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Festival Silêncio

Lisboa, Capital da Palavra.

À segunda edição, o Festival Silêncio! volta para uma edição que conta com alguns dos nomes mais importantes do spoken word e do poetry slam mundial. Saul Willliams e Ursula Rucker são as principais atracções mas há muito mais para ver e experimentar ao longo desta dezena de dias de festival. Os sons acústicos são mais usados em detrimento dos electrónicos, ou não tivesse este festival a palavra “Silêncio” no nome. Lisboa é capital da palavra por 10 dias.

A edição 2010 do Festival do Silêncio acontece em vários locais, espalhados pela capital: Goethe-Institut Portugal, Instituto Franco-Português, Faculdade de Letras, Largo dos Stephens, Musicbox, Largo de São João, Teatro Maria Matos e Cinema Nimas. A vertente musical do evento acontece quase toda no Musicbox, no Cais do Sodré. É sobre ela que nos vamos debruçar nos seguintes parágrafos.

No primeiro dia, Pedro Lopes, membro dos desafiantes Oto, e Manuela São Simão, em colaboração com a Rádio Zero, propõem a exploração dos sons e da fonética alemã. Os Oto de Pedro Lopes podem dar algumas pistas relativamente àquilo que vamos assistir no dia 16 de Junho – samples de discursos em alemão, vozes vindas na língua do país que nos deu a bomba atómica. Uma diferença substancial: as vozes apresentadas no Festival do Silêncio são de alunos de alemão. A pronúncia poderá ser um elemento em destaque. Serão feitas gravações ao vivo nos Jardins do Goethe e em espaços urbanos da baixa de Lisboa.

No dia seguinte, o ex-Pop Dell’Arte, Belle Chase Hotel e Quinteto Tati JP Simões apresenta um espectáculo de spoken word criado propositadamente para o Festival do Silêncio. A licenciatura em Comunicação Social e a inata capacidade para escrever canções conferem a este espectáculo uma curiosidade extra. JP Simões sempre se especializou em fazer diferente – em 2003, por exemplo, levou a “Ópera do Falhado” a palco, através de uma encenação de João Paulo Costa e da Companhia de Teatro do Bolhão. A parte lírica foi da exclusiva responsabilidade do músico de Coimbra. Entretanto publicou um livro de contos, “O Vírus da Vida”. Não sabemos o que vai apresentar no Musicbox, mas sabemos que sair-se bem.

No mesmo dia, no mesmo local, uma hora depois, sobe ao palco do Musicbox Ursula Rucker, uma das grandes atracções do evento. A palavra de Rucker propõe a denúncia de alguns dos grandes males do Mundo – miséria, racismo e o abuso sexual ou domésticos das mulheres. Mas é também uma voz que traz a miserável vivência de cada um de nós. Para nos fazer olhar ao espelho, usa truques vocais para nos tomar a atenção, como se tivéssemos que ter alguma motivação para nos reflectirmos a nós mesmos. Na sua discografia – que já leva 16 anos se contarmos com o “single” “Supernatural”, o que a lançou – contam-se quatro álbuns de originais, sendo o último de 2008, “Ruckus Soundsysdom”. Ao longo da sua já longa e respeitada história, Rucker despertou a atenção de muita gente. No Mundo da chamada música negra já colaborou com nomes como King Britt, The Roots e, fora desse Mundo, Jazzanova. Vai ser, sem qualquer dúvida, um dos pontos altos do festival.

No dia 18 de Junho, primeira Sexta-feira do evento, é a vez de Sebastian 23, uma das mais promissoras caras da poetry slam alemã. De voz e guitarra (acústica, claro) as suas performances mais parecem longos monólogos com uma enorme vertente comediante. Não é raro também ele se descair e soltar uma gargalhada (contida, claro). Por vezes a sua música aproxima-se daquilo a que podemos chamar de convencional, sem recital. Nessas alturas revela-se o Sebastian 23 mais frágil. Não é esse que queremos ver no Musicbox.

No Sábado, influenciada por Charles Baudelaire, Bob Dylan ou Nina Simone, Barbara Carlotti – não nos deixemos enganar, é francesa – actua no Instituto Franco-Português. É um espectáculo diferente dos restantes. A voz aquece de modo convencional, a palavra surge em forma de poesia. Daí as influências acima enumeradas: Nina Simone na voz, Bob Dylan na poesia – relembre-se que as letras de Dylan são estudadas nas universidades britânicas. Do concerto de Barbara Carlotti espera-se um dos momentos mais intimistas do evento.

Mais tarde, numa outra sala, no Musicbox, poderemos usar o slogan: “E agora algo completamente diferente”. Poésie et Lingerie chama-se o espectáculo que reúne Inês Jackes, Carla Bolito e Claudia Efe em cima do palco, acompanhadas por Edgar Alberto (vídeo) e Alexandre Cortez (música). Daqui há que esperar o inesperado. Sabemos que vai ser um espectáculo em registo spoken word e que vai haver muita sensualidade e erotismo. Sabemos que é um espectáculo que pretender retratar o erotismo e a sua relação com a poesia, mas, na verdade, não sabemos bem o que esperar.

A fechar a noite estará O Maquinista, ele que é João Branco, vocalista dos Hipnótica. Ao vivo apresenta-se com João Pedro Moreira, nos sintetizadores e no sampler, e com Pedro Gundar Mota, na guitarra. As influências vão de Tom Waits a William Burroughs, passando por Morrissey e David Lynch. É mais um corpo estranho, que propõe aos mais audazes novas experiências. Há elementos acústicos e sons maquinais. O projecto nasceu da cabeça de João Branco num período muito produtivo em termos de escrita. Em vez de deixar na gaveta aquilo que normalmente lá ficava guardado, a voz dos Hipnótica lançou um álbum – vamos ouvi-lo no Musicbox.

Na ressaca do fim-de-semana, na Segunda-feira, 21 de Junho sobem ao palco do Teatro Maria Matos Manuel Mota, David Maranha e Richard Youngs, este último vindo directamente de Inglaterra. Com mais de 20 anos disto, David Maranha e Manuel Mota já foram, com André Maranha, Patrícia Machás e Francisco Tropa, os Osso Exótico, um dos mais importantes projectos nacionais, no que diz respeito a música experimental. De Richard Youngs o mesmo condimento: música experimental. Elemento diferencial: a voz. É a voz que o traz a Portugal, é a voz que Richard Youngs vai dar ao espectáculo conjunto com David maranha e Manuel Mota.

Dia 23, Quarta-feira, quatro músicos – Luis Vicente, Luis Aires (baixo), Luis San Payo (bateria) e José Lencastre (saxofone) –, juntam-se a Tiago Gomes, um dos poetas do momento que colaborou, por exemplo, com Tó Trips no muito recomendável álbum “Vi-os Desaparecer na Noite”, baseado nos textos do livro “On the Road” de Jack Kerouac. No Musicbox vão estar textos de Philip Larkin, Jack Kerouac, Bob Kaufman e Nathalie Serraute.

No mesmo dia das Conversas do Silêncio, com Saul Williams, Kalaf (Buraka Som Sistema), o escritor José Luís Peixoto e moderação de Rui Miguel Abreu (Blitz), os Grossraumdichten oferecem no Musicbox um espectáculo de spoken word aliado à música electrónica. Ainda na mesma noite, Ghostpoet, um jovem MC Inglês pouco convencional sobe também ele ao palco do Musicbox para apresentar dois singles e o ep “The Sound of Strangers” que está prestes a ser distribuído gratuitamente na Internet.

A fechar a segunda edição do Festival do Silêncio vai estar um dos maiores nomes do spoken Word, a nível mundial – Saul Williams. Um pouco da sua história – em 2001, após uma série de ep’s, Saul Williams editou o primeiro álbum “Amethyst Rock Start”, com produção do mago Rick Rubin. Trent Reznor, sempre atento, levou-o numa digressão com os Nine Inch Nails. Williams foi responsável pelas primeiras partes. Em 2006 participou em “Year Zero”, o quinto disco da banda de Reznor. As colaborações acabaram por culminar no disco “The Inevitable Rise and Liberation of NiggyTardust”, editado em 2007. Poesia e hip hop dão as mãos e aliam-se a uma voz que é perfeita para denunciar os males do Mundo. Já colaborou com nomes como Nas, The Fugees, Erykah Bady, Zack De La Rocha e De La Soul. É, sem dúvida, a grande atracção do festival. Se o Mundo ainda tiver um pingo de justiça, no dia 25 de Junho, no Musicbox não caberá nem mais uma alma.



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