Fim de Semana no Maxime

Quinteto Tati e Ena Pá 2000.

No passado fim-de-semana o Cabaret Maxime inaugurou com uma jornada dupla a sua temporada musical, perfilando-se como uma alternativa bastante credível na noite lisboeta. Os anfitriões do primeiro dia foi o colectivo de JP Simões, o Quinteto Tati; e, no dia seguinte, subiu ao palco Manuel João Vieira e os seus Ena Pá 2000.

Normalmente, uma reportagem destas faz-se à base da música. No entanto, este texto não pode começar sem umas considerações acerca do Maxime, que merecem todo o parágrafo seguinte.

O renovado Cabaret Maxime, situado em plena Praça da Alegria, destaca-se das demais salas de espectáculos alfacinhas pela sua atmosfera peculiar. É que é difícil haver espaço com mais carisma do que o Maxime, com a sua porta giratória, a alcatifa vermelha, o glamour dos seus candeeiros ou o seu Mestre dde Cerimónias burlesco. Além disso, em que outro sítio temos a possibilidade de escutar uma selecção musical que cruza êxitos funk dos anos 70 com o mestre José Cid? Só é pena que a lista de preços da casa não convide a noites mais acessíveis.

Dia 27 – Quinteto Tati
Suor e fantasia (quase) toda a noite

Depois do êxito do álbum de estreia “Exílio” – aclamado como um dos melhores discos de 2004 –, o Quinteto Tati voltava a apresentar-se ao vivo. No entanto, se alguém esperava ouvir temas idéditos de um possível álbum novo (ou até mesmo um adiantamento do anunciado álbum a solo de JP imões, “Canções Do Jovem Solteiro”), saiu do concerto com as expectativas goradas.

A música do Quinteto Tati faz uso da palavra, sempre em língua portuguesa (com a excepção de «No Jazz») e, geralmente, regulada pela ironia (como quando JP Simões dedicou «Rumba dos Inadaptados» ao recém-eleito Presidente da República); são pequenos poemas musicados por um universo que gravita à volta da valsa, da rumba ou até do fado, mas essencialmente do jazz. JP Simões é uma espécie de cruzamento entre Nick Cave e Max Decharne, sempre numa pose a remeter para Serge Gainsbourg (onde nem sequer faltam os cigarros em catadupa): não só é a voz deste projecto, como é em simultâneo a sua alma e coração.

O concerto fez-se com o reportório de “Exílio”, dividido em duas partes e só se desviou por duas vezes, para entrar no território das versões: ainda na primeira parte com «Gota D’Água», um original de Chico Buarque; e já no final, com o clássico «Rose Marie». Por isso, quando o público pediu o regresso a palco da banda nortenha, o encore fez-se com a repetição dos melhores momentos da noite, nomeadamente «Suor E Frantasia»; e aqui, o refrão atraiçoou JP Simões: porque apesar do concerto ter sido muito mais do que só suor e fantasia, infelizmente não foi a noite toda.

Dia 28 – Ena Pá 2000
Cabaret de emoções

Quem, também, faz uso da palavra e da língua portuguesa como ninguém são os Ena Pá 2000. No entanto, fazem-no de maneira bem diferente da do Quinteto Tati: de forma escorreita, directa e sem tabus.

Os Ena Pá 2000 subiram ao palco do Maxime na noite seguinte para completar este primeiro fim-de-semana musical do cabaret lisboeta. Era o regresso de Manuel João Vieira aos palcos do Maxime, depois de ter liderado os Irmãos Catita no espectáculo de variedades que marcou o passado reveillon.

Normalmente, os Ena Pá 2000 não são levados a sério pela maioria das pessoas. No entanto, isso é um erro crasso. E o facto da banda já contar com a bonita idade de 20 anos de carreira não é um facto alheio. Por isso, há que os tomar em consideração; mesmo que a banda surja em palco com cabeleiras compradas numa qualquer “loja chinesa” ou que tenha temas com títulos como «Masturbação» ou «Bobó Bem Bom».

Com uma casa bem composta e um público com as letras na ponta da língua, o colectivo de Manuel João Vieira encheu o palco, com bailarinas sofisticadas, uma secção de metais, um saxofone virtuoso e claro… Phil Mendrix, o maior guitarrista de Portugal.

Com um reportório assente nos grandes clássicos, mas que percorreu as duas décadas de carreira, desde o debutante “Enapália” até “A Luta Continua”, os Ena Pá 2000 iniciaram o concerto com o rockabilly de «Alice» (dedicado a Júlio Isidro), desenrolando o seu catálogo musical pelo blues de «Paneleiro» (com direito a degladiação entre a harmónica de Chiquito Texas Jack e a guitarra eléctrica de Phil Mendrix), o funk de «Vida De Cão» ou o rock de «És Cruel».

O público acompanhou constantemente Manuel João Vieira nos refrões das músicas e aproveitava os intervalos para os incentivos e as palavras de ordem ao “candidato Vieira”. No entanto, o grande vencedor no campeonato das ovações foi Phil Mendrix, sempre que se chegava à frente para iniciar mais um dos seus sónicos solos. E percebia-se porquê.

Um concerto dos Ena Pá 2000 é como um episódio da série animada South Park: vale tudo e desculpa-se qualquer coisa, sejam os pregos de Manuel João Vieira na guitarra ou a falta de som no saxofone. Porque o humor é corrosivo e pertinente, a música é inimiga da letargia e o concerto é um convite à festa pela noite dentro.



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