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Filipe Raposo

"Uma surpresa para muitos, uma delícia para outros, as opiniões são unânimes: a calma e simpatia que Filipe Raposo demonstra pessoalmente são totalmente visíveis no seu trabalho."

Uma das definições para a palavra música é a de que esta se trata de uma organização de sons com determinadas intenções estéticas, artísticas ou lúdicas, que variam conforme o autor, a zona geográfica e a época em que se vive. Para se aprender a compreender e fazer música, temos que escutar os antepassados eruditos, e com eles apreender o que a música tem para nos oferecer e vice-versa. Sem olharmos para o passado, não conseguiríamos instituir a música, tal como a vemos hoje.

Nascido e criado em Lisboa, Filipe Raposo é um jovem compositor e pianista Português cujo talento começa a ser reconhecido tanto cá como além-fronteiras. Começou a ter aulas de piano no Conservatório de Música de Lisboa desde tenra idade. Seguiu academicamente o curso de composição musical na Escola Superior de Música de Lisboa e ainda estudou música improvisada com pianistas como João Paulo Esteves da Silva, Jans Thomas, entre outros nomes sonantes, mas “a música acompanha-me desde que ainda estava dentro da barriga da minha mãe. Ela cantava num coro e sempre gostei muito de a ouvir cantar”, conta-nos.

O trabalho musical de Filipe Raposo divide-se em várias vertentes. Tendo em conta que nenhum artista é completo e perfeito por natureza, Filipe Raposo pode-o ser, por defeito. O seu percurso musical envolve diversos mestres, estilos e aprendizagens que fazem saltar o seu nome para uma pirâmide sem vértices e sem topo, onde todos os contribuintes coabitam num patamar único. Teve o privilégio de compor arranjos musicais para importantes compositores como José Mário Branco, Sérgio Godinho, Vitorino e Janita Salomé. No fado, canção sentimental portuguesa e que agora parece ter o mundo a seus pés, acompanhou os trabalhos de Ana Moura e Joana Amendoeira. Colocou em prática aquilo que aprendeu nos seus estudos de Jazz ao compor e interpretar temas com novos nomes da cena como Yuri Daniel e o projecto Tora Tora Big Band. Na música tradicional portuguesa já teve o enorme prazer de trabalhar com Vitorino e Janita Salomé, e nota-se que tem por ela amor, mas que também admira o património linguístico que os nossos antepassados foram fabricando para preservarmos: “São coisas que estão nos nossos genes há milhares de gerações e que poucos têm o prazer de sentir e de dar o merecido reconhecimento”. Para a Cinemateca desenvolve um trabalho bastante interessante. Há algum tempo foi convidado para acompanhar musicalmente um ciclo de cinema de filmes mudos que foi um sucesso. Por vezes, regressa à programação da Cinemateca Júnior com a mesma missão, mas sendo o público-alvo diferente, torna este “um trabalho ainda mais divertido. Até agora nenhuma criança me deu um pontapé (risos), mas questionam-me sempre como é que eu consigo tocar às escuras”.

Filipe Raposo

Para além deste caminho e de já ter deixado marcas vincadas em festivais internacionais, Filipe Raposo está novamente no mercado musical com o seu trio onde lidera. Este trio acaba por se transformar em dois, pois alterna o jogo musical com Yuri Daniel ou Carlos Bica (contrabaixo) e Carlos Miguel ou Vicky (bateria).

No mês de Novembro, o objecto – álbum – que regista e nos deixa escutar todas as criações foi lançado no mercado discográfico sob a chancela da editora Orfeu e com o título “First Falls”.

Estas primeiras chuvas caem sob motivo das suas influências musicais e também culturais. A música tradicional búlgara e portuguesa são visíveis nos temas «Sadie Donka», «As guerras se apregoaram» que remete para a música algarvia e «En tu puerta» que segue a linhagem transmontana. Também não foram esquecidos J. S. Bach e F. Schubert que desde sempre acompanham o reportório do compositor: “A música tradicional transforma-se num pilar onde o restante vai assentar. “Nas minhas composições revisito e transformo o que é tradicional e a erudição é a ponte que liga o passado e o presente. Das minhas origens às novas linguagens contemporâneas”. O tempo acaba também por ser um dos elementos simbólicos e importantes no álbum – melodias cujos compassos foram alargados e associadas às imagens cinematográficas de Tarkovsky e também de Kubrick, fazem com que a nossa atenção fique focada em imagens mentais e coloque os nossos sentidos à flor da pele.

Este trabalho é composto por doze temas de composição e arranjos feitos pelo próprio músico e foi gravado no histórico estúdio Namouche. Para além dos músicos mencionados anteriormente, contou também com a participação de Lars Arens, Hugo Fernandes e João Ferro. No interior do álbum é possível compreender a parte poética de um álbum que é inteiramente instrumental. Cada canção remete para textos de Amélia Muge, José Mário Branco, Virginia Woolf e do próprio compositor.

Uma surpresa para muitos, uma delícia para outros, as opiniões são unânimes: a calma e simpatia que demonstra pessoalmente são totalmente visíveis no seu trabalho. Filipe Raposo desvenda que “a música serve para mim como um espaço onde eu posso habitar. Este disco é um meio de comunicação entre o meu espaço interior com o espaço exterior.” Sendo que a aprendizagem e a valorização do que fazemos passa por olhar o passado, como já foi referido, de facto, o título do livro de Stephen Hawking – “On The Shoulders of Giants” – faz todo o sentido. Tal como “First Falls” é uma metáfora aos sentidos explorados, às linguagens e ao tempo que se escuta em cada compasso, estar nos “ombros dos gigantes” equivale à metáfora perfeita daqueles que, tal como Filipe Raposo, desenvolvem actividades intelectuais, através da compreensão, da pesquisa e de trabalhos criados por pensadores notáveis do passado.

Para quem ficou curioso e interessado em escutar este novo trabalho de Filipe Raposo, pode (e deve) passar pela Culturgest em Lisboa, no dia 14 de Janeiro, onde será feita a apresentação do álbum. Se não puderem, passem pelo Teatro D. Maria II e vejam a peça “Quem tem medo de Virginia Wolf” cuja banda-sonora e sonoplastia foi feita pelo próprio.

“Devemos ser a mudança que queremos ver no mundo”, disse Ghandi. Assim sendo, a música de Filipe Raposo pode fazer essa mudança na nossa vida durante uns minutos. É só fecharmos os olhos e deixar que a nossa mente vagueie e coabite num espaço onde todos somos livres.

Fotografia por Joana Cardoso.



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