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Gabriel Abrantes segue os passos de Herzog!

Este mês podemos descobrir trabalhos seus no IndieLisboa e no Museu da Electricidade. Entrevista exclusiva com um artista radical.

“Na minha vida coloco sempre em primeiro lugar a minha família e o meu trabalho. Para tudo o resto existe o Mastercard”.

É filho de mãe angolana e pai zairense, tendo nascido nos Estados Unidos da América. Chegou a Portugal com 22 anos e 11 mil dólares para filmar em Trás-os-Montes. Três anos depois, continua a auto-financiar o seu trabalho e tem recebido críticas muito positivas um pouco por todo o mundo. Este mês podemos ver o seu trabalho no IndieLisboa (com a curta “Visionary Iraq”, inserida na secção Cinema Emergente) e no Museu da Electricidade, no âmbito do Prémio EDP Novos Talentos.

Conheçam um pouco melhor este jovem artista.

Nasceste nos E.U.A. (filho de pais africanos) e vives um pouco por todo o mundo. Qual é a importância deste teu percurso no teu trabalho?

A mudança regular de local deu-me a capacidade de compreender tudo aquilo que ignorei enquanto vivi num outro sítio. Cresci nos subúrbios e frequentei boas escolas mas sempre me senti a viver de banalidades. Agora, quando penso nesse passado, não encontro um local mais fascinante que a minha escola. Algo a que eu não dava qualquer tipo de valor na altura surge agora como um tema sobre o qual gostaria de trabalhar. Acho que, eticamente, a alteração de localização criou em mim um profundo relativismo moral e cultural.

Fala-nos um pouco do teu percurso artístico.

Cresci em Bethesda, Maryland, e pintava uma média de dois quadros por semana num estilo um pouco parecido com o de Lucien Freud ou Paula Rego. Quando entrei na Universidade em Nova Iorque comecei a ler, escrever e trabalhar em diversas plataformas. Quando me licenciei, sabia que estava interessado em criar arte e cinema “radical”. Vim viver para Portugal com o objectivo de realizar um filme sobre uma ameaçadora cheia que iria atingir um pequena vila de Trás-os-Montes, tendo como protagonistas a própria população. Viajei para França onde frequentei durante um ano o mestrado de arte contemporânea e cinema (em Le Fresnoy), tendo regressado em Agosto para Portugal onde realizei duas curtas-metragens (16 mm) – “Visionary Iraq” e “Too Many Daddies, Mommies, and Babies”. Esta última curta está em exibição no Museu da Electricidade, inserido no “Prémio EDP Novos Artistas”. Iniciei a realização de filmes auto-financiados em 2006 e tento sempre criar algo que nunca tenha visto.

Em que área artística te sentes melhor?

O meu trabalho como artista e cineasta baseia-se na convicção de que a dependência estética assenta em torno de questões de ordem técnica, em detrimento do conceito ou narrativa. Trabalho em diversas plataformas porque acredito que o conceito ou ideia é a parte mais importante ou valiosa de qualquer trabalho e é transferível entre plataformas. Assim, gostaria de dizer que a área artística em que me sinto mais confortável é a narrativa, que pode ir desde a escultura até ao cinema, bem como à vida. A criação de objectos úteis, sejam filmes, pinturas ou concertos, é a principal intenção. Eu tento ser útil na propagação da possibilidade de alguém fazer exactamente o que quer, com os meios disponíveis, muito dentro da tradição do DIY punk. Tento sempre trabalhar com problemas que verifico terem uma expressão fora da esfera pessoal, tais como históricos ou conflitos globais.

Ainda és muito novo e já tens uma carreira recheada. Como tens lidado com tantas críticas positivas?

O feedback que tenho recebido tem sido muito generoso e para além de ser motivante tem facilitado a continuação do meu trabalho.

É difícil ser artista em Portugal? Quais são as maiores dificuldades que tens encontrado?

Vim para Portugal porque este país oferece-me uma forma mais radical de trabalhar e uma perspectiva diferente das existentes nas metrópoles furnished by art como Nova Iorque, Paris ou Londres. Mudar de Nova Iorque para Trás-os-Montes prova a ambição de encontrar um local que me oferecesse condições anormais para explorar as minhas narrativas e o meu trabalho.

Penso que Fernando Pessoa escreveu algo sobre este assunto – vou citar embora a minha memória não seja a melhor – “os maiores feitos só podem ser concretizados num país pequeno como Portugal”. Existe um tipo particular de radicalismo necessário para o meu trabalho que só pode ser encontrado num local onde “modas” e áreas metropolitanas saturadas não sejam muito predominantes.

Tens auto-financiado os teus trabalhos. Achas que essa é a única solução para a falta de apoios existentes?

Tenho conseguido concretizar os meus projectos devido à extrema generosidade de muitas pessoas. Embora não tenha recebido qualquer apoio oficial, as contribuições de produtoras, família, amigos, actores e galerias têm possibilitado a realização dos filmes, sendo que a maior parte dos orçamentos é proveniente do meu próprio salário. Estive sempre bastante interessado nos anos 60 e 70 onde foram inventadas novas formas de financiar filmes como por exemplo acordos com televisões na Alemanha, que apoiaram obras de Fassbinder, Herzog e Wenders. As produtoras alemãs e os institutos deixaram de apoiar este novo tipo de cinema, então os realizadores encontraram uma nova forma de os financiar. Por vezes os institutos e as entidades governamentais ficam demasiadas presas a preconceitos e são incapazes de financiar propostas inovadoras. Penso que tudo isto faz parte do ciclo “trabalho institucional/produção alternativa”. No final, tudo aquilo que era alternativo passou a ser institucional e nasce uma nova perspectiva e/ou definição de alternativo. Neste momento ainda considero que os meus filmes são alternativos.

A curta que mostras na edição deste ano do Indie teve como base a instalação que esteve exposta no Porto. Fala-nos sobre “Visionary Iraq”?

“Visionary Iraq” conta a história de um teenager português e da sua irmã adoptiva angolana que durante a sua relação de pseudo-incesto decidem alistar-se na operação de libertação do Iraque. O drama atinge o seu expoente máximo quando eles descobrem que o pai está a lucrar com a reconstrução do Iraque. O filme termina com perguntas do género – “So dad is profiting from our suffering?” e afirmações como – “Democracy is just so many lies”. Penso funcionar bem como uma grande metáfora para os países que têm implicações em conflitos mundiais.

Como descreves este filme? Político e inquietante? Existe alguma relação com “Olimpia 1 e 2”, que apresentaste na edição do ano passado do Festival?

Se pudesse escolher uma tagline para este filme seria algo do género: “Uma hiper-ficção surreal e cínica sobre o actual conflito no Iraque com um final sincero e comovente”. Este filme é político da mesma forma que Hollywood é político, cria falsas memórias sobre a nossa forma de ver o mundo. Eu partilho da ideia de Frederic Jameson que considera o “trabalho político” como ficção científica. O livro Utopia é ficção científica. Um trabalho político é aquele que tenta imaginar o mundo, distorcê-lo e pervertê-lo, para que seja possível reflectir moralmente sobre o que o nosso mundo devia ser.

Já que o contexto desta conversa é o cinema consegues enumerar os três filmes que mais te marcaram e porquê?

“Transformers” – Michael Bay

A aceitação de Hollywood ao mau gosto, a sua representação cinicamente superficial do amor como necessário mas numa narrativa paralela e a utilização de técnicas estruturalmente inovadoras são o que tornam este filme em algo radical.  O facto de a maioria dos filmes de Hollywood ser dirigida para um alvo de crianças de 14 anos de idade também torna esta produção bastante radical.

“Passion of Joan of Arc” – Carl Dreyer

A utilização por parte de Dreyer de uma actriz de “comédia romântica” como protagonista para uma das personagens mais psicologicamente perturbadas da história do Cinema é o que dá este filme a capacidade de exibir tão claramente a ligação entre a superficialidade e sinceridade como participantes iguais na pesquisa para exibir o “real”.

“Scorpio Rising” – Kenneth Anger

Considero que este filme é um dos que mais me influenciaram, principalmente devido ao uso de música popular na banda sonora, ao nicho cultural que representa e perverte.

A pergunta de praxe. Projectos futuros a curto, médio e longo-prazo.

No início de Maio vou para o Brasil com o objectivo de realizar uma curta-metragem, mais uma vez utilizando o meu dinheiro e com a ajuda de muitas pessoas que acreditam no meu trabalho. A narrativa será sobre a minha avó e a sua interacção com a utopia modernista de Brasília. Um dos capítulos será rodado no Amazonas -sempre quis seguir Herzog e os seus viajantes. No próximo ano vou estar em Paris onde irei trabalhar num novo filme com Benjamin Crotty – co-realizador de “Visionary Iraq”, que estará patente numa exposição na Fondacion Ricard. O meu primeiro objectivo a longo-prazo é finalizar o argumento da minha primeira longa-metragem e arranjar financiamento para que o projecto seja possível.



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