Filipe Melo – Entrevista

Filipe Melo

"Gostávamos que o nosso livro fosse o Charles Bronson da BD nacional"

Em 2010 falámos com Filipe Melo sobre um novo projecto de BD intitulado “As incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy”. Dog Mendonça, então um desconhecido, é hoje um nome estimado pelos leitores portugueses, cujas aventuras se aproximam do terceiro e último volume. Enquanto por cá preparamos uma despedida aos heróis, os norte-americanos apenas recentemente começaram a conhecê-lo através da edição do primeiro volume da série e, também, da prequela “The Untold Tales of Dog Mendonca & Pizzaboy”, editada pela “Dark Horse Comics”. Para falar desta nova aventura nas terras do Tio Sam, e também do volume final que se aproxima, a Rua de Baixo voltou à conversa com Filipe Melo.

Como surgiu a oportunidade de editar os trabalhos do “Dog Mendonça” na editora norte-americana “Dark Horse”?

Foi um golpe de sorte. Quando perguntei ao realizador John Landis se escreveria o prefácio do primeiro volume nunca pensei que fosse aceitar. Quando finalmente aconteceu, disse-me que ia mostrar o livro ao Mike Richardson, fundador da Dark Horse – pensei que o tivesse dito só por simpatia, mas pouco tempo depois recebi um email do próprio a perguntar se teria interesse em publicar com a Dark Horse. A resposta foi um “sim” sem hesitações. As nossas influências são editadas pela Dark Horse – o “Hellboy”, o “Dylan Dog”, o “Sin City”. Era irrecusável.

Existe algum plano para fazer uma edição portuguesa de “The Untold Tales of Dog Mendonca & Pizzaboy”?

Existe, mas só depois do terceiro volume estar concluído; estamos agora a dedicar toda a atenção ao último capítulo das nossas aventuras, para que não sejam uma bodega.

Como tem sido a recepção do “The Untold Tales of Dog Mendonca & Pizzaboy”, e do também já editado primeiro volume da série, no mercado norte-americano?

O “Untold Tales” esgotou! O que é uma óptima notícia, porque tivemos recentemente a informação de que vão editar o segundo volume do “Dog Mendonça” na Dark Horse, também. Como extra, vão incluir as “Untold Tales”. Vai ser um livro de 160 páginas. Um calhamaço.

Para quando o terceiro volume das aventuras de Dog Mendonça?

O Juan Cavia, desenhador oficial do “Dog”, está a trabalhar na direcção de arte de um filme, só pode começar a trabalhar em Março. O Santiago Villa (cor) e eu estamos à espera que ele acabe. Vamos tentar avançar o mais rápido que conseguirmos, gostávamos muito de concluir o livro no final de 2013 – mas o mais provável é acabar algures em 2087.

Tens dito que vais fechar a saga do Dog neste terceiro volume. A que se deve esta decisão, e tem a ver com o facto de estares a ficar sem adjectivos para descrever os títulos dos volumes (incríveis, extraordinárias)?

Ficou decidido que a saga do “Dog Mendonça” acaba por aqui. Serão três volumes no total. Esta decisão tem a ver com a necessidade de fechar um capítulo das nossas vidas e de pensar em coisas novas. Ainda tenho um par de ideias para histórias curtas que acho que poderiam funcionar, mas serão só três livros no total. Mais vale assim do que estar a fazer sequelas piores, como aconteceu com alguns clássicos que nos partiram o coração: Ghostbusters, Gremlins, Robocop, Tubarão…

E planos para o futuro (dentro ou fora da BD)?

O meu único plano de momento é acabar este maldito livro!

Se não estou em erro, o teu nicho não era o da BD, pois sempre estiveste mais associado à música e ao cinema. Desde que tens desenvolvido este projecto, o teu gosto pela BD aumentou? És hoje um maior leitor do género? E, se sim, quais os autores que mais aprecias?

Sim, mas como tenho pouco tempo no meio da correria dos concertos acabo por continuar a ler pouca BD – li recentemente o “Dylan Dog – Case Files” e pareceu-me das coisas mais geniais de todo o sempre. O Tiziano Sclavi é um génio indiscutível e tenho uma admiração profunda pelo trabalho dele. Gosto muito de “o Eternauta”, uma BD argentina mais antiga, marcou-me muito. Gosto do “Hellboy”, adorei o “Walking Dead”. Li o “Blankets” há pouco tempo e gostei muito.

Filipe Melo

No Festival “Amadora BD” apresentaste um jogo de vídeo do Dog Mendonça, podes revelar-nos um pouco do que se trata?

É um jogo de point-and-click, tipo “Monkey Island”. Está em fase de desenvolvimento mas, como não estou eu a tratar da produção, não estou muito por dentro do assunto. Os meus amigos e colegas Juan Cavia e Santiago Villa estão a trabalhar nisso no pouco tempo que têm mas, como estou completamente dedicado ao terceiro livro, só depois de o acabar poderei pensar nesse assunto.

Nos comics norte-americanos é comum determinadas personagens serem publicadas continuamente. Gostavas de ver o Dog Mendonça numa dessas situações, mesmo que pelas mãos de outros autores?

Um dos princípios que tenho é não criar qualquer tipo de expectativas em relação a nada. É claro que gostaria de ver mais aventuras do Dog Mendonça, mas dependeria sempre da autenticidade e da originalidade que os novos autores conseguissem entregar às personagens e à história.

“As extraordinárias aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy” venceram o ano passado o prémio de melhor álbum no festival “Amadora BD” e de melhor álbum e argumento nos “Troféus Central Comics”. Se no primeiro os prémios são escolhidos por um júri e no segundo a votação é pública, é caso para dizer que o Dog Mendonça conseguiu agradar tanto à crítica como ao público (é uma espécie de Johnny Depp da banda desenhada nacional). Como tens sentido esta recepção?

Creio que o importante é fazer o melhor que conseguimos, e tentar contar histórias significativas e honestas. A aceitação do público ou de um júri foi sempre uma consequência e nunca um objectivo, no nosso caso. Gostávamos que o nosso livro fosse o Charles Bronson da BD nacional, não o Johnny Depp!



Também poderás gostar


Pin It on Pinterest

Share This