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Flaming Creatures de Jack Smith

Branco no branco: Pénis flácidos e seios gingantes.

Uma das injustas, mas pertinente, vantagens em ver “Flaming Creatures” (1963) de Jack Smith no conforto do lar consiste na possibilidade de se ajustar o contraste do televisor. Adultera-se a obra mas permite, além de dar um certo descanso aos olhos, obter uma melhor definição da acção e do contorno dos corpos. Há excesso de branco impressionista, uma luz interminável ao longo de quarenta e cinco minutos que cria uma sensação de despertar contínuo. Temos de forçar a vista, dá sono – o que não é necessariamente mau. Efeito que advém de Jack Smith ter usado película fora do prazo de validade e de ter filmado num dia de Verão num telhado em Greenwich Village. Ao contrário, o anterior “Scotch Tape” (1961) parte de um contraste saturado de preto e branco para alguma ocorrência de cor e planos a cores.

A obra fílmica de Jack Smith caracteriza-se por uma deficiente, mas deliberada, capacidade técnica, tanto de registo de câmara à mão, como na sua montagem aleatória. Uma edição instantânea ao ponto de Smith agilmente colar pedaços de fita num número de filmes durante a sua projecção pública. Impulsionador duma libertação anárquica, despojada de narrativa, logo de género, de constrangimentos morais presentes na Hollywood dos anos cinquenta, mais do que na sociedade norte-americana. Contudo, ele vai beber na Hollywood a tendência do orientalismo, do kitsch e à televisão. Como se pode ver no falso anúncio publicitário ao batom em forma de coração, interpretado por actores de ambos os sexos, que o colocam em excesso, acompanhado por sons de beijos exagerados e a punchline “Does it come off when you’re sucking cock?”.

Estamos em 1963, anos depois de “Fireworks” (1947) e “Inauguration Of The Pleasure Dome” (1954), ambos de Kenneth Anger, que quebraram algumas barreiras morais – homossexualidade, drogas, excesso, hedonismo – e abririam portas anos mais tarde para a geração dos movie brats ou a popularização do cinema pornográfico. “Flaming Creatures” – tal como Jack Smith – deve algo a Anger e a muitos outros, mas aqui desbrava-se território virgem. Pénis flácidos e seios gingantes surgem em primeiro plano. Ocorre uma violação pouco agressiva, com falsos guinchos que se ouvem como banda sonora, num nível acima da imagem. Sexo oral surge naturalmente, como se fosse comum no cinema. Travestis, drag queens, vampiros, sereias, compõem o universo daquilo que Jack Smith designou como “Flaming Creatures” e que hoje são comummente referenciadas.

Em momento algum se fica húmido, nada é pornográfico, há sim o erotismo da intersexualidade, do andrógino, das ambivalências de género, das orgias (quem não gostaria de participar numa?). Apesar de poucas mulheres, há muito de feminino na caracterização – representada e cenográfica -, mas que obviamente não faz de “Flaming Creatures” um estandarte da homossexualidade. Antes impulsionou a libertação sexual dos anos 60 e sua representação no cinema underground, fazendo frente aos valores, preconceitos da decadência e promiscuidade da época. Todavia, afirma-se o glamour, as poses expressionistas muito ao jeito da Marlene Dietrich de Josef Von Sternberg numa estilização onírica quasi-surrealista referenciando Kenneth Anger e Maya Deren. Todos estes aspectos dionisíacos luzem à volta de uma infantilidade nuclear, tanto na pureza da forma como na abordagem sexual das criaturas.

Tudo isto ganha asas nas décadas seguintes. A candura onírica do branco torna-se resplandecente e eleva qualquer cor mais escura a um estado de rudeza, de sujidade. Sente-se o punk a emergir, a sordidez dos corpos e dos actos que Richard Kern filmou (em “Fingered”, por exemplo), ou o deboche kitsch, nojento para provocar vómito, de John Waters em “Pink Flamingos”. A mensagem também chega a muito do trabalho posterior de Andy Warhol e aos filmes de Paul Morrissey, e é evidente nalgumas fotografias de Nan Goldin.

Sem ter o carácter de uma obra limite, mas com o folcolore da sua proibição nos Estados Unidos – que até hoje se mantém – a ajudar no mito. É algo intermédio, numa altura em que se exigia a mudança que anos depois viria a acontecer, tanto pela linguagem ascética que terá lugar no cinema na década seguinte, como pela convenção arty-chic do cinema pornográfico nos 70s. O impulso chega-nos ainda hoje, de forma descontextualizada e vagamente perceptível nos trabalhos de Matthew Barney, por exemplo. Inesperadamente, pode-se dizer em favor da inerente inocência de “Flaming Creatures”, que foi uma obra importante para o salto que se deu no final dos anos 60 a nível de narrativa, linguagem e imagem na cultura popular. Fácil de prever na altura, talvez, mas mesmo assim impressionante dado o despojo de urgência e a naturalidade que as criaturas de Jack Smith vestem.



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