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Free Fish: documentário filmado em Gaza chega a Portugal

Uma obra luso-palestiniana sobre pesca, resistência e sobrevivência estreia em Santarém a 27 de maio, com sessão especial em Lisboa no dia seguinte, com ligação em direto à realizadora em Gaza.

Uma obra luso-palestiniana sobre pesca, resistência e sobrevivência estreia em Santarém a 27 de maio, com sessão especial em Lisboa no dia seguinte, com ligação em direto à realizadora em Gaza.

Depois de percorrer os principais festivais internacionais de cinema documental, Free Fish chega finalmente a Portugal. O documentário luso-palestiniano, realizado por Bisan Owda e coproduzido pela Don’t Skip Humanity, tem estreia nacional marcada para 27 de maio, no Teatro Sá da Bandeira, em Santarém, no âmbito do Festival Internacional de Cinema de Santarém (FICS). No dia seguinte, 28 de maio, o filme tem a sua primeira exibição em Lisboa, na Casa Palestina, com uma sessão especial que inclui conversa em direto com a realizadora, a partir de Gaza.

O filme acompanha os irmãos palestinianos Mohammad e Ahmad Kalloub, pescadores separados pelo deslocamento forçado imposto pela invasão israelita. Filmado no Norte e no Sul da Faixa de Gaza ao longo de mais de 400 dias, o documentário nasceu de um processo de criação colaborativo entre Lisboa e Gaza, marcado por apagões, bombardeamentos e deslocações contínuas.

Uma história de pesca e de sobrevivência no meio do cerco

Em Gaza, o mar nunca foi apenas mar. O bloqueio marítimo israelita transformou as águas costeiras numa fronteira armada: zonas de pesca progressivamente reduzidas, barcos abatidos à bala, famílias empurradas para a fome. Neste contexto, lançar as redes tornou-se muito mais do que trabalho — tornou-se um gesto de dignidade e resistência quotidiana.

É neste território que Free Fish mergulha. Os irmãos Kalloub vivem a pesca como sustento e como memória de uma identidade que a ocupação procura apagar. O filme capta os momentos de silêncio entre os apitos das sirenes, as mãos curtidas pelo sal e pelo esforço, e a saudade de um que procura o outro do outro lado de um território partido.

Bisan Owda: a realizadora que filma Gaza por dentro

Bisan Owda é jornalista, cineasta e storyteller palestiniana de Gaza. O seu trabalho tornou-se internacionalmente reconhecido pela forma como documenta, de dentro, o quotidiano e a resistência palestiniana sob cerco e ocupação. Em 2024, a sua obra documental e jornalística valeu-lhe dois dos mais prestigiados galardões do setor: um Peabody Award e um Emmy Award.

Free Fish é o resultado de uma cocriação com Carolina Pereira, cineasta e produtora portuguesa, fundadora da Don’t Skip Humanity. A produtora independente, sediada em Lisboa, assume como missão desenvolver narrativas urgentes, éticas e politicamente situadas — filmes que cruzam testemunho, memória e mobilização cultural.

Um projeto nascido entre Lisboa e Gaza em tempo de guerra

A coprodução entre a Tellers Productions (Palestina) e a Don’t Skip Humanity (Portugal) é descrita pela própria equipa como um ato de resistência cinematográfica. Durante mais de 400 dias, a criação do filme foi interrompida e retomada ao ritmo dos apagões e dos bombardeamentos. “Free Fish é o primeiro grande projeto internacional da Don’t Skip Humanity e representa o que acreditamos ser o futuro do cinema — colaborativo, ético e profundamente político”, afirma Carolina Pereira.

O documentário passou já por um conjunto de festivais internacionais de referência: o SFFILM Doc Stories (São Francisco), o Florida Film Festival, o TRT Documentary Days (Istambul), o Festival MESS e o International Film Festival – El Cine Suma Paz. A chegada a Portugal é, assim, o culminar de um percurso internacional que começa agora a ganhar forma em território português.

Estreia em Santarém, no coração de um festival sobre Terra e Soberania

A estreia nacional acontece no Festival Internacional de Cinema de Santarém (FICS), um dos festivais de cinema mais antigos do país, criado em 1971, suspenso em 1989 e reativado em 2023. Este ano, a secção EM FOCO é dedicada ao tema “Terra e Soberania” e reúne exclusivamente obras ligadas à Palestina — enquadramento que torna a estreia de Free Fish ainda mais significativa.

A sessão de 27 de maio, às 17h30, no Teatro Sá da Bandeira, inclui também a exibição de Palestine Blues, de Nida Sinnokrot. Após os filmes, terá lugar uma conversa com Carolina Pereira, Rodrigo Azevedo (Interjovem), José Oliveira (MPPM) e Matilde Lopes (Projeto Ruído), moderada por Joana de Sousa, programadora do festival.

Lisboa, 28 de maio: Q&A em direto com Gaza

No dia seguinte, 28 de maio, às 20h00, Free Fish tem a sua primeira exibição em Lisboa na Casa Palestina, um espaço cultural e comunitário da capital dedicado à promoção da cultura e história palestiniana. A sessão inclui um Q&A com Bisan Owda em direto de Gaza, acompanhada por Carolina Pereira e Dima Akrum, fundadora e diretora criativa da Casa Palestina.

O momento promete ser raro: uma ligação ao vivo entre o público lisboeta e uma realizadora que continua a trabalhar e a viver no epicentro do conflito. Um encontro entre o filme, os seus criadores e os espectadores portugueses que raramente tem paralelo na programação cultural do país.

Mais informações sobre a programação do FICS disponíveis no Instagram do festival. Contactos de imprensa: Alexandra Neto Ferreira — +351 939 103 167 | xananetoferreira@gmail.com; Joana Guerra Tadeu — +351 912 661 299 | joana@dontskiphumanity.org.

Free Fish chega a Portugal num momento em que a discussão sobre a Palestina atravessa fronteiras e disciplinas artísticas. O documentário não é só cinema — é uma escolha política de quem filma e de quem vai ver. Para ambas as sessões, a entrada está sujeita às condições dos respetivos espaços.



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