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FMM 2017 (Parte I)

Terminou no último fim-de-semana de Julho mais uma edição do FMM, mais uma vez repartido entre Porto Covo e Sines, num ano que bateu o recorde de concertos com um total de 56 durante os nove dias do certame.

Após a manga inicial decorrida em Porto Covo, o FMM foi progressivamente mudando as suas armas e bagagens para os palcos de Sines, com o primeiro concerto dentro das muralhas aprazado para terça-feira 25. Antes de serem abertas as portas do castelo havia um primeiro concerto ao ar livre para apreciar, organizado no Largo Poeta Bocage, mesmo à boca das referidas muralhas. O projecto franco-marroquino N3rdistan foi, portanto, a primeira actuação a que assistimos nesta 19ª edição deste festival global. E é caso para dizer que abrimos com chave de ouro. Mercê de um som magnificamente equalizado, o quarteto em palco arrancou um concerto cheio de força, que foi contagiando gradualmente a sempre atenta plateia do FMM. Desde temas com pressupostos de electro hip-hop até canções assentes em cânticos arábicos, de cariz mais espiritual, o cardápio apresentado nunca perdeu interesse, nem tão pouco esfriou. Encabeçada pelo vocalista Widad Broco, a formação da banda contempla bateria, teclas/sintetizadores e sopros/cordas. Ficou igualmente vincada a veia política de N3rdistan, apontado o dedo a governos desprezíveis e tentando abrir portas para abraçar todos os refugiados do planeta. O largo, praticamente repleto, movia-se e pulava durante os números mais enérgicos e/ou ritmados.

Seguidamente, o colectivo Simply Rockers Sound System preparava-se para ribombar no terreiro do castelo as batidas gordas do dub e os ritmos quentes do reggae, aquecendo ainda mais uma noite bem amena, especialmente levando em linha de conta o termómetro sineense. O trio composto por Ernesto Honesto e os MCs Natty Fred e Joydan contaram desde o primeiro instante com uma sólida falange de apoio que quase engolia as colunas do seu sistema de som, tal a proximidade que cultivaram com os maestros de serviço. Acabou por ser um final de noite agradável, servindo de estágio para as maratonas musicais que se seguiam.

Quarta-feira começava o FMM a todo o vapor, envolvendo todos os palcos de Sines, desde o Centro de Artes até à Avenida Vasco da Gama, passando obviamente pelo palco principal do castelo. A edição deste ano virou-se essencialmente para África e para as Américas, além dos projectos nacionais que vão sempre merecendo a devida atenção da organização, por mérito próprio, como não podia deixar de ser.

A primeira noite no castelo apresentou uma moldura humana bem vasta para uma quarta-feira, e deu a ideia que muita gente fez questão de marcar presença para ver e ouvir Richard Bona & Mandekan Cubano. O cocktail elaborado entre o simpático baixista camaronês e o colectivo que o acompanha equilibrando na perfeição as origens africanas e os ritmos cubanos, pejados de cores jazzísticas, quebrou o embargo do público em relação à dança, tornando o interior do castelo num gigantesco salão de baile, com muita anca a “havanar”. Tendo como base o disco “Heritage” fez sentido que a sonoridade se situasse bem perto dos ritmos tradicionais cubanos, não trazendo muito de novo mas soando agradável para quem é seguidor de tal corrente.

Mudando radicalmente o espectro, como tantas vezes sucede no FMM, o nome que se seguia no cartaz era Den Sorte Skole, que traduzido para português significa A Escola Negra. Baseando-se na lenda de que o seu trabalho de estúdio “Indians & Cowboys” foi criado com base em samples de 350 discos, a dupla de DJs Simon Dokkedal e Martin Højland apresentou uma electrónica diversa, de cunho obscura, onde tanto pontificam apontamentos tribais, relembrando a sonoridades de M.I.A., como sintetizadores que querem ser maiores que a vida, trazendo à memória nomes como Vangelis ou Mike Oldfield, ou inclusive a cumbia. Enquanto a dupla manipulava os diversos aparelhos, no palco eram projectadas imagens dum universo distópico, como que se o som dos dinamarqueses se propusesse a colonizar outros planetas. Deu ideia que teria sido mais acertada ter colocado esta performance no palco da Avenida Vasco da Gama, onde muitas vezes desaguam estes sons mais electrónicos.

O palco principal do castelo tinha sido inaugurado por Cristina Branco, no concerto à tardinha, regressando a tal cenário quatro anos depois da sua última presença na cidade portuária. Na bagagem a fadista trouxe, desta feita, o disco “Menina” editado no ano passado, no qual interpreta composições oferecidas por autores contemporâneos como Jorge Cruz, Peixe, Filho da Mãe ou Kalaf, entre outros. E se em 2013 o seu concerto foi precioso, o recital deste ano não ficou atrás, à boleia de interpretações irrepreensíveis. Os temas de “Menina”, agraciado com o Prémio Autores da Sociedade Portuguesa de Autores, aproximam Cristina Branco de uma espécie de fado-pop, alicerçado numa guitarra portuguesa, contrabaixo e piano. «Boatos», «E Às Vezes Dou Por Mim» ou «Alvorada» foram autênticos mimos distribuídos pelos tímpanos de todos os espectadores. Houve ainda tempo para revisitar Sérgio Godinho e Zeca Afonso, para culminar uma prestação reconhecidamente triunfante.

Por seu turno, a fita do palco da praia foi cortada pelos Metá Metá, que vieram apresentar o seu disco “MM3”, tendo lançado na véspera deste concerto o “EP 3”. Em palco o trio base transforma-se em quinteto, sendo reforçado por baixo e bateria. Curiosamente, é mesmo o baixo quem mostra o caminho na maioria dos temas, qual candeia que vai à frente. Apesar de manterem sempre a sua vincada veia experimental, o concerto foi-se descomplicando progressivamente, terminando com um par de temas do seu disco homónimo de 2011. Os Metá Metá são como lava que escorre por uma imensidão de géneros musicais, colocando-os em fervura, desde a improvisação do mencionado experimentalismo até ao candomblé. As suas canções são verdadeiras liquidificadoras onde exprimem ingredientes da mais variada espécie. Vieram representar o lado bom do Brasil, como referiram, e fizeram-no dum modo bem maneiro.

O calendário de quinta-feira trazia à cabeça sonoridades bem díspares, mais uma vez, tendo como nomes maiores Emicida e A-Wa, numa noite em que a multidão no interior do castelo parecia relativamente menor à da noite anterior.

Emicida assinou um concerto em crescendo, tendo arrancado de forma mais crua para ir apresentando composições mais bem trabalhadas com o avançar do show. Retratando uma deslocação quiçá planeada desde o hip-hop desde a dureza das favelas até outro tipo de raízes mais prazenteiras. Escusada era a história que o rapper de São Paulo partilhou sobre uma alegada confusão com as autoridades que controlaram por estes dias as entradas no castelo. Escusada porque não acrescentou nada e a luta contra o racismo que incita fica plenamente representada através da sua arte, não necessitando de afloramentos adicionais. Racismo e crise política foram indubitavelmente os epicentros da prosa de Emicida.

Tair, Liron e Tagel Haim são as próximas a tomar conta do palco com o seu projecto A-Wa. Neste seu veículo musical o trio israelita traz-nos as canções e melodias dos seus avós, oriundos do Iémen mas que acabariam por migrar para Israel, revestindo-as de arranjos mais contemporâneos, com paragens desde o reggae até ao electro-pop. Enquanto os teclados apresentam os sons mais tradicionais da região onde cresceram as A-Wa, são a guitarra e o violino que vão sobressaindo aqui e acolá. Tratou-se de uma prestação bem regular e que nos deixou os ouvidos adocicados.

Este dia no castelo foi aberto pelo rock mongol de Tulegur, ladeado energeticamente em palco por Zongcan, que tratou das percussões e da guitarra eléctrica, consoante a natureza mais rural ou mais ocidental das canções. Dotados de um humor bastante sui generis, a dupla fomentou um contacto bastante vivo com a audiência, que ajudou igualmente a que o concerto mantivesse o seu vigor. O cerne da sua sonoridade acaba por ser um folk-rock, luminoso q.b., que assemelha-se muita vez àquele praticado pelo australiano Xavier Rudd. Tulegur Ganzi não esconde nunca a sua raíz de rocker, acabando na parte final por despir as suas vestes tradicionais para que a indumentária em tons de preto condissesse mais com essa sua faceta.

Encerrando a tarde de quinta-feira tivemos ÌFÉ, projecto brotado da mente de Otura Mun, um americano de Indiana que assentou arraiais em Porto Rico. Foi uma das melhores surpresas, para nós, tendo-nos encantado o seu neo-soul bem contido, por vezes até demais, dado que certos temas são interpretados num registo extremamente suave, o que nem sempre se conjuga bem com o ambiente de um festival. Nota-se uma preocupação com as melodias, que parecem ser escrutinadas até ao tutano na fase da composição, que é depois mesclada com um sentido rítmico apurado. Entre vocoders e sintetizadores tímidos o quarteto caribenho trouxe-nos reminiscências de nomes como Blood Orange ou How To Dress Well, tendo ainda apresentado uma versão com personalidade de «Higher Love», original de Steve Winwood.

Neste mesmo palco mas na etapa mais tardia do dia, já madrugada adentro, esteve Aurélio, expoente máximo actual da música garifuna, proveniente desse povo que habita a parte costeira das Honduras e do Belize. Dotado de umas ancas cheias de ginga, Aurélio Martinez protagonizou uma actuação recheadíssima de ritmos bem tropicais, celebrando a vida, os 30 anos de carreira, na tentativa que a música que confira sempre a liberdade do pelicano.

As cadências fortes, mas mais electrónicas, prosseguiram na zona da praia com a cumbia psico-carnavalesca dos colombianos Romperayo.



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