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Festival Ritek Paredes de Coura 2011, dia 20

O eterno retorno.

Quando nós (equipa de reportagem da RDB) abrimos os olhos, olhámos para o relógio e este marcava as 11h00, já o sol estava coberto de nuvens e o dia ameaçava ser invadido pela chuva. Aproveitámos para arrumar os saco-cama, desmontar as tendas e colocar tudo dentro do carro. De repente, demo-nos conta que era o último dia de festival e que o regresso a casa e a saudade estavam a escassas horas de se tornar uma realidade. Na memória ainda estava o concerto do dia anterior. Neste caso a música «Homesick» dos Kings of Convenience fez todo o sentido “tocar” em loop na nossa cabeça.

Neste último dia decidimos aproveitar para repousar nas margens do rio, tirar algumas fotografias aos campistas, escutar com atenção a poesia que era debitada por alguns voluntários e ainda assistir a um lançamento de saltos para a água. Existiram outros motivos de diversão durante os outros dias do festival, mas contar-vos-ei numa outra reportagem a publicar muito em breve.

Quanto ao cartaz, o último dia trouxe mais novidades. Para começar, no palco 2, Peixe:Avião. A plateia de número reduzido mostra sinais de apreciação e curiosidade pelo trabalho de Ronaldo Fonseca e restantes elementos do grupo bracarense. A apresentar ao público, trouxeram as canções que compõem o álbum “Madrugada”. Carregados de um rock sombrio, adequado ao seu guarda-roupa, são mais uma vez as guitarras e os sintetizadores que transmitem uma enorme tempestade de electricidade. Quanto a nós, tudo poderia ser melhor, não fosse o som de palco estar um bocadinho fraco.

Finalmente, o fenómeno de popularidade em que os Linda Martini se tornaram teve um palco à sua medida. Depois de terem tocado no Festival Optimus Alive 2011 e de se verificar que têm um elevado número de seguidores, foi em Paredes de Coura que a consagração se tornou real. Vimos pessoas a correr para encontrar o melhor sítio e, quando olhamos para trás, o anfiteatro natural está repleto de pessoas. Durante estes dias, os Linda Martini foram a única banda a conseguir atrair tanta gente para um concerto de abertura do palco principal. Na linha da frente liam-se cartazes com pedidos de canções e outros de admiração aos elementos da banda. O quarteto mostrou durante 50 minutos que estudaram bem a lição: todos os membros estavam coordenados por uma magia rockeira incrível e esbanjaram talento. Um quarto dessa magia depende do baterista Hélio Morais que entre o público feminino é idolatrado.

“É bom estar de volta”, gritou o músico que de seguida interpretou a música «Nós os Outros». Entre o voo de baquetas para o público, Hélio Morais mostrou que sabe ser um bom comunicador, dedicando músicas a quem veio a correr só para os ver e aos amigos que estavam presentes. Quanto às músicas, os mega sucessos «Dá-me a Tua Melhor Faca» e «Amor Combate» foram os mais vociferados e aplaudidos pelo público que estava visivelmente em êxtase. No fim do concerto, em «O Amor É Não Haver Polícia», «Belarmino» e «Cem Metros Sereia», é arrebatadora a forma como o público dança, aplaude e aventura-se num crowdsurfing, em que o próprio baterista decidiu participar. O público bem que se manifestou pedindo mais uma música, mas infelizmente não tiveram direito a mais nada, apenas a palhetas, setlists, baquetas e toalhas. Foi um dos concertos mais intensos que assistimos do quarteto lisboeta e assim esperamos que continuem.

Coube ao minimalista Kurt Vile dar continuidade ao espectáculo no palco secundário. A ele juntaram-se mais dois músicos: um baterista e um guitarrista intitulados de The Violators. O aspecto soturno de Kurt Vile mostra-se através da sua postura: curvado e com o cabelo comprido a tapar-lhe os olhos. O músico que veio de Filadélfia só podia ter como influências Bruce Springsteen e Bob Dylan, destilando essas influências nas suas canções, ora amargas, ora doces em ritmos diferenciados. Apresentou o seu mais recente trabalho “Smoke Ring For My Halo”, editado este ano, e em correspondência aos aplausos que se faziam sentir, Kurt Vile apenas dizia com agrado “Vocês são muito queridos”.

A actuação de Maika Makovski apanhou todos de surpresa. Foi a aquisição de última hora por parte da organização do festival para substituir os norte-americanos Foster The People. A cantora espanhola cantou mas não conseguiu encantar os presentes, ou melhor, apenas conseguiu captar a atenção dos seus conterrâneos. Da enchente que esteve no concerto dos Linda Martini a maioria acabou por dispersar pelo recinto, outros permaneceram sentados ou deitados nas colinas. Mesmo assim, Maika deu o melhor de si. As suas melodias eram agradáveis e as suas letras merecem a nossa atenção, contudo a culpa não é de ninguém. Em palco a jovem cantora apresentou o seu mais recente trabalho homónimo lançado em 2010.

No palco 2 surgem quatro jovens rapazes com um ar bastante elegante. Eram eles os Viva Brothers, cujos membros da banda tínhamos visto a passear pelo recinto. Com eles trouxeram o primeiro e único álbum “Famous First Words”, lançado no início deste mês e do qual já foram extraídos três singles, que não faltaram no alinhamento; «Darling Buds of May», «Still Here» e «New Year’s Day». A presença do grupo britânico faz-se ouvir por toda a zona da restauração. O público que assiste é que não se faz ouvir assim tão alto, mas mostrou-se muito agradado. Quanto ao estilo – puro brit pop que acabou por nos divertir e deixar o ouvido em alerta na mudança de canções. Para escutar com atenção novamente.

E a voar chegamos ao concerto dos Two Doors Cinema Club. Para quem assistiu ao concerto que o grupo irlandês deu no passado mês de Maio no espaço TMN ao Vivo, não assistiu a nada de novo em termos de prestação do colectivo. O que surpreendeu foi assistir (e levar em cima do corpo) ao mosh. À nossa frente estavam algumas pessoas com placas de desvio a indicar Barroselas que faziam levantar a placa até ao céu. Se o intuito era mostrar onde fica Barroselas, esqueçam, mas foi divertida a dança das placas que também participaram no crowdsurf! Apresentando-se com uma grande boa disposição, os Two Doors Cinema Club deram início ao concerto com «Coffee and Cigarettes», seguindo-se «Do You Want it All» e a música de Verão «Something Good Can Work». A outra surpresa da noite foi a apresentação de um novo tema que estará incluído no novo álbum da banda a ser lançado no próximo ano. “Temos trabalhado muito e escrito muitas canções novas”, disse o vocalista Alex Trimble começando a tocar os acordes de «Sleep Alone». Para terminar em grande estilo e com o suor a escorrer por todos os poros da pele, a banda despede-se com o grande hit «I Can Talk».

Ninguém nos consegue explicar como é que, sendo o último dia de festival, os demais festivaleiros arranjaram forças para andarem envolvidos num mosh fervoroso. No Age encerrou o cartaz do palco 2 onde o sentimento de fúria e o volume das colunas no expoente máximo eram sentidos ao longe e conseguiu atrair ainda algum público. Se um dia estiveres chateado com um vizinho e quiseres irritá-lo, recomendamos-te a arranjares uma bateria e uma guitarra, ou então coloca o disco dos No Age nas músicas «Fever Dreaming», «You’re a Target» e «Inflorescence» com o volume no máximo.

Ao olharmos para o céu, este mostrava-nos a quantidade ínfima de estrelas, inúmeras constelações e a lua aparecia tímida e cortada ao meio. A juntar a isto, os Mogwai adicionaram a sua espiritualidade musical, sem letras, apenas melodias que transformaram a noite por completo. Em palco, e com um visual bastante discreto a contrastar com o arsenal de colunas que mistificaram o som, o grupo despertou o interesse de curiosos e tocou no coração dos fãs.

O colectivo tocou quase todo o reportório do álbum “Hardcore Will Never Die, But You Will”, lançado em 2010, e praticamente ininterruptamente. Aliás, o porta-voz da banda apenas vocifera por entre as músicas a frase “Thank You, Obrigado, Cheers”. Olhando para o anfiteatro quase esgotado, viam-se as cabeças a baloiçar e algumas mãos no ar. Durante pouco mais que uma hora, as longas canções «White Noise» e «How To Be a Werewolf», assim como as clássicas «Killing All The Flies» e «Mogwai Fear Satan» desenharam cenários no imaginário de todos nós e maravilharam todos os que os escutaram com muita atenção. Quando o concerto terminou, escutámos algumas opiniões e estas dividem-se entre o “muito bom” e o “podia ter tocado outra música, mas não tocou”, mas todos saíram satisfeitos.

Durante os quatro dias de festival, avistámos algumas pessoas com t-shirts do festival do ano de 2005, o mítico cartaz carregado de grandes bandas como Arcade Fire, Foo Fighters, Kaiser Chiefs, entre outras. Curiosamente, todos estes nomes estiveram presentes no nosso país em diversos festivais de verão. Para esta noite estava aguardado outro regresso que também esteve presente neste grande cartaz. Falamos dos Death From Above 1979.

Mesmo parecendo que Jesse F. Keeler e Sebastien Grainger não morrem de amores um pelo outro, estes ofereceram aos demais presentes, que “esgotaram” o recinto, tudo a que tinham direito como se uma bomba de energia ali tivesse caído. Durante uma hora (infelizmente sem direito a encore) a dupla canadiana tocou todos os temas do seu único álbum de originais, “You’re a Woman, I’m a Machine”, e do EP “Heads Up”.

“Não façam mal às meninas ou eu vou aí abaixo e violo-vos” gritou o baterista para o público ao olhar para a imensidão de pessoas que ainda estavam em ombros e num crowdsurf frenético e ininterrupto. A voz de Grainger foi a única que se fez ouvir entre palavras rasgadas, gritos de furar os tímpanos e com uma força inigualável. Com toda a força foram surgindo os temas «Too Much Love», «You’re a Woman, I’m a Machine» e «Black History Month». Os agradecimentos foram mais que muitos e a alegria que transmitiam era absolutamente contagiante. E como compreender o hype de uma banda que apenas tem um álbum editado? Apenas podemos afirmar que se compreende estando a assistir e sentir a áurea de prazer ao escutar aquelas canções e também o facto de estarmos presentes num cenário natural onde o ar puro e o fresco da noite exalta nas nossas narinas.

Já visivelmente cansado, o duo tocou a última canção da noite, «Losing Friends», e abandona o palco. O público ainda queria mais, ou melhor, precisava de mais para exacerbar toda a adrenalina, mas as preces não foram atendidas.

Nesta 19ª edição do Festival Paredes de Coura, houve inúmeros momentos brilhantes, magníficos, talvez proporcionados pelo cenário natural outrora já mencionado em reportagens anteriores. Por parte da RDB, damos por terminada a saga dos grandes festivais de verão. Foram dois meses de pura alegria, diversão, encontros e desencontros e partilha de informação das vossas (e nossas) bandas preferidas. Para o ano há mais… e nunca mais é Verão novamente.



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