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FMM Sines 2010

O Mundo não pára de nos surpreender.

Sines voltou a saudar o Mundo com Música. De 28 a 31 de Julho, a 12ª edição do FMM – Festival de Músicas do Mundo tornou a fincar habitués e conquistou mais exércitos.

No Castelo Medieval, na Avenida Vasco da Gama (Praia), ou por toda a cidade que não pára de crescer, Sines está assim… a ‘mundificar-se’. Durante os quatro dias do Festival que começou pequenino/baratinho, os cenários habituais serviram os 26 espectáculos da casa, com música de e por todos os lados.            
                                                                    
Warm-up

A aquecer motores na quarta-feira, primeiro dia do festival, Janita Salomé e Vitorino, acompanhados pelo Grupo de Cantadores de Redondo, abriram as portas do Castelo.

No mesmo dia e palco, Las Rubias del Norte (nova-iorquinas, claro está) estrearam-se em terreno europeu com explicações latinas: perdidas, mas não esquecidas. Mas foi Céu, a doce brasileira, que neste dia nos iluminou a noite. Está percebida a crítica afirmativa às suas fusões de tradição/inovação, popular/electrónica, reggae/whatever, bem aclamadas no seu mais recente “Vagarosa”. Devagar se vai bem longe, ao som desta Céu.

Também em estreia, mas nacional, os peruanos Novalima acabaram com o início do festival, junto à praia e todos ao molho. Novos com menos novos, tradição com dança, África com Perú – começava realmente a cheirar a Festa.

E continuou

Ao segundo dia de FMM as ruas de Sines já ameaçavam compor-se. Adivinhamos como vão estar mais tarde. Não queremos calcular como estarão dois dias depois.

Yasmin Levy veio from Israel to Sines with Love. Esta senhora-diva é qualquer coisa. Não é Fado, não fez bandas sonoras para Almodôvar, não é a versão-macho de Prince, não é uma contadora de crónicas. Mas é isso tudo embrulhado em ladino, encontro judaico-espanhol e flamenco, num vozeirão vestido de negro, pouco movimento e muita pinta. No mínimo, Yasmin Levy e os seus músicos vieram do Médio Oriente para acertar em cheio no coração do Mundo. “Sentir” é o álbum filho de 2009 e, nas entranhas do Castelo, não podia ter sido mais sentido.

A encerrar a fortaleza na quinta-feira estiveram os britânicos The Mekons. Ainda cheiram a Punk, mas são bem mais que isso, e há já 35 anos que lhe misturam Rock e Country e recorrem a instrumentos como o acordeão, o saz ou o cumbush, para justificar a boa fama que têm na música popular e ao vivo.
Lá em baixo, pela primeira vez em Portugal, a praia já aguardava a aparição do Grupo Fantasma. Às três da manhã, no sítio do costume, dez fantasmas, doze instrumentos e muitas vozes vieram do Texas para revolucionar a música latina e baralhar o groove com jazz, funk e rock psicadélico. Enchente mediana a confinar o segundo dia.

Mais (mas não) do mesmo

No terceiro dia do festival já se esperavam (mais) surpresas. A primeira e a maior delas, The Rodeo, chegou pela voz e guitarra da exótica francesa Dorothée. “Music Maelstrom” foi o disco que em 2010 causou a todos pasmo e que, enlaçado em tradição musical norte-americana, se viu reinventado pela melhor intérprete que a música folk poderia ter: a própria.

Sobe e desce, lufa-lufa, tudo em busca de abalos sonoros marcantes. O próximo destaque da programação, e a nossa expectativa, vinha do deserto e havia de ir ao Castelo. Com mais música pelo meio, os Tinariwen encurralaram os portões do Forte, habituados que estão a nós e ao sucesso (“Imidiwan” foi melhor disco de 2009 para a revista Uncut), com rock e blues do Sahara. É possível.

Pela primeira vez em território nacional, a praia de Sines apresentou Forro In The Dark. São brasileiros, vivem em Nova Iorque, e o resultado só podia ser um: Forró. A Zabumba, as vozes, e outros instrumentos mais soletráveis, fizeram do funk, do rock e do dub géneros inseparáveis da batucada que se dança à beira-mar e vem conspurcada por deliciosas estrelas à alentejana.

Bailarico é o que se quer pela noite adentro. Vai daí o trio de DJ’s portugueses Bailarico Sofisticado convidou Selecta Alice e continuou nesse mesmo espírito. Ecletismo que mistura em sets a electrónica electrizante com raízes populares e faz lembrar o mundo todo. O arraial estava condenado a acabar assim, com o prenúncio da despedida.

Adeus camaradas

Chegado o último dia de FMM, o cansaço só parecia escarrapachar-se nos corpos de muito poucos. Para aproveitar bem o fim, o público resolveu duplicar-se e, num castelo até aí quase lotado, o ‘quase’ veio mesmo a cair.

Cheik Tidiane Seck e Mamani Keita vieram do Mali para arrebatar expectativas. É isto que se procura em Sines: bons sobressaltos vindos de certo lugar incerto. Estes viajaram desde África e fizeram saltar; muito. Cheik, teclista, cantor e guitarrista, convidou a poderosa voz de Mamani para atear o verdadeiro princípio do fim. A fusão foi incrível e os elementos da banda uniram cada ritmo, cada timbre, cada instrumento, para assistirem em palco à euforia das perto de 9 mil pessoas que transbordavam no Castelo de Sines. Cultura afro-americana, jazz, soul, rock e hip-hop; a solo ou em equipa; só vistos, ouvidos, dançados e sob delírio.

Mas um bem nunca vem só e, na despedida ao Castelo, os congoleses Staff Benda Bilili continuaram a dar azo ao devaneio do público apertado. O grupo é formado por músicos de rua, todos deficientes motores, e manifestou pelos seus acordes, em estreia nacional, porque foi considerado uma das maiores revelações actuais da música africana. “Très Très Fort” foi o disco apresentado, data de 2009, e é isso mesmo, em qualquer língua. Coisa boa, gente maravilhosa.

O desfecho-fogo-de-artifício no Castelo está para Sines como a «Carvalhesa» está para o Avante. E nós, cada vez mais perto do fim, lágrima no (en)canto do olho, aí fomos rampa abaixo, a caminho do ‘não-apetecido’.

Descemos até à Jamaica, país escolhido pelo reggae e representado pelo seu modelo máximo: U-Roy. Depois da prestação do afamado Lee Scratch Perry, na edição do ano passado, a prova era pesada para U-Roy, mas ele conseguiu superá-la. O toasting é o seu je ne sais quoi e Bob Marley foi um dos seus (re)visitados.

Portugal e Angola juntaram cacos e a Batida espalhou-os pela avenida litoral. No encerramento do FMM houve mais do melhor, com direito a vídeo, luzes, MC’s, bailarinos e muita pancada física (sem aleijar). Houve quem saltasse para o palco, quem não saísse de lá, e quem gostasse de ter saltado. Mas houve, sobretudo, quem verdadeiramente dançasse à batida do Kuduro, funk e electrónica imparáveis que o projecto Rádio Fazuma começou por ver nascer.         
                                                                               
De mão-cheia de iniciativas paralelas aos concertos (exposições, cinema, encontros com escritores, feiras, ateliês e teatro) e apesar dos golpes no orçamento do festival, com direito às consequentes limitações, o FMM Sines consagrou-se em mais uma edição com um acréscimo de público (9 mil no Sábado, no Castelo, e 15 mil na praia, na mesma noite) e um aumento de euforia ao longo de quatro faustosos dias festivaleiros.

O Mundo não pára de nos surpreender, e Sines vai ajudando a mostrá-lo.

Fotografia por Mário Pires / CMSines



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