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Festival Paredes de Coura’10

28, 29, 30 e 31 de Julho

O Festival Paredes de Coura mudou-se para Julho. Nos dias 28, 29, 30 e 31 montou cenário no rio Tabuão e acolheu o cartaz mais fraco dos últimos anos. A Rua de Baixo, de festival em festival, foi saber se a tradição se cumpriu e quanto valeu o cartaz que apresentava nomes como The Cult, Peter Hook, Klaxons e The Prodigy.

O Festival

Em ano de mudanças, a data e o cartaz pelo menos, foi bom descobrir que o que não muda, e isso é importante, é o profissionalismo com que se organiza Paredes de Coura. Outra é o cenário: em pleno usufruto da natureza revela-se perfeito e de beleza inquestionável. E também a água do rio Tabuão, diz quem sabe, continua fria. Mas a tradição cumpriu-se e os milhares de habitués não deixaram de marcar presença.

Na sexta

Ainda o sol ia alto e The Tallest Man on Earth, com o recentemente editado “The Wild Hunt” (2010), espalhou o amor pelas poucas pessoas que lá estavam para vê-lo. Segundo Kristian, o palco era demasiado grande para alguém tão pequeno, ele próprio, mas de guitarra em punho conseguiu convencer a plateia com belas músicas folk e ofereceu aos resistentes – sob um calor que ninguém merece – um concerto de encher corações. Consegui protagonizar um dos momentos mais perfeitinhos e bonitos do festival.

Os PAUS, selecção de ouro das lides musicais lisboetas, depois do Milhões de Festa, apresentaram-se em Paredes de Coura, para mais do mesmo, sem desilusões: uma bateria siamesa sincronizada, os coros afinados e o rock a convencer a multidão.

Os ingleses The Courteeners, nas bocas do mundo porque Morrisey os nomeou a melhor banda dos últimos tempos, não conseguem convencer em disco. E apesar do indie-rock-sem-nada-de-novo, bafiento, a formação conseguiu surpreender um bocadinho: a pinta de rock star inglesa, o british accent e as guitarras aprumadas ajudaram, claro. Fica o benefício da dúvida, mas deixa-se recado para que os meninos da fervescente Manchester nos surpreendam no próximo disco.

Peter Hook, para alguns Deus, não trouxe nada de incrível. O ex-Joy Division deu um bom concerto, do qual até é capaz de se gostar, mas não naquele momento. Depois dos concertos que o antecederam era preciso um pouco mais para convencer a plateia. Assinalável sim, e talvez injusto admito, a última música: «Love will tear us apart».

Sobre os White Lies há pouco a dizer: pouco entusiasmante. Os cabeças-de-cartaz Klaxons não foram a chave-de-ouro – onde andava a chave-de-ouro, afinal? – mas deram um concerto com energia, agitaram o público e ainda ofereceram um encore a contagiar animação para os concertos que se seguiam no palco secundário. Mas só para os mais resistentes, claro.

No sábado

Voltar sábado a Paredes de Coura revela espírito de crente, a viver na esperança de um rasgo, de um momento para a vida. Começamos no palco secundário e ainda ouvimos os nuestros hermanos Triangulo de Amor Bizzarro, nas suas últimas três músicas, a apresentar “Año Santo” (2010) – título dedicado às comemorações do Xacobeo, parece-me. Não deu para muito, mas deu vontade de ouvir mais.

No palco principal começamos mal. Os Dias da Raiva, apadrinhados pela Optimus Discos, apresentam-se como uma banda de punk-hardcore/metal. Ora, ter Pacman a cantar letras de raiva – que podiam ser rap – apoiadas em instrumentos como guitarras e bateria revelou-se inconciliável. A voz soa a uma coisa, os instrumentos a outra, de repente, não se sabe bem o que é, e o que é não soa bem. O excesso de asneiras era escusado, sob motes de apelo ou revolta, forçados, podia ter caído bem noutro dia qualquer, mas naquele contexto, fez com que caísse tudo ao lado.

A pergunta do dia era: Quem é Jamie T? Leio que é a “próxima grande coisa” – segundo a publicação britânica NME –, mais uma vinda de Terras de Sua Majestade. Assina por uma editora grande e é comparado a Bob Dylan. Tem uma voz que dá vontade de levar para casa e as músicas – ora com banda, ora a solo – chegavam a convencer e a encher, quase, quase, o coração.

Mão Morta, clássico de Paredes de Coura, foi uma aposta ganha da organização. Fez-se sentir o calor e a ovação do público. Mesmo nos momentos de silêncio, fazia-se crer no culto da banda. Adolfo Luxúria Canibal é, sem qualquer dúvida, objecto de culto em Paredes de Coura.

Pouco a dizer dos The Dandy Wharols e dos The Specials, muito pouco. Os últimos podem ter feito muita festa, podem ter causado muita euforia e podem ter dado um concerto daqueles, mas aquele ska não convence.

Por esta altura já só se espera que os The Prodigy cheguem ao palco e partam tudo. Isso é crer, num momento incomum, que são estes cabeças-de-cartaz que podem fazer o dia e, neste caso, todo um festival. E foram mesmo eles, os prodigiosos, quem convenceram. Estava montado o espectáculo: reforço de luzes, o power da electrónica e o big beat a despertar o público, como se tivesse esperado o dia todo por aquilo, com as letras sabidas na ponta da língua – ouvia-se, sim. Um pequeno senão para o desnorte geográfico da banda britânica: Paredes de Coura não fica no Porto.

Comer é naquela

A zona da alimentação deixou um bocadinho a desejar. Por intoxicação alimentar, de cerca de 20 pessoas, fecharam o Pita Shoarma que se vendia a caminho do recinto, vindo do acampamento. Cá dentro a mesma iguaria valia 5 euros; o hambúrguer Psicológico deixou de ser tudo o que me lembro de ser; e a roulotte da Tripa, e de outras iguarias repletas de açúcar, tinha horário livre: na sexta não abriu e sábado foi a última – tudo a seu tempo, que clientes são o que não falta, claro.

E o que se espera

Para o ano espera-se mais: outras bandas e rasgos daqueles. E, principalmente, sentir que estar em Paredes de Coura é ser-se feliz e que não haveria mais nenhum lugar do mundo onde quiséssemos estar, muito menos em casa, a dormir.



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