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Galeria Dama Aflita

Ilustração & Desenho.

A Galeria Dama Aflita, Rua da Picaria nº 84, é um dos mais recentes espaços culturais da cidade do Porto, tendo como objectivo “promover o desenvolvimento da ilustração, do Desenho e dos seus autores”. Acaba de inaugurar a exposição “Strange Garden”, que integra projectos desenvolvidos pela Fabrica Features, patente até 21 de Fevereiro. A RDB esteve à conversa com o “núcleo duro” da Dama Aflita.

O Projecto

Júlio Dolbeth (JD), Rui Vitorino Santos (RVS) e Lígia Guedes (LG) têm já um longo percurso, ligado ao design e à ilustração. A Dama Aflita surgiu assim como uma extensão natural dos seus interesses, das suas redes de contactos e do trabalho que, em conjunto ou separadamente, vinham a desenvolver. “Nós já há alguns anos que estávamos a organizar algumas exposições só ligadas à ilustração. Assim, de certa forma, foi só dar um lugar ao que já andávamos a fazer há algum tempo”, nota JD. Por outro lado, salienta que até agora “ainda não existia em Portugal uma galeria especificamente direccionada para a ilustração e para o desenho. A nossa motivação não é a ideia de sermos pioneiros ou o que quer que seja, mas essencialmente tentar colmatar uma falha e contribuir para que esta fosse uma área que tivesse mais destaque ao nível do mercado e ao nível de galerias de exposição, sem se confundir com uma série de coisas que existem: que são lojas que vendem artesanato urbano, ilustrações, objectos, roupa… A ilustração é quase sempre considerada como  uma expressão subsidiária de outras áreas e nós queriamos um espaço que desse alguma dignidade e algum destaque” (JD).

Para além da componente de Galeria, a Dama Aflita é uma Associação Cultural, um argumento central nesta estratégia de promoção, consolidação e afirmação da ilustração e do desenho em Portugal, conforme salienta RVS: “Para além da parte de exposição, o objectivo é também tentar desenvolver algumas actividades à volta da ilustração, que possam possibilitar a organização de cursos, workshops, acções de promoção, realização de edições independentes de autores que trabalham a questão da ilustração…”.

Rompendo com clichés e com o “circuito fechado”

Um dos aspectos que tem caracterizado as exposições até agora patentes na Dama Aflita são as novas abordagens ao desenho e à ilustração. Na exposição de Luís Urculo podíamos encontrar elementos tipográficos articulados com formas em madeira. Na actual exposição, “The Strange Garden”, predominam os elementos em cerâmica. Mas, afinal, o que é desenho e ilustração?

Um dos objectivo da Dama Aflita passa por “propor a ideia de ilustração como algo de muito mais abrangente, rompendo um bocado com o senso-comum que vê sempre a ilustração como algo editorial, algo direccionado para a impressão… Interessa-nos quebrar alguns dogmas, do tipo o que é tridimensional já não é desenho, nem é ilustração e que nós achamos que não fazem hoje muito sentido. Queremos explorar a ilustração mais no seu sentido narrativo. Depois os suportes ou as tecnologias dependem muito dos artistas ou dos ilustradores que nós convidamos” (JD).

Assim, as diferentes abordagens à ilustração estão relacionadas, como nos explica LG, com os trajectos dos diferentes artistas convidados para exporem na Dama Aflita: “O Luís Urculo é arquitecto. Tem como base uma linguagem um bocadinho diferente. Havia peças feitas com roofmate, com materiais directamente ligados à arquitectura, como balsa, com a qual se fazem as maquetes… Nesta exposição, há uma forte presença de cerâmicas… A ideia de ilustração implica que haja uma narrativa e nesta segunda exposição, “The Strange Garden”, através das peças de cerâmica conta-se a história de um jardim imaginário… Daí acharmos também que é muito interessante que a ilustração possa não ser só vista como o desenho, mas ser interpretada de outra forma, através do uso de outros materiais”.

No entanto, sublinham, estas diferentes abordagens ao desenho e à ilustração não constituem nenhuma espécie de “pré-requisito” para expor na Dama Aflita. “Não temos um manifesto do tipo ‘vamos expandir os territórios e abaixo a tradição!’”, como nota, entre risos, RVS. “Fazemos o que gostamos. Temos uma visão que pode ser rebatida por várias pessoas dentro do meio da ilustração que achem que ilustração não é isto…. Mas aquilo que nos interessa é expor pessoas que trabalhem a ideia de narrativa, com suportes próximos do desenho, do registo gráfico, próximo da ilustração e do desenho. Por exemplo, a próxima pessoa que vai expor, o José Feitor, é provavelmente mais consensual, e aí não há dúvidas que é ilustração em termos de suporte: tem papel, tem tinta, mesmo a própria narrativa. Mas se calhar a exposição seguinte já vai contrariar um bocadinho isso…”.

Por outro lado, reforçam a necessidade de quebrar a “redoma”, fazendo chegar o desenho e a ilustração a um público mais amplo. “Em Portugal há já muito gente que tem um excelente trabalho. Importa dar mais visibilidade ao seu trabalho e deixar um bocadinho o feudo, porque muito embora haja muita gente, depois o circuito é muito restrito. Há um conjunto de actividades que acontecem todos os anos, em Lisboa e no Porto, mas são sempre as mesmas pessoas, e a coisa fica sempre um bocadinho em circuito fechado. E o nosso objectivo é também romper com isso” (RVS). Também JD partilha desta ideia, sublinhando que é fundamental que as edições independentes sejam mais fáceis de adquirir: “O que acontece é que muitas vezes há uma certa dificuldade para pessoas que não estão dentro do meio terem acesso a elas. As publicações circulam pelas comunidades virtuais, via net, por blogues ou por determinados sítios específicos da cidade que promovem este tipo de publicações, tornando-se muitas vezes complicado o acesso. Um dos nossos objectivos é mostrar, divulgar e promover as publicações independentes.”

Assim, reforçam a importância da divulgação como processo para o reconhecimento e consolidação do trabalho destes artistas. E, neste ponto, o facto de as obras expostas numa galeria como a Dama Aflita serem bastante mais acessíveis do ponto de vista económico pode constituir uma vantagem, facilitando a empatia com o público: “Há também um certo interesse nosso de chegar a pessoas que não têm uma possibilidade económica de adquirir um determinado tipo de objectos artísticos, mas que possam comprar ilustração e desenho. Há também um objectivo de uma certa democratização, entre aspas”, nota RVS.

A Galeria acaba por ser como um canal privilegiado para o trabalho de divulgação dos artistas e das suas obras. LG sublinha o papel de divulgação da Dama Aflita, num duplo processo de abertura da ilustração e do desenho a um público mais amplo que, por sua vez, não está ainda familiarizado com este tipo de arte. “As pessoas chegam à Galeria e vêem uma peça que gostam mas muitas vezes é importante para elas conhecer um bocadinho mais quem fez, o que faz, qual o seu percurso, conhecer para além do que está exposto aqui, não é? No caso desta exposição, por exemplo, começámos a andar para trás e chegámos à Fábrica da Benneton, ao Sam Baron que tem um trabalho pessoal muito interessante e que foi também já premiado, à Cristina Dias e à Marta Teixeira da Silva – as duas artistas portuguesas que trabalharam com o Sam”.

A Ilustração em Portugal

Durante esta conversa, comentou-se um recente post no blogue do designer e professor universitário Mário Moura (“O que se passa com a ilustração?”), em que referia que hoje se assiste a um momento particularmente profícuo para a ilustração em Portugal, numa espécie de “boom” que, simultaneamente, é acompanhado por um decréscimo acentuado de visibilidade de ilustrações na imprensa. RVS parece concordar com a opinião de Moura, sublinhando que hoje assistimos a uma espécie de contradição que é: “o suporte natural da ilustração, que eram os jornais e as revistas desapareceu, e o que começa a aparecer é a ilustração de galeria, a ilustração do objecto único… Isto tem que ver com o facto de os media portugueses estarem cada vez mais afastados da ilustração quando o que se passa no estrangeiro é quase o oposto; há um regresso claro dos jornais à ilustração”.

A Dama Aflita surge precisamente neste novo contexto, em que “por um lado, existem muito mais criadores, muitos mais ilustradores e muito mais gente interessada em ilustração… E, por outro, existem novas formas de criar visibilidade… Existem os blogues, as feiras de artistas gráficos, um conjunto de lojas começam a vender originais… Portanto, há um mercado para a ilustração, para este tipo de ilustração mais expositiva. Agora, em relação à imprensa, continua a haver um certo desvio ou uma certa falta de aposta”. JD nota, contudo, que existem já alguns bons exemplos em Portugal. Caso do suplemento Ypilson, do jornal Público, que frequentemente faz capas com ilustração, tendo apostado no ilustrador João Fazenda, recentemente distinguido pela conceituada revista Monocle. Assim, conclui RVS: “Eu acho que a tendência é para que se comecem novamente a contratar ilustradores para os jornais…”.

Cenas dos próximos capítulos

Com uma agenda, a nível de exposições, preenchida até ao final de 2009, a RDB tentou desvendar alguns dos projectos da Dama Aflita para os próximos tempos.

Garantem-nos que um dos objectivos é continuar a manter um ritmo intenso – “estamos a programar uma inauguração a cada mês”, afirma JD – estando já marcada a próxima inauguração para o dia 28 de Fevereiro, com José Feitor. Pretendem ainda iniciar durante este ano a realização de workshops, assim como o lançamento de edições independentes.



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