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No rescaldo do Rescaldo

Experimental é epíteto. Rescaldo é ir ou ficar atento em 2012 ao que a editora Shhpuma vai trazer

Como é que, em boa verdade, se reporta um concerto ou festival de música?

Tu ouves a música com os teus sentidos, eu com os meus, vais com os teus amigos, eu às vezes até vou sozinha, temos opiniões diferentes, felizmente, e, naquele instante, a música pode ser para ti, a tua distracção e deleite e, para mim, o meu painkiller ou redentor.

Na expiação do artigo de divulgação ao Festival Rescaldo, na semana que o antecedeu, em que entrevistámos Jorge Travassos, volto à questão: se é difícil e ingrato reportar o que a música nos fez sentir num determinado momento e envolvência, a nós que lá estivemos a fluir com ela, mais ingrato é reportar um festival de música essencialmente experimental, de improvisação, jazz, electrónica.

Festival Rescaldo

Este carácter experimental e de improvisação faz muitos ainda ficarem à porta e verem o Rescaldo como um festival alternativo, mas quem entrou na Trem Azul ou na Culturgest de 17 a 21 de Abril e assistiu a alguns concertos entre os nove e ainda exposições, sabe que esta improvisação só se sente de facto lá dentro com o suor do saxofone ou a electrónica a subir-nos pelos cabelos, sejam eles em franjas hipsters ou rastas. Sim, o ambiente do Rescaldo teve de tudo, e teve, sobretudo, muito bom ambiente.

Se o palco da Culturgest conseguia um intimismo, numa aproximação quase impossível com a mestria/ feitiçaria do som de Norberto Lobo e Carlos Bica, era na Trem Azul que nos sentíamos na sala-de-estar perfeita para um sábado à noite: cheia de gente e de som até ao tecto numa sequência da tal música que, repito, não se pode reportar porque é daquela que nos entra no espírito como uma espiral de fumo, se passeia pelos nossos pensamentos, ganas, medos e gritos e só nos devolve depois de voltar ao início: fogo, fumo, rescaldo.

Para dificultar o Rescaldo apresenta-nos, desde 2007 é essa a sua essência, música emergente que se destacou no panorama nacional, logo é falar de música que, além de não ser mainstream, dá primeiros passos de Gulliver nesta Liliput, como aconteceu com João Alegria Pé Curto, Calhau e Cangarra.

O que é neutro, feliz e fala por si só, é o lançamento da Shhpuma, uma nova editora portuguesa dedicada à música emergente que tem sido dada a conhecer pelas edições anteriores do Rescaldo e não só. Uma editora, com alicerces na já conhecida Clean Feed, que traz por um lado visibilidade aos novos artistas e, por outro, ao público, uma lufada de ar fresco com um catálogo de música, design e ilustração que são por si a mostra da criatividade e experimentação da Shhpuma.

No rescaldo do Rescaldo, logo na semana seguinte, a editora mostrou um dos seus Gullivers, Filipe Felizardo em concerto com a não menos gigante Matana Roberts, dia 28 de Abril na ZDB.

O Rescaldo continua por isso em nós, e nas sonoridades que se colaram ao corpo mas não nos deixaram dançar, tal é o prazer de ver fazer, ver acontecer, ver ouvir enquanto a dança acontece com os instrumentos lá no palco e com os pensamentos, cá longe.

O Rescaldo foi assim, pôs-nos o ouvido em surdina, qual tábula rasa para voltarmos, no fumo ou no fogo dos concertos a que assistimos, nos novos discos que aproveitámos para conhecer e comprar pela Shhpuma, nos talentos que o certame apresentou na sua 5ª edição.

Experimental é epíteto. Rescaldo é ir ou ficar atento em 2012 ao que a editora Shhpuma vai trazer.

Fotos de Filipe Santos



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