvolari foi o grupo que os sucedeu, relembrando o Cancioneiro italiano do século passado. Ao grupo de fusão Atma, seguiram-se os animados Farra Fanfarra, trazendo os sons dos Balcãs e a sua atmosfera festiva contagiante. Jakovni foi o DJ que, com um set de world music, ditou o encerramento do Festival, numa festa que se prolongou até de madrugada.

Que fado terão estes novos projectos musicais? Que destino lhes reserva a música portuguesa? Apesar de ser ainda prematuro elaborar uma teoria conclusiva, espera-se que a iniciativa do Projecto Marginal, com o Festival Novos Fados Lx 09, se repita muitas mais vezes e sirva de repto para que surjam outros eventos semelhantes, pois, até ao momento, só têm sido reveladas óptimas surpresas! E afinal… se é o público que dita esse fado em construção, ficamos na expectativa de novos estímulos para os trilhos culturais emergentes!



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