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Fragmentos de um Diário

O grande auditório da Culturgest esteve repleto, para receber a antestreia de "Fragmentos de um Diário - Traces of a Diary", de Marco Martins e André Príncipe, integrada na selecção do IndieLisboa 2010.

“Traces of a Diary” constrói-se nos moldes de um diário de viagens, enquanto processo fílmico orientado para descobrir, ao ritmo do passo protagonista dos seus realizadores, o Japão actual e seis dos fotógrafos cruciais da sua contemporaneidade.

Para além do foco na revelação do trabalho dos artistas, o documentário liberta-se de convenções quando utiliza por método estilístico, a denúncia do próprio dispositivo fílmico, revelando o processo de captação em que assenta. Técnicos, instrumentos e realizadores envolvidos tomam, então, parte da atenção do processo documental que constroem. Em simultâneo, as opções estilísticas da captação, fluem espontaneamente de acordo com a liberdade com que os artistas em retrato, simultaneamente, se entregam às etapas particulares dos seus processos expressivos. Focos e desfoques alternam-se, planos subjectivos e objectivos sucedem-se de forma a documentar o vulto que fotografa, tanto quanto a simular o olhar do utilizador através da máquina.

A sensação decorrente apresenta-se como uma tentativa vital de captar esse instante que se encontra entre o olhar colado do fotógrafo ao aparelho fotográfico, e o click que decidirá a composição final da fotografia. Sem quaisquer planificações de encenação prévia, ou enquadramentos estudados, o compasso da descoberta da realização orquestra-se com o mesmo grau de improviso artístico presente nos processos em retrato constante.

De acordo com esta determinação estética que pretende simular os maneirismos intrínsecos à visão humana, o filme constrói-se plenamente como um olhar que segue os outros olhares, aspirando a materializar-se deles o mais fielmente possível.  A tentativa assume um movimento de encontro explicativo, sob a poesia activa do retratamento, que alinha cada uma personalidades – fotógrafos e realizadores – no mesmo momento presente. Convergência poética que afaga o uso, estudo, hábito e gosto de cada um dos artistas profissionalizados no seu relacionamento com a produção de imagens. Neste sentido, a fusão do artista à sua máquina é uma figuração recorrente entre os vultos (sendo que a maioria dos fotógrafos se apresentam como adeptos da prática espontânea do snapshot), tornando-se propositada a reflexão acerca da natureza do próprio dispositivo fotográfico, na medida do seu estabelecimento enquanto força histórica de registo memorial.

Nesta sequência, oportunamente se justifica a qualidade diarística do relato, correspondente a um mês de filmagens no Japão, onde Marco Martins e André Príncipe deram matéria ao projecto de um ano e meio.

A redução dos meios envolvidos, ditou a captação visual com duas câmaras Krasnogork 3, que utilizam película Super 16mm e cuja corda dura apenas 40 segundos de filmagem. Devido à sobreposição vincada do ruído da própria câmara, os realizadores confessam a impossível captação sonora simultânea à filmagem, justificando a opção de gravar as entrevistas à parte, apresentando-as, deste modo, em off.

Em tempos obstinados com a qualidade perfeitamente mimética das exibições, na proliferação obcecada da alta-definição, do blu ray, do 3D, do Dolby-surround, é com particular importância que se assiste ao surgimento de “Traces of a Diary”, e que este, à sua antestreia, encontra meritória recepção na resposta arrebatada do público. Filmado num preto e branco granulado, alheio a controlos precisos de foco, quadro ou exposição, louva-se a abordagem a uma estética de rememoração primordial, capaz de evocar as marcas de estilo que presidiram ao surgimento da fotografia e do cinema, unindo, consequentemente, na verdade basilar de uma evolução comungada, os primórdios de cada um dos processos artísticos e de registo.

Segundo as palavras de Marco Martins, é como um “improviso programado” que assim surge “Fragmentos de um Diário”, simplificando-se das proposições gerais que iniciaram o seu processo de investigação, guiando-se através do encontro apurado da atenção particular com o minimalismo dos meios envolvidos, por entre as ruas japonesas do passo habitual de fotógrafos tão relevantes quanto Daido Moriyama ou Nobuyoshi Araki, entre outros.



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