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Festival Vodafone Paredes de Coura 2022 | Dia 3 (18.08.2022)

A música começou bem cedo na quinta-feira do Vodafone Paredes de Coura 2022, com uma actuação surpresa de Nuno Lopes que, em plena hora de almoço, executou um DJ set no meio do Taboão, dando azo a uma festarola cheia de frescura. O homem que normalmente encerra a set de ouro o evento, desta feita teve direito a horas extra ainda a meio do cartaz.

De tarde, o Jazz Na Relva voltou a deliciar aqueles que repousavam perto do rio, com mais um menu super apetecível, integrando dois projectos encabeçados por Norberto Lobo: Chão Maior e Fumo Ninja. Os primeiros são mais uma ramificação do seu experimentalismo, que pratica em nome próprio, neste caso com a injecção de motivos jazzísticos, embalado pelos sopros sob a égide de Yaw Tembe, que tornam o todo automaticamente mais interessante, como já o indicava o excelente registo de estúdio, «Drawing Circles». Por seu turno, Fumo Ninja é o braço pop deste universo de Norberto, continuando Leonor Arnaut na voz (mas num papel mais tradicional, com letras), contando ainda com a criatividade omnipresente de Raquel Pimpão. São canções com letras esdrúxulas, acompanhadas por sonorizações estampadas, obtusas q.b., para tornar o caldeirão ainda mais aliciante.

Relativamente aos palcos primordiais do Festival Vodafone Paredes de Coura, este foi um dia em que começámos e arrancámos com revivalismo disco, ainda que fornecido de formas díspares. Ainda de tarde, Donny Benét trouxe-nos o seu disco low profile, acompanhado meramente por saxofone e bateria, além de alguns teclado pré-programados para preencher as canções. E foi uma manifestação de boa disposição: quer pelas apresentações dos temas por parte do australiano, quer pela veia dançante exibida por todos os números musicais interpretados, com destaque óbvio para a abertura com «Working Out», para o apaixonante «Love Online», e para o aclamado «Konichiwa». Houve ainda tempo para um lamiré ao recente EP instrumental que Donny Benét dedicou aos teclados e sintetizadores retro.  

Curiosamente, e fazendo a ponte para o último acto de quinta-feira no Palco Vodafone, o disco voltou a cintilar, mas entregue pela bandeja luxuosa e espampanante de L’Imperatrice. Antes sequer de provarmos a oferta musical, é imediatamente visível o cuidado visual e imagético que o grupo francês tem, com pormenores absolutamente maravilhosos, como os corações luminosos que todos os membros exibiam, e que seguiam regularmente os padrões rítmicos das suas canções. A nível sónico, o luxo é tão igual ou maior, com produções majestosas, que foram enchendo e obrigando a vibrar a massa humana no anfiteatro natural de Paredes de Coura.

No intervalo entre as duas actuações mencionadas, decorreram demonstrações mais pujantes, advindas de quadrantes e latitudes distintas. No término da luz do dia, The Comet Is Coming assinou uma digna demonstração da sua força, alimentando dança e até mosh através do seu som nada convencional, atestando novamente a abertura de espírito de quem acorre a este certame. O trio britânico (saxofone, bateria e teclados/sintetizadores) não deixou de aproveitar a oportunidade para estrear ao vivo temas do disco cujo véu levantarão em breve, denominado «Hyper-Dimensional Expansion Beam», e que reflectirá uma dimensão mais espacial e electrónica de Shabaka Hutchings e comparsas.

Ao cair da noite, a escuridão montou naturalmente o cenário perfeito para que os Molchat Doma se sentissem em casa, e debitassem incessantemente o poderio da sua darkwave, bem estruturada e equilibrada, entre as parte mais rock e a faceta mais electrónica. Ninguém terá tido medo do escuro durante o concerto dos bielorussos.

No palco principal, a preparar o caminho para o que se seguiria, os Parquet Courts arrancaram uma prestação fenomenal, com mais garra que o habitual, sem que isso beliscasse a versatilidade do seu interessante catálogo. De um tema para o outro, os nova-iorquinos mudam o jogo, e vão confortavelmente de Pavement a Ramones, de EMF a Beck, sem esquecer uma visita aos conterrâneos LCD Soundsystem. Foi um alinhamento em autêntico registo de best of, no tendo os Parquet Courts menosprezado qualquer recanto da sua discografia.

Com o público bem aquecido, os Turnstile viram facilitada uma tarefa que não se afigurava árdua: a de conquistar a audiência de Paredes de Coura. Tinha sido perceptível, por entre os zunzuns no habitat do festival, que muita malta desejava ardentemente este concerto. Juntando a isto a dedicação e simpatia da banda, exponenciada pela qualidade e natureza da sua sonoridade, o colectivo norte-americano conseguiu ficar bem alto no ranking do Vodafone Paredes de Coura 2022. As constantes mudanças de ritmo, as influências repescadas nas principais correntes da música de guitarras alternativas dos anos 90, e as melodias vocais sempre no ponto, tornam os Turnstile num fruto bastante apetecido, e num nome que acaba até por beneficiar da maior efusividade que se vive em ambiente de festival do que numa sala fechada em nome próprio eventualmente. Nos momentos finais, mesmo antes de sair de palco, e enquanto os seus colegas de banda distribuíam água pela multidão desgastada pelo mosh sem interregno, Brendan Yates agradecia-nos por permitirmos que os Turnstile sejam eles próprios. A música mais ruidosa nem sempre é feita por feios, porcos e maus, tem muita alma doce lá dentro.

Reportagem do primeiro dia disponível aqui, do segundo aqui e do quarto aqui.



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