Francisco Camacho

Francisco Camacho

«Os Wilco são, para mim, a melhor banda surgida nos últimos vinte anos. O melhor disco deles? Talvez o “Yankee Hotel Foxtrot”» Entrevista com o autor de “A Última Canção da Noite”.

Depois de um percurso jornalístico que incluiu cargos de topo no semanário O Independente, nas revistas Grande Reportagem e Volta ao Mundo ou no jornal i, Francisco Camacho decidiu mudar de vida. Em 2008 editou o seu primeiro romance – “Niassa”, Prémio PEN Clube – e, dois anos depois, trocava o mundo do jornalismo pela boa vida da edição de livros, assumindo o cargo de editor da Oficina do Livro e mantendo colaborações pontuais com as revistas Sábado e GQ.

Há bem pouco tempo chegou às livrarias “A Última Canção da Noite”, livro que conta a história de Jack Sullivan, o conceituado guitarrista dos Bitters que, durante uma digressão da banda pela Europa de Leste, desaparece misteriosamente , abrindo lugar às mais diferentes teorias: perdeu-se no deserto; caiu nas mãos de uma família de mafiosos; foi raptado por extraterrestres.

Um dos maiores admiradores dos Bitters era David Almodôvar, respeitado crítico musical e venerado publicitário, caído em desgraça após ser acusado de plagiar um artigo de um americano que atirava às urtigas com uma fadista portuguesa. Para adensar um pouco mais o negrume, a mulher deixa-lhe uma carta de despedida em jeito de desafio, que o lança numa viagem com o objectivo de recuperar a sua alma gémea mas, também, o amor-próprio. Até que surge um inesperado companheiro de viagem, que transforma este viagem numa Odisseia a dois.

Conversámos com Francisco Camacho sobre este romance musical com ecos de Gatsby on the road, que se lê como uma imensa banda sonora onde cabem Jim Sullivan, Pavement e Yo La Tengo. E os Wilco, claro está.

Francisco Camacho

A personagem da fadista que conduz David Almodôvar à ruína tem correspondência de carne e osso?

Terá certamente correspondência de carne e osso, mas não me lembrei de ninguém em particular quando construí aquela personagem. Lembrei-me de várias pessoas.

É perigoso criticar alguém em Portugal? Ou a maior parte das pessoas prefere dar-se bem com Deus e o Diabo para não se meter em chatices?

Não é nada perigoso. Em Portugal, critica-se muito e critica-se livremente. Isso é saudável. É verdade que muitas dessas críticas são produto de sentimentos pouco nobres, mas isso é assim em qualquer parte do mundo.  A crítica profissional, no que diz respeito aos livros, à música, ao cinema, por exemplo, é uma actividade cada vez mais necessária, porque a oferta é demasiado ampla e as pessoas precisam de ajuda para perceberem aquilo em que vale a pena investirem o seu tempo.

Há um Jack Novak em todas as bandas de rock & roll?

Jack Novak só há mesmo um, o dos Bitters, que é a banda que criei para o meu livro, A Última Canção da Noite. É um compositor genial, um guitarrista tecnicamente irrepreensível e também muito criativo, e um poeta. E depois é um homem atormentado, que convive muito mal com a fama e tem um segredo que corresponde a um trauma dilacerante.

É preciso morrer-se enquanto músico para que o mito nasça?

Acho que não. Há lendas vivas, como os Rolling Stones, por exemplo. Muito há mitos para os quais a morte foi decisiva.

Acredita em extraterrestres?

Nunca pensei muito nisso. Mas o universo é infinito. Quem é que, honestamente, pode dizer que não acredita em extraterrestres?

Conhecer os ídolos é meio caminho para o desapontamento?

Depende. Mas há altas probabilidades de isso acontecer. Os ídolos correspondem a pessoas, e nós apaixonamo-nos apenas por uma parte do que essas pessoas são.  Quando as conhecemos é natural que se revelem outras facetas bem menos interessantes.

Qual é o maior disco dos Wilco?

Os Wilco são, para mim, a melhor banda surgida nos últimos vinte anos. O melhor disco deles? Talvez o “Yankee Hotel Foxtrot”.

A música é o melhor consolo para uma alma dorida?

Não sei. O que sei é que a música me ajuda a viver melhor. Influencia bastante o meu estado de espírito. Mas isso é uma faca de dois gumes. Nunca me sinto totalmente confortável se estiver a ouvir uma música que me desagrada, por melhor que seja o resto do ambiente.

Smog, Wilco, Yo La Tengo, Flaming Lips, Pavement, Jim Sullivan. É esta a banda sonora de Francisco Camacho?

Isso e muito mais. A minha banda sonora não tem fim.

A música com intenções – ou pelo menos suspeições – neonazis pode ainda assim ser considerada bela? Falo por exemplo dos Death in June que, para Jack Novak, são como uma caveira das SS.

Não creio que alguma coisa minimamente bela possa surgir dessa área. Os Death in June não têm qualquer relevância artística. Mas sei que há manifestações estéticas ligadas ao totalitarismo, como a Leni Riefenstahl, por exemplo, que são muito apreciadas por uma certa intelligentsia, mas eu desprezo-as. É a minha costela Nick Nolte.

Jack Novak está numa fuga permanente? Ao fim de algum tempo dá a ideia de que foge não do mundo mas de si próprio.

É evidente que ele foge de si próprio. A maior parte de nós foge de nós próprios, dos nossos problemas, dos nossos traumas, varrendo-os para debaixo do tapete. Até mesmo quando nos sentimos vítimas de alguma injustiça, por vezes estamos a fugir de nós próprios, na medida em que nos furtamos a assumir a nossa quota parte de responsabilidade para que essa alegada injustiça acontecesse. Nem sempre é um processo consciente, até porque a maior parte das pessoas se conhece muito mal.

Podemos concluir, um pouco como acontece em “O Grande Gatsby”, que David Almodôvar é também ele, em parte, Jack Novak?

As conclusões ficam para os leitores. Mas essa conclusão não é totalmente descabida.

Quis dar ao leitor a possibilidade de decidir sobre o destino amoroso de David Almodôvar?

Mais do que isso. Quis dar ao leitor a possibilidade de pensar no assunto.

Que canção escolheria para servir de banda sonora a esta entrevista?

“Hell of a Season”, dos Black Keys.

 

Lançamento

6 Junho | 18h30 | Livraria Ler Devagar, LX Factory, Lisboa

Apresentação da obra pelo jornalista João Miguel Tavares e pelo músico Zé Pedro



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