filho_da_mae_agua-ma

Filho da Mãe | “Água-má”

Inicialmente as composições de Filho da Mãe apanharam muitos desprevenidos. Não seriam assim tantos os que estavam à espera de ver o guitarrista de uma banda como os If Lucy Fell, a jogar-se guitarra acústica tão assertivamente como o Rui Carvalho (a.k.a. Filho da Mãe, como todos nós) fez. “Água-má” é o quarto capítulo desta viagem e é, mais uma vez magnífico. Desta vez gravado entre o HAUS e a Madeira, continua a seguir as pisadas dos seus antecessores, deixando que o espaço onde foi composto influencie o som da guitarra, conferindo-lhe um tom único e inimitável. A palavra virtuoso encaixa aqui também. Mas fechemos os olhos e deixemo-nos levar.

Nos dias que correm, uma ida à praia serve mais para olhar para o mar revolto, constantemente a querer galgar a areia, para chegar até nós. Entre os período revoltos há sempre alguns de acalmaria. Eis a «Praia» de Filho da Mãe..

Estas canções são verdadeiros labirintos de sentimentos, que nos são transmitidos pelas cordas da guitarra de Rui Carvalho. É fácil imaginar um palco mergulhado na escuridão. No meio, e apenas com um foco de luz a incidir sobre si, está Filho da Mãe, só com a sua guitarra. Os olhos, esse estão semi-cerrados, quase fechados mesmo. Podia começar nestes termos «Não me voltes atrás». A oscilação entre um registo ora grave, ora agudo, traz conforto, Uma conversação de tons que nos embala e aquece em dias de Primavera em que o Sol teima em não aparecer.

«Os meus ombros chumbaram a geografia» mas os dedos não. Levam-nos a viajar. Os primeiros passos parecem dados com cautela, como que a procurar a orientação mas isso rapidamente se altera. A cautela dá lugar à vontade de descobrir e percorrer lugares e recantos. Segue-se «Nem chuva, nem cães». É um galope. É isso, do princípio ao fim. Desenfreadamente. E no final, ficar ofegante ou esbaforido, se preferirem, é simplesmente uma inevitabilidade que se aceita de bom agrado.

«Não, não danço». Pois, eu também não. Mas a verdade é que se fica aqui num vai, não vai, provocador e delicioso. Há palavras que nunca pensámos ver lado-a-lado, até ao momento em que nos surgem à nossa frente, conferindo-lhes uma existência única e sui generis. «Perseguição das bananas» é um desses casos e constrói-se em torno de um som grave e central que ganha força como que a lembrar um drone, com a guitarra a ladeá-lo e circundá-lo constantemente mas sem nunca invadir o seu espaço por completo.

«Camelos nas levadas » incorpora loops, o que conferem uma maior densidade e mais camadas à composição. «Poncha como o vento» é enebriante e frenética. Nunca se deve menosprezar a Natureza e «Marraram as ondas, partiu-se o pontão» parece isso mesmo, uma força da Natureza que se faz sentir a todo o momento, umas vezes mais forte do que outras.

«Casa». De início parece ruído branco. Depois vamos começando a descortinar um som à distância. Um chiar. Um cão que ladra. Passos. Estamos tão embrenhados a procurar descodificar o que estamos a escutar que nem nos apercebemos que não há guitarra aqui. Estamos numa casa. Podia ser a nossa.

Água-má é sinónimo para alforreca e estamos embrenhados nos tentáculos, todos eles diferentes entre si. Em comum apenas uma coisa. Deixam marcas se nos tocam. E estes queremos que nos toquem. Queremos sentirmo-nos envolvidos por eles. Acreditem.



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This