Gabriel Gomes

O perfil de um dos nomes da música nacional.

Romântico e apaixonado, Gabriel Gomes trabalha com a música, desde os seus 8 anos. É um talento irresistível de contornar, decorado de notas e ritmos na sua forma de ser e trabalhar. Gosta de desafios, de iniciativas que o sensibilizem. Passou pelos Sétima Legião, Madredeus, com o seu companheiro acordeão e, actualmente, dedica o seu tempo aos TJAK, projecto que partilha com Vítor Bandeira e Pedro Sotiry e que resulta em Chill Out Loungy para os nossos ouvidos.

O seu primeiro contacto com o acordeão, com 6 ou 7 anos, enquanto vivia entre a Avenida de Roma e a dos Estados Unidos, foi digno de registo. Gabriel e a sua mãe foram convidados, pelos vizinhos do R/C, a partilhar tertúlias musicais de sabor gastronómico, juntando vinho tinto e febras, no quintal, ao acordeão. Ao comentar o seu agrado pelo que presenciava, foi correspondido positivamente e direccionado à altura dos acontecimentos. Quando deu por si estava inscrito na Escola de Acordeão na Morais Soares, local de estudo actualmente ainda em funcionamento.

E pensamos nós, cá para os nossos botões, que tipo de receptividade tem este instrumento em Portugal? Gabriel confirma a sua popularidade pelo país fora, tal como a concertina, destacando os cartazes das “festinhas da terra” espalhados pelas juntas de freguesias, concelhos e distritos. Considera que, no entanto, este estereótipo se comece a desvanecer e a transformar num movimento urbano. Uma das consequências óbvias da sua dedicação é a humilde mas progressiva modernização da tradição. A participação de Gabriel nesta área artística, e de outros que o acompanhem ou sigam, refresca e aviva o fôlego do instrumento.

Começou a tocar nos Sétima Legião quando tinha 16 anos, nova influência da sua vizinhança, nova curiosidade para contar. Frequentavam o mesmo café, o Rosa, manipulando, em conjunto, recheados de ânsias competitivas, os Flippers. Um dia Rodrigo Leão sugere a Gabriel a materialização da sua cumplicidade rival em notas musicais, este aceita o desafio. Seguiu-se o projecto Madredeus.

Entretanto foram surgindo convites, sinergias e projectos onde se demarcou. Foi fundador de Os Poetas e O Projecto OM. Teve posteriormente produções com as Danças Ocultas, sobretudo, e colaborações com Mafalda Veiga e Carlos Paredes.

A música electrónica surge por curiosidade. Pedro Lata, figura da noite lisboeta emblemática, foi quem o levou, em 1995, à sua primeira festa de Trance Psicadélico num Monte em Estremoz. Fascinou-o a ideia de tocar seis instrumentos ao mesmo tempo, disponíveis no armazenamento informático de sequências acústicas. Encantou-o o comodismo de experimentar, testar melodias e arranjos antes dos ensaios. Em ‘82 teve o Spectrum, em ‘87 o Atari, depois o Amiga até ‘90. Em ‘91, ’92, comprou o MAC e lá ficou. Nunca passou pelo PC.

Não é radicalista, respeita tanto a acústica como a electrónica, considerando que ambos os estilos vivem tanto sozinhos como juntos. Serve a diplomacia ao confirmar que depende do gosto de cada um, não escondendo, no entanto, o seu entusiasmo pessoal pelas capacidades que a máquina lhe oferece. A possibilidade da música ser reinventada motiva-o.

A actual descida da compra de cds faz com que todo o financiamento dos artistas dependa nas suas actuações. Gabriel acredita, no entanto, num futuro promissor das vendas de música pela net. Felizmente, desabafa, Lisboa já começa a ter um pequeno circuito de locais para se tocar.

A participação no filme de Wim Wenders, “Lisbon Story”, com os Madredeus, impulsionou o grupo numa série de viagens, reforçando o seu reconhecimento mundial. O filme conta a história de um engenheiro de som, Philip Winter, que complementa o trabalho visual de um colega sobre Lisboa, com sons que vai gravando nas suas ruas. Entretanto, encontra o grupo Madredeus e Philip apaixona-se pela cantora. O filme é um romance dissimulado que integra uma faceta turística ao utilizar os estereótipos habituais. Afirma que como lisboetas devemos agradecer-lhe a promoção, de uma perspectiva actual, da nossa cidade.

A saída dos Madredeus surge como um desafio, dando lugar a uma das suas fases mais produtivas. Em vez de 3, no mesmo número de anos, gravou 5 CDs. Teve igualmente a oportunidade de aprofundar várias outras fronteiras musicais como o Trance, onde nos conhecemos. A ideia, relembra, nessa altura, era extravasar, transe no puro sentido da palavra, ou seja, poder entrar numa espiral de afastamento, daquilo que somos, daquilo que pensamos sobre nós. Extravasar através da dança, costume praticado desde os nossos primórdios, mas que, hoje em dia, tem como principais figuras, DJs e músicos, que, no fundo, assumem o papel de contadores de histórias electrónicos. Equipara esta necessidade psicadélica unificadora com as idas à igreja, locais que transbordam de sentimento materializado e instrumentalizado em orações.

A sua integração no projecto dos Tjak vem como seguimento da descoberta. Encontrou dois parceiros igualmente sonhadores, Vítor Bandeira e Pedro Sotiry, que completam a equipa com pompa e circunstância. O Vítor é o doador e investigador de samples, estando ligado ao Museu de Etnologia e sendo dono de um currículo de viagens impressionável. Pedro Sotiry é um estudioso, músico profissional, sempre atento e pronto para novos voos. Os três estão actualmente a trabalhar no seu novo álbum. Prometem um projecto sem barreiras estilísticas. Cá o esperamos com ansiedade…

E assim termina a minha missão de vos comunicar mais uma destas riquezas da natureza, personalidades que nos inspiram para que lutemos pelo que acreditamos. Que nos orgulham pelo que já conseguiram. Gabriel adora dançar e viajar nas pistas de dança universais, gosta de conversar e divagar sobre todos os ruídos ou chinfrins, dos ambientes que nos rodeiam. Necessita de partilhar as suas belas histórias de ritmos e melodias. A música não só faz parte do seu quotidiano como também é a sua segunda mais amiga confessora. Dela depende, nela se inspira e com ela voluptuosamente sonha. Zzzzzzz…



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