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Frankie “one man band” Chavez

Experimenta, cria, sonha, deseja.

Frankie Chavez é one man band. Guitarra em punho, diacrónico, viajante do mundo e aventureiro.

É o mais novo de quatro irmãos, todos com a paixão pela música. Desde cedo absorveu tudo o que se ouvia lá em casa. Os blues, o rock´n´roll, a soul , o punk rock. Brincou com guitarras e aos nove anos, incentivado pela mãe, começava a ter aulas no Conservatório.

Os irmãos ouviam Muddy Waters, Chuck Berry, David Bowie, Pink Floyd e mais uns quantos. Criança, escutava tudo e reservava-se nas suas preferências, submetendo uniões de sons e notas que sacava de ouvido do que experienciava no seio familiar.

Encontraria num dos imensos vinis que andavam lá por casa a chama da libertação juvenil, siderando nele algum tempo. “Rocket to Russia”, dos Ramones, tinha uma base fácil, permitia o uso da distorção e o afinco expressivo e sibilante no seu início de percurso autodidacta.

Cresce. E na emergência das dissonâncias e exaltações próprias da juventude permitiu-se em versões que divinificavam os seus ídolos e referências. Dos blues psicadélicos à cena cósmica e underground de uma época, Jimi Hendrix e Pink Floyd vinham no topo das preferências.

Entrou na faculdade e foi convidado, ainda que a sua paixão fosse a guitarra, para baixista de Toranja. Viajou para Barcelona e Austrália onde teve aulas de jazz, tocou na rua, conviveu com músicos de lá, foi convidado para fazer duas músicas, para um Documentário e Campeonato de Surf respectivamente, e teve uma dupla – França & Mandala – que chegou, após o seu regresso ao fim de ano e meio, a entreter por alguns bares do Bairro Alto, criou os Beringela Amarela e integrará mais uma edição da Optimus Discos sob selecção de Henrique Amaro. Mas, como a vontade de pôr em prática tudo o que assimilou na construção da sua identidade sonora, o empenho e dedicação nem sempre primaram pela consensualidade de banda (“falta de permanência nos ensaios de alguns” era o maior entrave , segundo o mesmo), surge em paralelo o  one man band Frankie Chavez. O resto é espremido pelo próprio Frankie, numa conversa animada que deixou claro, entre outros aspectos, que se alguma proximidade há com os ícones e influências que lhe entusiasmaram o início desta longa viagem sónica, essa resumir-se-á na universalidade da música em si mesma. Tal qual as transgressões de outros tempos que cunharam essa dimensão planetária aos géneros de que se falou.

Nesta travessia, entre viagens físicas e sónicas, influências familiares e de gentes que admira ou quem privou, explica-nos como tudo começou.

“Fui influenciado pela minha mãe para aprender a tocar guitarra. Comecei a aprender aos nove anos. Em miúdo já brincava com guitarras de plástico, tinha a cena de ser guitarrista e a minha mãe dizia: então, mas porque é que não aprendes a tocar guitarra? Por vezes os miúdos interessam-se e depois desinteressam-se e eu comecei logo a interessar-me e a aprender, a tocar um pouquinho melhor. Comecei a conseguir tirar músicas de ouvido e aquilo deu-me um certo gozo. Tocar músicas de músicos que eu ouvia em casa”, refere.

“Eu sou o mais novo de quatro irmãos e em casa eles ouviam muito Pink Floyd, Jimi Hendrix e muito blues. E eu ia absorvendo. Rolling Stones, David Bowie, Bob Dylan, que para um miúdo de 12 anos foi óptimo. Ouvia um pouco desse universo todo. Claro, tinha as minhas preferências. Sempre gostei muito de Pink Floyd. Hendrix também foi uma das minhas maiores inspirações”, diz.

Lá bem longe, no início da sua juventude, ainda chegou a ter uma banda de garagem que, embora não tivesse assumido grande expressividade, lhe deu algum gozo. “Tinha uma banda  de garagem com uma sonoridade punk, mas aquilo nunca chegou a ser muito notório, nem a sair dali da garagem. Estive um ano com eles, com este meu amigo, a tocar no Restelo. Ele tinha um estúdio lá na arrecadação e tocávamos, fazíamos barulho (risos). Mas, em contrapartida, ia tocando mais em casa sozinho, fazia versões em miúdo do que ouvia em casa, de Stones, Hendrix, etc. Depois comecei a experimentar sonoridades mais ligadas ao punk. Um dia encontrei um vinil lá em casa e fiquei a olhar para aquilo (pausa). O “Rocket to Russia” dos Ramones. Achava aquilo lindo (risos) e tocava, como tinha uma base fácil, são 3 acordes. Cantava o «Sheena is a punk rocker» e «Surfing Bird», um gajo ligava a distorção e conseguia soar ao mesmo”.

Não deixa de ser curioso o apego inicial pela atitude punk e garage rock de bandas que em tempos suturaram a discórdia no meio underground, de um músico agora tão, aparentemente, consciencioso de “o que quer e pode soar”. Frankie explica; “acho que fez um pouco parte do processo. Eu tinha que saber soar trashy, para hoje em dia encontrar o meu som.”

Nesta longa viagem, as coordenadas de referência do músico, no modo simples e autêntico como as descreve, ganham outro sabor. Não são intelectuais, nem políticas, nem sequer ideológicas. Há, sobretudo, uma ausência de compromissos, excepto com o lado mais lúdico e artístico da vida.

“Para aí com 19, 20 anos, foi quando comecei a fazer os primeiros bares. Estava na faculdade, um amigo meu tinha um bar e perguntou-me se eu não queria ir para lá tocar. Nessa altura já estava a tocar com a primeira formação de Toranja. Estava a tocar com o Tiago Bettencourt e o Afonso Maia. Eu era baixista, o Afonso Maia baterista e o Tiago cantava e compunha as letras. Contudo, aquilo também não durou muito tempo, pois estava habituado a estas cenas mais do rock e a guitarra (pausa). A minha cena é mais guitarra. Como faltava um baixista para aquilo que viriam a ser os Toranja e o Afonso era meu amigo disse-me: Tenho lá o Tiago, tem umas letras muito loucas, precisas de ir ver aquilo, mas precisamos de um baixista e tal. E acabei por começar a tocar baixo. Era um género diferente daquilo a que estava habituado e começámos a tocar os três”, conclui sem perder as directrizes que norteiam este seu percurso.

“Entretanto surgiu a hipótese dos bares. Eu ia tocar com uma miúda, também do Restelo, e este meu amigo perguntou-me se não queria levar ninguém para a percurssão e chamei o Afonso (Maia). O Afonso, por sua vez, perguntou: Não queres trazer o Tiago também?  Nessa altura tocávamos todos, mas nem havia ainda o nome Toranja. Foi então que concorremos ao “Optimus 2001”. Aquilo correu bem, mas, perto do fim do ano, decidi ir para Barcelona um ano fazer Erasmus. A minha cena é a guitarra, sempre toquei guitarra, portanto acabei por me decidir e fui para Barcelona. Fui estudar para lá e entrei numa escola de jazz – Taller de Musics. Nessa altura comecei a ouvir muito reggae. Em Barcelona acabei por ter a minha primeira e única abordagem ao jazz. Foi bom, porque sei que aprendi e desenvolvi algumas coisas que de outra maneira não teria feito. Foram quatro meses(pausa). Depois, voltei para Portugal e decidi começar a fazer bares, mas a cantar, só que quando cheguei não encontrava sítios que me agradassem a esse nível. Mais tarde encontrei o António Mandala, percursionista, que tocava numa banda de reggae, que eram os Jaming, e perguntei-lhe se não queria fazer uma cena mais acústica. Sempre tive amigos com bares, no Bairro Alto, etc. E começámos a fazer bares. Nunca arranjámos um nome para o projecto, mas como a minha alcunha era França e a dela Mandala, ficou França & Mandala. Durante um ano e meio tocámos. Entretanto, preparei a minha ida para a Austrália e foi aí que absorvi grande parte daquelas que são hoje as minhas maiores influências (pausa). Embora já as acompanhasse lá atrás com o que ia ouvindo lá por casa, o blues e assim, pois já gostava e conhecia Muddy Waters, Chuck Berry, Gary Moore, mas na Austrália tive hipótese de alargar e aprofundar essas, e outras, raízes”, recorda.

“Como a minha vontade em fazer algo mais pessoal e à minha maneira era grande, mesmo antes de ir para lá já ouvia Xavier Rudd, John Butler, coisas que ia apanhando aqui ali, guitarristas de slide, comecei a tocar slide guitar e ia apanhando cenas mais bluesy, o slide guitar já é por si mais bluesy (pausa). Comecei no fundo a  perceber alguns que se tornaram grande influência e o modo como sacavam o som. Como, por exemplo, o Ben Harper (pausa). Ficava na rua a tocar durante horas e aperfeiçoei muito do slide guitar mesmo ali na rua. As pessoas sentavam-se, perguntavam que guitarra era aquela. O tocar na rua foi alta experiência. Muito giro. E foi aí mesmo que começaram os primeiros temas de slide que agora já vou incorporando”.

“Fui a imensos festivais lá, jamava com o pessoal da rua (pausa). Lembro-me de uma vez estar num jardim como este (referindo-se ao sítio onde decorreu a conversa). Estava um saxofone e uma bateria e perguntei: Posso ir buscar a minha guitarra? Tinha a guitarra com o amplificador e foi uma jam logo ali de horas”, relembra com alguma nostalgia.”

Na Austrália acaba por conhecer um amigo, também português, que por sua vez tinha outro amigo ligado ao cinema que ia  fazer um documentário de surf. “Ouviu as minhas cenas do slide e disse: Faz lá umas músicas que eu gostava de pôr isso (risos). Então, inspirei-me na Indonésia, porque sabia que ele estava a ir para lá. Gravei, ele utilizou os temas no filme e a partir daí fiquei mais entusiasmado pelo reconhecimento de alguma da minha música original”.

No seu regresso a Portugal, arranja uma banda, “que dava pelo nome de Beringela Amarela e houve quem desse o toque ao Henrique Amaro para ele ver o myspace. Curiosamente, e apesar de sempre ter escrito em inglês, até porque as minhas referências são todas nesse idioma, na Austrália comecei a escrever em português. Começou a dar-me algum gozo escrever em português coisas sem soar a foleiro. Que na nossa língua é sempre arriscado. Vais dizer amo-te (risos) e é um risco. Fizemos um concerto no Onda Jazz.

Essa banda ainda rolou dois anos e tal, mas quando tens uma banda com quatro pessoas e não estão todos com o mesmo empenho ou vontade torna-se difícil avançares como querias. A cena musical até resultava bem. Ao vivo resultávamos muito bem. Mas, a forma de trabalhar, para quem queria chegar um pouco mais além, não era a mais vantajosa.” explica.

Foi exactamente nesta altura que, a convite de Francisco Faria, um amigo, com trabalho de publicidade feito nos estúdios Indigo, o convida para gravar lá o seu primeiro disco. “O  Francisco Faria tinha acesso fácil a um estúdio e  diz-me que curtia gravar lá o primeiro disco meu. Ambos víamos as nossas sonoridades, gostaríamos de as catalogar como heterónimos, e se eu tinha uma banda que eram os Beringela Amarela em português também podia ter outra identidade com outra e a cantar em inglês. E foi assim que Frankie Chavez acabou por surgir em paralelo a Beringela Amarela.”

O convite de Henrique Amaro para figurar na edição próxima (prevista para Fevereiro/Março) pela Optimus Discos aconteceu de modo oportuno e inesperado.

“Quando o Henrique Amaro soube dos Beringela Amarela e se mostrou interessado, aproveitei para lhe dizer que tinha um novo projecto de nome Frankie Chavez. Ele ouviu e disse: é isto mesmo (risos) e   propôs-me a gravação para o EP da Optimus”.

Frankie Chavez é agora o nome a reter neste já longo caminho percorrido. Depois do EP Optimus Discos surgirá, ainda sem data ao certo prevista, o disco.

Aguardamos com vontade o disco e próximos espectáculos deste one man band por terras lusas.



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