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Gabriel Abrantes

“Precisamos de ambiguidade para encontrar a Esperança”

A RDB esteve na Galeria Zé dos Bois na mostra de três filmes de Gabriel Abrantes (GA), com a presença do mesmo. Artista e realizador, tem desenvolvido um trabalho na pintura, no cinema, na instalação e na performance. A última sessão é no dia 31 de Outubro.

Licenciou-se em Cinema e Artes Visuais na The Cooper Union for the Advancement of Science and Art (NY, 2006), concluiu a pós-graduação em Le Frenesoy Studio National des Arts Contemporains (Tourcoing). O seu trabalho fez parte de várias exposições colectivas.

Recebeu numerosos prémios onde se incluem Prémio EDP – Jovens Artistas, Prémio Talento FNAC ou o Leopardo de Ouro para a Melhor Curta-metragem Internacional no Festival de Cinema de Locarno 2010 pelo seu filme “A History of Mutual Respect” – que também venceu o Grande Prémio da Competição Nacional do IndieLisboa do mesmo ano.

Os filmes apresentados têm em comum um casal como protagonista. São casais sucumbidos a relacionamentos interculturais ou de sexualidade ambígua. O fulcro normativo é sem dúvida a perversidade. Estamos perante obras sarcásticas, sobre cultura, política, quotidiano e sexo.

“Olympia” I & II de Gabriel Abrantes e Katie Widloski

Olympia I e Olympia II formam um só filme, em película de 16 mm. É considerado o filme que marca o início das práticas cinematográficas de Gabriel Abrantes. Trata-se dum retrato filmográfico à obra homónima de Édouard Manet, exposta em Paris no Musée d’Orsay.

“Foi um projecto que nasceu numa época de estudante, caracterizada pelos poucos recursos económicos existentes. Desta forma, os “Olympias” acabaram por ser filmados com a câmara em cima de livros e cadeiras. A ausência de um gravador de som levou à liberdade com a câmara. Um trabalho de pós-sincronização elaborado, em que as vozes, sussurradas, são gravadas numa extrema proximidade com o microfone”, diz-nos Gabriel Abrantes.

Um facto que se traduz numa desenvoltura sentimental quase constrangedora. São este tipo de técnicas referidas por GA que reflectem um amadorismo latente.

No “Olympia I“, uma prostituta recebe a visita do irmão homossexual e dos seus cães. Ele confronta-a sobre a forma como ela vive e informa-a que não pagaria um cêntimo pelas suas mamas nojentas.

Já no “Olympia II”, um prostituto travesti espera os clientes enquanto ouve Henry Gorecki e saboreia uma Coca-Cola Diet. A empregada, “Morango com cobertura de chocolate”, tenta relaxá-lo, amassando-o bem até começarem a fazer amor.

Tanto no “Olympia I”, como no “II”, os actores são o Gabriel Abrantes e a Katie Widloski, ambos artistas e realizadores.

 

“Visionary Iraq” de Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty

“Visionary Iraq” reúne três fluxos essenciais: produção fílmica, postura ideológica e arte tridimensional, através de instalações nos cenários. Um filme onde reina o abstracto e o irreal.

Uma família típica portuguesa com um nível socioeconómico alto e com dois filhos. A filha é angolana e adoptada. O filho é apenas biológico. Não são irmãos de sangue, mas sim de sentimento. Contudo, mantêm entre eles uma relação incestuosa há vários anos. Ambos se voluntariam para a operação Iraq Freedom.

As cenas deste filme são produzidas numa galeria, transformada no estúdio de produção.

Três instalações diferentes que correspondem aos cenários principais: a primeira é a casa da família de arquitectura contemporânea. A segunda é a galeria forrada com papel de prata, relembrando o atelier do Andy Warhol. Por último, a terceira instalação representa o Iraque, passa-se no terceiro andar da galeria, onde o chão está revestido com areia. Há uma reunião multidisciplinar neste trabalho instalado entre: Arquitectura, Escultura e Land art.

Um argumento com um certo humor, que acaba por tomar umas dimensões próximas da realidade, terminando com uma tristeza subtil.

No fundo, temos um jovem casal incestuoso que luta pela democracia no Iraque com convicção. O idealismo está vivo, mantendo-se o pensamento ultrarreacionário.

Depois do visionamento deste filme, fica-se com a noção que a América invadiu o mundo.

GA: “A produção deste filme caracteriza-se por ligarmos a câmara de 16mm e irmos a correr para as respectivas posições. Todos os personagens foram representados por mim e pelo Ben. O guião e o décor também. Gostamos muito dos efeitos de amadorismo.”
 

 

“Liberdade” de Gabriel Abrantes e Benjamin Crotty

Luanda é a cidade escolhida, um romance entre dois jovens, um angolano e uma chinesa. Vêem-se confrontados com um problema de impotência sexual, o que leva a miúda a pensar que ele já não a deseja. A solução é a farmácia e Viagra. Solta-se a frase: “É poténté”.

GA: “Os actores são amadores, mantém-se um circuito amador, com o objetivo de criar algo inovador. Não controlávamos bem a coisa, mas tentámos. O filme “Liberdade” é o que tem as ideias mais dinâmicas, há uma referência à produção de Hollywood. O contexto é importante, existe talvez uma falha na narrativa, porque no fundo acho que não tem utilidade política.

O cinema tem um potencial de propaganda intenso. No caso do filme “Liberdade”, é nítida a posição a favor de Angola contra a Europa e os Estados Unidos da América. A arte deve libertar-se de exigências lógicas e racionais, indo além da consciência, procurando expressar o mundo e os seus ideais.”

O “Liberdade” conta com a banda sonora de Frank Sinatra no fim e Paul Simon – «Diamonds On The Soles Of Her Shoes», no início.

O prédio do Kinaxixi, onde se passa parte da acção principal, surge filmado desde um helicóptero. É considerado um autêntico mamarracho, está ocupado há cerca de vinte anos e agora tem os seus dias contados. Apresenta um péssimo estado de conservação, denunciando explicitamente as diferenças entre as classes sociais do País. Num balanço oposto a esta desigualdade, um passeio de mota, uma tarde de convívio na praia com barcos ferrugentos, enormes e encalhados à beira mar, dão a este filme um ritmo nostálgico, quente e contagiante.

Teve uma aceitação fantástica por parte do público, sente-se que as novas gerações se revêem na acção, no amor e no chinchinim cor-de-rosa.

GA: “É necessário fugir às regras e as convicções para sair do estado imóvel. Precisamos de ambiguidade para encontrar a Esperança.”



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