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“Como financiar o cinema português?”

No terceiro debate na Baixa-Chiado PT Bluestation, o realizador Sérgio Graciano e o director do IndieLisboa, Miguel Valverde, discutiram o financiamento do cinema português

“Como financiar o cinema português?” foi a terceira pergunta desta série de debates Rua de Baixo/Baixa-Chiado PT Bluestation que, mais uma vez, levou à estação João Lameira e dois convidados do mundo do cinema português: Sérgio Graciano, realizador de telenovelas e séries de televisão premiadas, e de “Assim Assim” (o seu primeiro filme, que teve um grande impacto pela forma como foi auto-financiado e envolveu inúmeros actores conhecidos do grande público) e Miguel Valverde, um dos diretores do IndieLisboa, um dos principais festivais de cinema do País, e um dos mais conceituados festivais portugueses a nível internacional.

A pergunta deste debate tentou responder à questão do finaciamento do cinema português, seja nas suas formas tradicionais (apoios estatais do ICA, lei do mecenato e envolvimento do investimento privado), seja em novas formas que envolvam o público (por exemplo, através de crowdfunding). Mais uma vez, o debate teve início com a projeção de alguns excertos que exemplificavam as posições dos intervenientes. Assistimos a algumas cenas de “Assim Assim”, de Sérgio Graciano e de “Arena”, de João Salaviza, sempre comentadas pelos dois convidados, que assim iniciaram o debate moderado por João Lameira.

Miguel Valverde, que apresentou o trabalho de João Salaviza como exemplo de um novo valor, reconhecido, e que tem sido apoiado pelo ICA, na sua curta carreira. Falou-nos de como o realizador poderia ter feito “Arena” (Palma de Ouro no Festival de Cannes em 2009) sem apoios, mas de como não teria tido a oportunidade de desenvolver o projecto como o fez (com a presença antecipada, no local da filmagem, do director de fotografia e do protagonista – que durante um mês se integrou no bairro social que sustentava o guião do filme). A sua curta-metragem seguinte – “Rafa” (foi Urso de Ouro no Festival de Berlim em 2012) – teve ainda mais financiamento, apesar de ter sido praticamente filmada em espaços públicos. Miguel Valverde usou este exemplo para questionar se os projectos subsidiados deveriam ter sempre o mesmo montante de apoio, não importando o tamanho do elenco ou as suas características técnicas, ou se deveriam estar mais adaptados à sua produção específica.

Miguel Valverde, que já foi júri do ICA, contou como alguns projectos apresentados a concurso acabam por ser muito alterados no processo de produção, dando o exemplo de um projecto que teve de avaliar e que consistia numa comédia bastante arrojada para o panorama do cinema português e como depois, ao assistir ao filme, constatou que muitas das personagens e de cenas do guião original tinham desaparecido. Nisso, o ICA não consegue ser responsável pelo seguimento que muitos projectos têm.

Para Miguel Valverde, o financiamento estatal é um investimento na cultura e na identidade do País e, nesta perspectiva, os cortes na cultura são tão importantes como os cortes nas áreas da saúde ou da educação. Todos deveríamos ser habituados ao acesso à cultura. Como temos aulas de desenho nas escolas ao longo de anos, porque não de cinema ou teatro? O cinema de animação português tem uma grande qualidade, mas as escolas não têm acesso aos filmes que são feitos. A habituação também teria outro efeito quando a cultura continua a ser vista como algo secundário.

Sobre fenómenos como “Morangos com Açucar”, Miguel Valverde tem receio que esse tipo de filmes só funcione por ser uma fórmula feita, e não criadora nem continuadora de públicos. O público tem encontros e desencontros com o cinema, como nos anos 80, em que havia imensos espectadores para os filmes portugueses.

“Deveria haver mais proteccionismo para o nosso cinema. Os filmes que começam a aparecer nos distribuidores mundiais, primeiro são sucessos internos nos seus próprios países. Uma quota obrigatória poderia ajudar. Os festivais têm, nisso, um papel mais importante do que parece. Criam públicos para o futuro, que vão aos festivais pelo evento em si, mas que podem depois voltar pelos filmes. Vão ver os filmes portugueses”, concluiu.

Sérgio Graciano apresentou o seu filme “Assim Assim”, explicando a forma que encontrou para a sua produção e de como este foi um filme auto-financiado através de fundos que o realizador juntou através dos seus múltiplos trabalhos em televisão. Neste seu investimento pessoal foram incluídos os seus próprios contactos pessoais com técnicos e actores, revelando que o mais difícil tinha sido conciliar as agendas de todos os envolvidos. Apesar do baixo orçamento, Sérgio insistiu que o mais importante é ter boas ideias. “Se tens uma boa ideia, tens de a fazer, a todo o custo”.

Apesar de já ter concorrido a apoios do ICA, Sérgio Graciano é da opinião de que o futuro está mais nos financiamentos de empresas, que têm de ser convencidas que o seu investimento tem retorno. É possível fazer filmes que tenham retorno e nisso o factor “público” deve ser mais ponderado. Desabafou que lhe custa ver filmes em que o filmado não tenha nada a ver com o guião que foi apresentado a concurso. Sobre os diferentes géneros de cinema em Portugal, e a sua relação com o público, e acesso a financiamento, Sérgio Graciano não vê o cinema dividido por géneros. O que faz falta, disse, são pessoas que gostem de ver e fazer cinema. Há pessoas que fazem cinema só porque estão habituadas a isso, como profissão, e depois há outras que fazem cinema, tenham ou não dinheiro.

“Eu descobri o meu modelo de produção. Há espaço para tudo”. Aqui contou a história, quando era estudante, de como todos os filmes do seu videoclube, onde ia todos os dias, tinham um papel com o género do filme escrito e, nos filmes portugueses, o género era: “filme português”. “Se nós queremos que o cinema português cresça, temos de fazer mais coisas e de não ter tantos conflitos entre nós. Há espaço para todos e não convém matar nenhum projecto à nascença”.

Sobre os subsídios, Sérgio Graciano acha que há filmes, que pela forma como estão escritos, já são filmes para ganhar subsídios. Não põe de lado a hipótese de pedir subsídios para os seus filmes. Mas também não pensa em deixar de fazer filmes por causa da falta de subsídios.

Para concluir, Sérgio Graciano falou da falta de cuidado na promoção dos filmes. “Deveria haver mais preocupação em como fazer o filme chegar às pessoas. A relação dos portugueses com o seu cinema já existiu e temos de a recuperar. Por exemplo, através de filmes para adolescentes, que é um público esquecido mas que enche as salas para ver “Morangos com Açúcar” ou “Uma Aventura”. Sobretudo, temos de acreditar no futuro. Os mais velhos revelam um sentimento de medo para com os mais novos. Deixem os miúdos filmar. Agora é mais fácil fazer uma curta-metragem, com as novas formas tecnológicas. Há muita gente a querer filmar, mas poucas oportunidades. É difícil filmar se não conheceres as pessoas, os técnicos e os actores. Se não lhes abrirem portas, acabam por desisitir daquilo em que se formaram. Durante 20 anos Portugal esteve a dormir em relação à cultura. Houve uma geração meio adormecida. Agora é mais fácil, não por ter havido mais investimento, mas porque é mais fácil hoje gravar um CD ou filmar um filme. Tem de haver espaço para esta gente”, afirmou.

O debate terminou com João Lameira a fazer uma pergunta única aos dois convidados: Como é que vês o futuro do cinema português?

Sérgio Graciano:Não sei qual é o caminho”.

Miguel Valverde: “O cinema português é um cinema do qual nunca se deixa de falar. Todos os anos há vagas de cinemas de diferentes nacionalidades, mas o cinema português tem uma presença constante nos festivais internacionais há décadas”.



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