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Festival Ritek Paredes de Coura 2011, dia 19

A natureza sai sempre vencedora. A naturalidade também.

Num instante chegámos ao terceiro dia de festival e um efeito nostálgico começa a invadir o pensamento. O tempo costuma ser o nosso pior aliado quando estamos em sítios que gostamos, com pessoas que também gostamos. Para relaxar um pouco e prepararmo-nos para mais um dia, aproveitámos o calor e o sol que iluminava o Rio Tabuão. Entre sorrisos, partilha de informação e até de lanches, eis que avistamos o famoso barco amarelo que trazia os Kings of Convenience. O duo remou até nós e, após uma simpática troca de palavras, a repórter fotográfica Graziela Costa conseguiu tirar-lhes uma foto na sua Polaroid. Foi um momento indescritível para quem presenciou. Esse é o verdadeiro espírito do Festival Paredes de Coura – quando menos esperamos, avistamos um elemento de uma banda a tomar banho no rio ou a deambular alegremente pelo recinto.

Posto este breve comentário, o relato dos concertos do segundo dia do cartaz oficial. Como de costume, é o Palco 2 a abrir o dia de concertos e neste dia não foi excepção. A excepção foi mesmo a quantidade de pessoas que estavam à espera de ver a estreia dos lisboetas You Can’t Win, Charlie Brown num grande palco. O sexteto que é composto por Afonso Cabral, Salvador Menezes, David Santos (Noiserv), Luís Costa, João Gil (Diabo na Cruz) e Tomás Sousa, apresentou o seu álbum de estreia “Chromatic” que diversas críticas têm recebido. A coordenação e presença da banda são de união e cumplicidade e é isso que o colectivo transmite em cima do palco. Entre o público, encontrámos aqueles que se surpreenderam positivamente e os que já conheciam a banda cantarolavam. Ninguém se mostrou desagradado e no fim ouviu-se em uníssono o single de apresentação «Over The Sun/Under The Water», algo que surpreendeu os próprios membros da banda. A RDB teve o prazer de conversar com os YCWCB, numa entrevista a publicar muito em breve. A banda também dará um concerto em Lisboa, dia 15 de Setembro no Lux.

No palco Ritek quem abriu o certame foram os The Joy Formidable. O ar jovial da vocalista e guitarrista Ritzy Bryan e a sua voz delicada contradizem com o domínio das guitarras ao longo do espectáculo. “Como estão todos? Estão bons? Parecem-me bem”, diz a vocalista, anunciando de seguida que era a primeira vez que a banda realizava um concerto em solo nacional. Consigo, os The Joy Formidable trouxeram o mais recente álbum, “The Big Roar”, que dele fazem parte as canções «The Greatest Light is the Greatest Shade» e «Cradle». O registo da bateria é deveras potente e fez as delícias de todos os que escutavam a banda. No fim do concerto, Ritzy Bryan confessou que passou parte da sua juventude no nosso país e para terminar canta «Whirriting». Eles esperam voltar e nós esperamos vê-los.

O contraste entre os ritmos do rock varia e isso é notório entre os diversos grupos que actuaram no palco 2 ao longo de todos os dias do festival. O estilo mais frenético esteve ao encargo dos mexicanos Le Butcherettes. Apenas três pessoas compõem o grupo liderado por Teri Gender Bender (ou melhor, Teresa Suaréz) que é uma mulher multifacetada: ela canta, toca guitarra e ainda está no piano. Também cuspiu para o chão, tossiu para cima do microfone, atirou-se com toda a força para o chão do palco e os gritos dela ouviram-se em eco por todo o recinto. Le Butcherette é mais um grupo que tem apenas um álbum denominado de “Sin Sin Sin” e de facto estes três múltiplos pecados correspondem a cada elemento da banda. As letras e as melodias são extremamente provocatórias, mas não deixam de ser amplamente aplaudidas. Teri Gender Bender, que iniciou o concerto dizendo “Nosotros somos Le Butcherettes, y ustedes son amor”, terminou-o a agradecer a todos os presentes. Somos mesmo queridos.

Voltando para o palco principal, o contraste entre o público é elevado, ou seja, estava menos público àquela hora do que nos dias anteriores. Os And You Will Know As By The Trail Of Dead, ou simplesmente Trail Of Dead, foram os impulsionadores de movimentos perpetuados por parte do público entre mosh e crowd surf. O céu, que durante a tarde esteve azul, transformou-se num cinzento ameaçador combinando com o guarda-roupa da banda – todos de preto. O grupo oriundo do estado do Texas (E.U.A.) fez e deu um espectáculo composto por largos e possantes riffs de guitarra, transmitindo ao público aquilo que melhor sabem fazer, que é música. O nome da banda era entoado aos sete ventos pela plateia que assistia a músicas como «So Divided», «Gargoyle Waiting» e «Will You Smile Again». A ovação de palmas também se fez sentir num adeus sentido à banda que queria ficar a tocar para sempre em cima daquele palco que está envolto de algo místico.

Lamentavelmente, e como já foi referido na reportagem anterior, o grupo Jamaica foi substituído pelo trio norte-americano Summer Camp, mas que chegou a Paredes de Coura directamente de Londres. O palco secundário recebeu-os com pompa e circunstância pois a moldura humana já era gigante. Jeremy Warmsley e Elizabeth Sankey trocam refrões entre si, dividindo o protagonismo com um baterista que mascou pastilha o tempo todo e tocou com uma toalha em cima da cabeça. A banda que se mostrou bastante satisfeita com o sol e calor português, trouxe consigo melodias alegres que remetiam qualquer um para uma esplanada e por isso é que alguns aproveitaram para comprar uma cerveja e beberica-la enquanto escutavam com atenção as canções.

No palco principal, eis que surge mais um trio carregado de poder e melodias fortes. Travámos uma batalha com os Battles e eles saíram vitoriosos. Os Battles são actualmente compostos por três elementos, o que fez com que nas partes cantadas passassem samples de voz da cantora Kazu Makino (Blonde Redhead). Em palco, a batalha travou-se com duas guitarras, dois teclados, uma bateria pequena mas com pratos bastante lá no alto, e um conjunto de colunas que transmitiam o puro rock. Na setlist encontramos as músicas «Sweetie & Shag», «My Machines» e «Atlas» que foi a canção mais aplaudida. Em estreia nacional, os nova-iorquinos venceram com uma grande margem de manobra saindo visivelmente satisfeito e tendo deixado todo o público rendido a um espectáculo que combina o melhor do audiovisual (as imagens em animação que surgiam atrás dos músicos) e o melhor da música instrumental.

Para terminar os concertos no palco secundário, o grupo Chapel Club apresentou o seu único álbum, “Palace”, e fez as delícias de muitos. As melodias musicalmente longas faziam-nos perder a atenção e dispersar o olhar para a volta do recinto ou para o céu cujas estrelas já eram bem visíveis. Todavia, as canções eram agradáveis para o ouvido mais sensível e acabaram por se render ao público que os aplaudia a cada canção que passava.

O anfiteatro natural onde estava colocado o palco Ritek tornou-se pequeno para a quantidade de pessoas que estava a guardar lugar para o espectáculo dos Kings Of Convenience, mas antes, foram os norte-americanos Deerhunter que elevaram o som das colunas ao máximo, fazendo-se ouvir quase em Espanha. Bradford Cox, o eterno líder da banda, orquestrou todos os ritmos improvisados e mais correctos, desenhados por guitarras extremamente potentes. Durante todo o concerto, a comunicação verbal entre o grupo e o público foi quase inexistente, mas mesmo assim o vocalista não deixou de enaltecer o modo como tem sido e foi recebido no nosso país. As canções «Desire Lines», «Don’t Cry» ou «Little Kids»  primaram ao longo de todo o alinhamento, mas foi com a música «Memory Boy» que os Deerhunter transportaram todos os presentes para uma dimensão sonora superior (ou coisas do outro mundo onde só se ouve barulho).

Disseram que encontraram em Paredes de Coura o paraíso. Durante a tarde divertiram-se a andar de barco, a tocar guitarra e a receber massagens nas costas por entre os campistas. Os aguardados Kings Of Convenience parecem ligeiramente desenquadrados num cartaz onde o rock frenético se fez sentir, mas foram as suas melodias soft e o à-vontade que encantaram todos os presentes.

Em palco apenas se visualizavam quatro bancos brancos, quatro microfones e um piano virado de costas para o espectador. O duo composto por Erlend Oye e Eirik Boe irrompe em palco como dois mensageiros da paz. De viola em punho, os dois rapazes (adultos) dão início aquele que foi o melhor concerto de todo o festival.

“We are excited to play for such big audience” disse Erlend Oye, que, posteriormente e de forma eufórica, pronunciava num português quase perfeito “É sempre divertido tocar em Portugal”. E o público rendeu-se a toda esta sinceridade efusiva. Enquanto a música tem o seu lugar de destaque, do alto da colina onde estávamos sentados, avistávamos uma vasta plateia concentradíssima, balançando o corpo para a direita e para a esquerda. Também vimos bolas de sabão no ar, sorrisos rasgados e olhares sonhadores. As melodias «24-25», «Misread», «I Don’t Know What I Can Save You From», «Singing Softly To Me», «I’d Rather Dance With You», «Toxic Girl» ou «Mrs. Cold» deram a este espectáculo uma profundidade de deslumbramento fantástico. A meio do espectáculo, Erlend Oye e Eirik Boe chamaram dois convidados especiais para acompanharem as suas músicas: um violinista italiano e um guitarrista alemão na qual pedem ao público para os chamarem pelo nome e designaram-se de União Europeia (embora a Noruega não pertença à U.E.).

“Parece impossível que nunca tenhamos ouvido falar deste festival antes!”, grita Erlend Oye mostrando-se visivelmente fascinado com tamanha audiência e cenário natural que os envolvia. Foram a única banda com direito a encore. Regressaram para cantar «Corcovado», a imortal música de Tom Jobim, que nos deixou de boca aberta com o português quase perfeito, e «Homesick», dedicada à nossa repórter Graziela Costa por esta ter pedido a canção e lhes ter entregado a fotografia Polaroid. Anteriormente, o grupo já havia dedicado uma música ao grupo de jovens que amavelmente lhes emprestou o barco insuflável. Assim terminou a actuação do grupo norueguês. Nasceram saudades dentro dos nossos corações, pois dificilmente voltaremos a ver um concerto seu com tanta emoção.

Para terminar, Marina and the Diamonds. Marina surge sem diamantes (e até podíamos fazer uma piada… pois Marina foi um diamante em bruto. Ninguém a lapidou). Tendo em conta todos os nomes do cartaz, era o de Marina que mais desdém causava e esse desdém deu origem a dois grupos distintos: os que gostaram do espectáculo e os que detestaram. Com um visual simples e detentora de um corpo que salta à vista até de um cego (o poder de ter uns seios e um rabo ligeiramente grande), Marina e os seus diamantes tocaram felizes e contentes as melodias de “The Family Jewels” onde não ficou de fora o tema «I Am Not a Robot», que proporcionou momentos de comédia durante a tarde com os nossos colegas de reportagem. Outras músicas fizeram parte do reportório, tais como «Numb», «Obsessions», «Living Dead» e «Guilty», que encerrou o concerto.

No palco after-hours foram os ingleses Metronomy que encantaram os presentes que não mostravam sinais de cansaço. Os ingleses que contam com remisturas a bandas consagradas no panorama musical, eram uma das bandas mais aguardadas de todo o festival. Da nossa parte, lamentamos o facto de não ter ficado para assistir ao espectáculo, mas durante o caminho até ao campismo ouvimos os ecos de um público estridente e eufórico. A culpa de não termos ficado foi da Sidra com sabor a maçã e de um dia preenchido com muitos momentos de emoção. Aguardamos o regresso dos Metronomy numa sala de espectáculos ou numa discoteca.



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