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FMM 2017 (Parte II)

O fim-de-semana final é logicamente o troço mais forte e concorrido do FMM, com muita gente a chegar a Sines ansiando por viajar pelo menos através de dois dias de música. O passe que dava direito à entrada no Castelo para sexta-feira e sábado encontrava-se esgotado quando a bilheteira abriu portas no penúltimo dia, restando ainda entradas diárias, no entanto.

O oitavo dia trazia de volta à cidade nomes conhecidos do público mais assíduo do FMM, como Fatoumata Diawara, Bixiga 70 ou saxofone de Orlandus Julius, todos eles programadas para o palco do castelo.

Depois de uma última visita sob a batuta do cubano Roberto Fonseca, Fatoumata Diawara regressou volvidos três anos novamente acompanhada, deste feita pela voz da sua amiga de longa data Hindi Zahra. O espectáculo mostrado em Sines foi parte integrante da Olympic Café Tour, uma digressão conjunta que celebra os anos em que ambas as cantantes partilharam o palco do referido estabelecimento parisiense, ainda longe do estrelato actual. O concerto pendeu bastante mais para o lado de Fatoumata que, desde as vocalizações até à dança, voltou a demonstrar que é um verdadeiro animal de palco, ao passo que a intérprete marroquina manteve sempre o seu registo mais sereno, que pôde ser auscultado pelo público português na mais recente edição do Misty Fest.

Era chegada a hora do castelo de Sines receber Mário Lúcio e a sua paleta de funaná, de todas as cores e sabores. O músico cabo-verdiano incendiou positivamente o público enquanto foi desfilando temas mais reflectivos, numa fase inicial, para dar lugar posteriormente a canções mais festivas e celebrativas na etapa final do concerto. Apenas um único senão no cômputo geral desta performance: o facto de ser praticamente inaudível o acordeão de Moisés Évora ao longo de toda a prestação, o que terá lesado nalguns momentos os funanás mais tradicionais. Neste regresso aos palcos após um interregno de cinco anos, durante os quais comandou o Ministério da Cultura da Cabo Verde, Mário Lúcio provou que não perdeu ritmo de palco, nem tão pouco qualidade como compositor.

Orlandus Julius dispensa apresentações para quem segue, mesmo à distância, os caminhos das músicas do mundo. Evidenciando que os seus 74 anos não são obstáculo para embarcar em novas e refrescantes aventuras, o saxofonista nigeriano decidiu unir esforços com o colectivo brasileiro Bixiga 70 para conjunto de concertos em modo joint-venture. Neste ajuntamento cabe ainda a esposa de Orlandus, a norte-americana Latoya Ekemode, responsável por vocalizações, percussões e ainda dança. Os membros de Bixiga 70 estão como peixe na água nas marés do afrobeat e do afro-pop, pormenor que talvez tenha ditado resultado morno desta performance: se por um lado as facções registaram uma afinidade intocável, por outro não houve muitos rasgos capazes de deixar os presentes boquiabertos.

O final da tarde tinha sido maioritariamente português. Primeiro, também no castelo, Sopa da Pedra e o seu manancial vocal. O projecto que reúne dez gargantas femininas, todas oriundas do Porto, aproveitou a ocasião para apresentar temas que farão parte do disco de estreia a lançar em Outubro. Além de «Cantiga de La Segada», o single já conhecido, percorreram diversos nomes marcantes do cancioneiro luso, como Amélia Muge ou Zeca Afonso. O registo capella não impediu que captassem a atenção de quem preenchia o espaço do castelo e exibissem toda a riqueza das harmonias que uma dezena de vozes permite alcançar.

Pouco depois outro registo de estúdio seria estreado no FMM, desta vez no palco paralelo ao areal da Praia Vasco da Gama: “1986”, fruto da operação conjunta entre Bejamim e Barnaby Keen. É um registo literalmente a meias entre a dupla luso-britânica, com as faixas do álbum repartidas entre os dois compositores, cantadas em português ou inglês, consoante quem as escreveu. O resultado é uma pop que caminha quase sempre de mãos dadas com uma suave electrónica, onde pontuam teclados e sintetizados em variadíssimos momentos. Na verdade as canções de “1986” soaram mais homogéneas ao vivo do que na gravação em estúdio, facto que veio enaltecer esta estreia. Barnaby Keen, que viveu durante alguns anos no Brasil, não perdeu a oportunidade de exibir o seu português com timbres de Vera Cruz, não só nos coros dos temas em português, mas especialmente numa versão fantástica de «A Minha Menina», canção sacada do valioso espólio d’Os Mutantes.

No último dia do FMM 2017, a etapa nocturna do castelo abriu com o rock psicadélico de Gaye Su Akyol, que uma semana antes tinha tocado na Ribeira das Naus, no âmbito do Lisboa Mistura. A turca e os seus mascarilhas fazem jus ao seu mote de lovepeace and rock n’ roll enquanto interpreta temas originais e revisita o cancioneiro turco, apresentando a sua leitura de canções pertencentes às décadas de 60 e 70. O forte cunho político paira quase permanentemente sobre toda a actuação, com palavras de activismo social que vão sendo suportadas por entre psicadelismo, space-rocksurf-rock, com pinceladas mais étnicas aqui e ali, advindas essencialmente dos teclados de Görkem Karabudak.

Um dos momentos mais esperados do festival era o regresso de Oumou Sangaré, quer aos palcos de Sines, quer aos discos após uma pausa demasiado extensa no seu portefólio. A carismática maliana trouxe uma banda extremamente bem oleada, low profile q.b., guiada pela guitarra eléctrica do jovem Guimba Kouyaté. Trazendo na bagagem o mais recente registo, “Mogoya”, focado em grande parte nos problemas sociais que a mulher africana enfrenta quotidianamente, mostrou-nos as novas canções, requintadas, buriladas até ao mais ínfimo pormenor, e com enorme espaço para os instrumentos respirarem. Ainda assim notou-se a falta de algum fogacho que conquistasse mais arrebatadoramente o público, numa actuação demasiado regular e que pareceu algo curta também, quando comparada com as demais.

No palco principal do castelo faltava apenas Tiken Jah Fakoly e a sua enciclopédia de reggae francófono, coadjuvado ainda pelo brilhantismo do sempre mui aguardado fogo de artifício que sempre acontece no encerramento deste icónico espaço. O costa-marfinense mostrou uma forma física invejável, com constantes corridas e saltos ao sabor dos ritmos do reggae, em movimentos que nunca põem em causa a sua vigorosa voz. Desde as cadências mais costumeiras até outras advindas das fusões concebidas pelo próprio, utilizando instrumentos típicos da sua região, Tiken Jah Fakoly e a sua banda transmitem sempre um som seguro e potente que manteve a plateia a pulular até ao término da sua prestação, sem que ninguém arredasse pé.

Para os mais resistentes a festa não finalizou com este workshop de reggae: estavam ainda marcados dois concertos para o palco da praia que, apesar do cancelamento de última hora de Afrikan Boy, prometia animação até ao nascer do sol. E assim foi, mercê das performances dos colombianos Bulldozer, que mesclam ritmos tradicionais com uma atitude assumidamente punk, e Celeste/Mariposa, com os seus sons sempre altamente viciantes que nos colam a qualquer pista de dança, extraídos de uma invejável colecção de discos que jorra história musical dos PALOP, com pendor cabo-verdiano.

Fechou desta forma uma edição do FMM bastante uniforme a nível de qualidade, com um leque de propostas que contemplam todos os gostos, à qual terá faltado um ou outro concerto que marcasse a diferença e ficasse incontestavelmente na retina. Aguardamos com entusiasmo extra a próxima edição que, sendo a vigésima, trará seguramente ainda mais razões para regressarmos a Sines. Como se tal fosse necessário.



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