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Fimfa LX 2018

O universo internacional da Marioneta viaja mais uma vez até Lisboa

Este ano o Festival Internacional de Marionetas e Formas Animadas atinge a maioridade. Conversando com Rute Ribeiro e Luís Vieira a primeira sensação que foi transmitida foi de “estranheza”. Dezoito anos passaram e parece que ainda foi ontem que começaram. A verdade é que com o passar do tempo a responsabilidade na produção deste festival vai sempre acrescendo. Afinal como Luís reforçou: “ o público do Fimfa é um público muito atento e exigente”. O que começou por ser uma ideia a germinar quando estavam a participar num festival internacional de marionetas no Paquistão, desenvolveu-se e precipitou-se na construção de um festival que conta já com dezoito anos de vida. Muitas histórias, companhias de teatro internacionais e diferentes sensações foram experimentadas e provocadas em distintos palcos de Lisboa ao longo destas quase duas décadas. Para os directores do festival é um privilégio poder partilhar projectos internacionais em Portugal, e potenciar um cruzamento de linguagens artísticas, culturais e políticas.

“Num mundo em que cada vez mais há mais muros, o universo da marioneta é um universo sem fronteiras: nacionais ou artísticas.” – Luís Vieira.

Como espectáculo de abertura do festival de 3 a 5 de maio, temos BIRDIE – dos espanhóis Agrupación Señor Serrano, que propõe uma abordagem original ao filme “Os Pássaros” de Hitchcock, propondo questões como o absurdo das fronteiras, o capitalismo, e as migrações. Um espetáculo multimédia com vídeo em direto, objetos, maquetes, 2000 animais em miniatura, e três artistas que lidam com este mundo complexo e desalinhado, com humor, sentido crítico e em compromisso com o ser humano.

A multiplicidade de artes do Fimfa conta com uma visão contemporânea e adaptada à realidade que vivemos, proporcionando uma atmosfera de reinvenção da arte da Marioneta. Como por exemplo veremos em OPEN THE OWLRenaud Herbin & Ljubljana Puppet Theatre vindos de França e Eslovénia, onde a apropriação de um clássico dá origem a pontos de vista multiplicados, cruzando a tradição à linguagem contemporânea .

Já o espectáculo ZVIZDAL [Chernobyl – so far so close] da companhia belga Berlim que estará em cena 10 e 11 de maio no Teatro Maria de Matos , retrata uma questão histórica documentada em vídeo, em paralelo à manipulação de três maquetas. Baseado numa história real, conta a história de um casal que decidira ficar em Chernobyl, “remetendo-nos para esse tempo, esse lugar e para a memória desse lugar” – Luís Vieira.

“Como se envelhece nesta situação? Como vive e sobrevive uma relação de amor neste isolamento?” – Rute Ribeiro. Estas e outras perguntas serão levantadas.

Do campo experimental apresenta-se Ali Moini, artista multidisciplinar nascido em 1974 no Irão, que em MAN ANAM KE ROSTAM BOVAD PAHLAVAN (em cena 15 e 16 de maio no Maria de Matos) pegou num provérbio antigo iraniano que traduzido significa “Herdei a minha glória por Rostam”, e explora a usurpação do poder do outro. Ali estará preso por vários cabos a uma marioneta que tem a dimensão real de um ser humano. Os gestos de Ali serão replicados pela marioneta. Num jogo entre pressão e força, surgirão dúvidas pelo caminho: quem comanda quem? Este espectáculo será enriquecido pela banda sonora de Sarah Bigdeli Shamloo & Nima Aghiani (9T Antiope), uma dupla de artistas iranianas.

Em MONKEYS, o israelita Amit Drori , constrói o que podem ser denominados robots com alma.

“Foram necessários cinco anos de trabalho para o desenvolvimento destas marionetas cheias de tecnologia, a meio caminho entre o homem e máquina. Para o encenador israelita, construir um mundo mecânico e artificial é uma maneira de questionar os limites da vida.” – Tarumba

Este espectáculo acabado de estrear, leva-nos a reflectir sobre o poder das máquinas, e quão mais poderosas serão elas do que nós? Instiga também a reflectir sobre a Arte, enquanto ferramenta de construção de pensamento crítico na sociedade, e a tomada de consciencia do seu papel urgente na construção de um futuro melhor.

Da companhia L’Insolite Mécanique estará em palco JE BRASSE DE L’AIR de 11 a 13 de maio no São Luiz, Magali Rousseau conduz-nos numa versão poética, ritualizada e imersiva ao sonho da sua infância: o desejo de voar. A artista convida-nos ao seu atelier onde as engrenagens estão expostas, e a emoção da criação ainda é palpável e forte. Para além de uma experiência muito interessante para o público de ver “por dentro” será uma oportunidade para dar tempo. Este espectáculo necessita de espaço para ser.

LA VALSE DES HOMMELETTES, de França já esteve há alguns anos em Lisboa e realizam uma proposta do singular criador americano Patrick Sims, que se inspirou nos contos dos irmãos Grimm, para nos transportar para um universo fabuloso, situado entre Alice no País das Maravilhas e um gabinete de curiosidades.

Em PLASTIC HEROES, o israelita Ariel Doron transporta-nos para um campo de batalha miniatura construído numa mesa. Um espectáculo hilariante, que provocará ambivalência de sensação entre o riso e angústia, reflectindo sobre a dura e crua realidade que se observa e vivendo contexto de guerra. “Numa zona de combate sem inimigo claro ou objetivo preciso, a fronteira entre a realidade e o sonho torna-se cada vez mais nebulosa: isto está realmente a acontecer ou é apenas um jogo?” Ariel Doron

A companhia americana Manual Cinema fecham o festival de 18 a 20 de Maio no São Luiz, e completam um ciclo fazendo a ponte com o espectáculo do inicio – em Ada/Ava partilham também inspirações de um filme de Hitchcock onde exploram o tema da solidão e questões identitárias, através da história de duas irmãs gémeas que construíram tudo juntas e que a vida separa.

Um festival responsável, consciente, sedento por levantar questões e criar espírito crítico no público, onde os temas sugeridos são as preocupações do quotidiano dos artistas contemporâneos,  que “urgem sair à rua” e instalarem-se também no coração do espetador, de modo a promover possibilidades de cambios positivos.

“A marioneta é um instrumento fabuloso para criar pontes entre culturas. É uma actividade híbrida: que une corpo, objecto e imagem.” – Luís Vieira

Paralelamente à programação principal, decorrem ainda várias atividades complementares nesta edição do FIMFA: uma masterclass sobre o espetáculo de abertura, Birdie; um workshop de Teatro de objetos com a especialista belga Agnès Limbos; e ainda o workshop Force & Pressure, dinamizado pelo iraniano Ali Moini. Na Cinemateca, será exibido o filme Queres ser John Malkovich?.



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