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Filipe Melo

O músico/produtor/realizador é um dos autores de "As Incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy", livro publicado recentemente pela Tinta da China. Entrevista exclusiva.

Filipe Melo é realmente um homem de sete ofícios. Desde cedo se interessou pela música, particularmente pelo piano, tendo tocado já com vários músicos de renome, tais como Camané ou Jesse Davis, entre muitos outros.

Em 2003 fundou a produtora “O Pato Profissional”, a partir da qual se tem dedicado a vários projectos, entre os quais o primeiro filme de Zombies português “I’ll See You In My Dreams” (vencedor do Fantasporto 2004 e de mais 12 prémios internacionais) e a série de televisão “Um Mundo Catita”.

O seu último trabalho surge agora no campo da Banda Desenhada (BD). “As Incríveis Aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy” é um delicioso livro de aventuras que tem tudo para se tornar uma série contínua à semelhança de um “Hellboy” ou de um “Hellblazer”.

A Rua de Baixo esteve à conversa com o autor para conhecer um pouco melhor este novo projecto.

“As Incríveis aventuras de Dog Mendonça e Pizzaboy” foram originalmente planeadas para ser um filme. Como surgiu, ao invés, a ideia de o transformar numa BD?

Filipe Melo: A história avisou que queria ser uma BD. Houve possibilidades reais de fazer o filme, mas nenhuma era a ideal. Ao ver os desenhos do (Juan) Cavia percebi que uma novela gráfica era a melhor maneira de contar a aventura. Foi uma transição natural e não um plano B.

Uma capa negra sem desenhos não é uma capa comum em BD, porque foi esta escolha feita?

Essa foi a minha única divergência com a Bárbara Bulhosa, a mente brilhante da editora Tinta-da-China. Ela defendia que devia ter uma ilustração na capa. Eu achei que não, e argumentei que seria como uma caixa de surpresas: a capa devia sugerir o universo do livro, deixar clara a intenção do mesmo, sem ser óbvio o conteúdo. Foi semelhante à decisão de nunca utilizar o Manuel João Vieira no material promocional de “Um Mundo Catita”. No final, a editora fez-me a vontade, fiquei muito contente por isso; não foi a opção mais comercial, mas aquela que mais se aproximava ao que imaginámos.

Durante o lançamento e promoção do livro, Juan Cavia, Martin Tejada e Santiago Villa estiveram pela primeira vez em Portugal. No entanto sei que esta viagem não foi apenas para diversão e que estiveram a trabalhar na sequela, o que nos podes falar sobre isto?

Reuniu-se um grupo de amigos, todos com muita vontade de contar histórias, por isso é natural que tenhamos vontade de fazer mais projectos juntos. Formou-se uma unidade de combate; estivemos a trabalhar numa possível sequela para o comic. Tenho muita vontade que ela exista, mas tenho de conseguir reunir as condições práticas para a concretização. Consome muito tempo, dá imenso trabalho. Muitas vezes sinto que não tenho a mesma energia de antes, dos meus tempos de garoto.

Apesar de eu concordar que a BD foi o meio ideal para produzir este trabalho, ao lê-lo podemos sentir uma enorme paixão pelo Cinema. A história evoca atmosferas e o tipo de personagens dos grandes clássicos como, “As aventuras de Jack Burton Nas Garras do Mandarim”, “Indiana Jones” ou “Caça-Fantasmas”. Até o próprio título é uma homenagem a alguns deles. Podes falar um pouco sobre estas influências?

Foram filmes muito importantes para mim; estimularam a minha imaginação e deram-me energia e inspiração para inventar as minhas próprias histórias. São filmes muito carismáticos e que invadiram a mente de uma geração. Toda a gente os conhece e os viu muitas vezes, mas normalmente não os aceita como bons filmes. São uma espécie de série B de grande orçamento. O nosso livro é um humilde tributo a essa fase, em que se faziam muitos filmes de aventuras fantásticas de terror. É um sub-sub-género que adoro.

E como foi a sensação de ter o grande John Landis a escrever o prefácio?

O John Landis foi muito importante porque chegou numa altura em que estávamos sem editora, sem esperanças de que o projecto tivesse um final feliz. Fico muito grato à minha amiga Catarina Ramalho, ao João Monteiro e ao MOTELx por me terem convidado para jantar com o John Landis e com o Stuart Gordon. Estive a fazer milhares de perguntas aos dois, e aprendi mais sobre como fazer filmes num jantar do que em qualquer curso de cinema. O John Landis é um gigante: foi o criador de filmes que foram uma clara influência no nosso livro. O thriller meteu-me medo quando era pequeno, e foi por isso que fiz um filme de zombies. Conhecer o John Landis foi uma honra, uma verdadeira honra.

É verdade que o Nicolau Breyner poderia ter interpretado o papel de Dog Mendonça caso tivessem feito o filme?

Responderei em forma de poema:

Nicolau, Nicolau
és um actor de eleição
Terás sempre um lugar
algures no meu coração.

Após um álbum de Jazz, um filme sobre Zombies e uma série de TV surges com um livro de BD.  Podes falar sobre qual o caminho que pensas seguir no futuro?

Enquanto escrevo estas linhas estou em casa deprimido porque não sei o que hei-de fazer. Tenho falta de inspiração, estou profundamente cansado. É imprevisível para mim o que farei a seguir, e sinto que dificilmente terei energia para fazer algo bom. Possivelmente preciso de férias!

Qual é o teu personagem preferido na história?

Pergunta difícil. Gosto mais do pai ou da mãe?

Há intenções em publicar este livro também em Inglês e Espanhol?

Estamos a esforçar-nos muito para tentar conseguir uma editora internacional, mas não é nada fácil. Somos todos marginais no mundo dos comics, e estamos a aprender como tudo funciona. Porém, o nosso objectivo inicial era que o livro existisse e já existe. O nosso próximo objectivo é que chegue ao maior número de leitores possível. Vou esforçar-me para tentar encontrar ALGUÉM que pegue nisto para distribuir. Ainda por cima já está traduzido para Inglês e Espanhol….

Tu juntamente com o Juan Cavia, o Santiago Villa e o Martin Tejada têm estado a promover o livro em vários locais, no Fantasporto, nas Fnacs mas também na famosa Tertúlia de BD de Lisboa organizada ao longo de vários anos por Geraldes Lino. Como foi a experiência?

A tertúlia organizada pelo Geraldes Lino foi, sem dúvida, a recepção mais calorosa e especial que tivemos na promoção do livro. O amor e a dedicação do Geraldes a esta forma de arte é uma inspiração, e ganhei um amigo para a vida. Infelizmente, não posso ir à Tertúlia todas as semanas porque tenho de dar aulas (sim, eu não vivo disto!), mas se pudesse estaria lá sempre.

A parte divertida de promover um comic é conhecer as pessoas que gostam das mesmas coisas que nós, e temos conhecido boa gente. É um prazer viajar para mostrar o nosso trabalho às pessoas. Só tinha tido essa experiência com a música…

Até à data como tem sido a recepção por parte do público e da crítica?

Temos sido acarinhados, e eu agradeço muito a todos os que nos ajudaram a promover esta BD. De facto, mesmo as pessoas que não são apreciadoras de Comics perceberam que fizemos isto com muito esforço e sacrifício pessoal, e esse amor de alguma forma fica claro para quem lê. É, embora tenha uma óptima editora, uma produção completamente independente. Cada exemplar vendido faz uma grande diferença. Ficamos muito contentes por saber que os gigantes da BD em Portugal – promotores, artistas e escritores – gostam do nosso livro. É, no fundo, a única recompensa real que temos e é o que nos dá energia para voltar a fazer coisas. Uma crítica negativa parte-nos o coração.

Para terminar, o que nos podes contar sobre a sequela, “Dog Mendonça & Pizzaboy – Apocalypse”?

Eu tenho medo de falar sobre coisas que ainda não existem, porque sou agoirento e acho que correrá tudo mal; o argumento está escrito e acho que é muito diferente do primeiro porque foi feito especificamente para BD – tudo é possível – e Portugal vai passar um mau bocado porque aproveitei para destruir uma série de coisas.

Uma coisa posso garantir. Será seguramente MUITO pior do que o primeiro!!!



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