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Galeria Extéril

Arte independente e resistente no Porto.

Surgiu há 10 anos o mais pequeno projecto de arte independente na cidade do Porto – a Galeria Extéril que nasce em 1999 num armazém abandonado da cidade. Teixeira Barbosa*, seu responsável, decide aí construir, a primeira versão do seu pequeno espaço-caixa de 2x2x2 metros, em madeira aproveitada de paletes e outros materiais reciclados.

Inicialmente, o white cube que é a Extéril torna-se ocupa daquele edifício abandonado revelando nesta atitude de reivindicação de um espaço físico proibido, a vontade de ocupar um outro espaço cuja urgência ainda hoje se faz sentir com toda a sua inquietação: o espaço para revelar uma identidade independente criativa que espontânea e inevitavelmente tem vindo a explodir em diversos núcleos culturais por toda a cidade do Porto.

Quem vive (n)esta cidade, sabe que existe nela um circuito criativo paralelo e alternativo ao dos Museus e galerias comerciais. Este circuito é pautado por uma energia e vontade de produzir únicas, que encontram em qualquer canto da cidade, um palco natural para se manifestar e confrontar o visitante – que é por vezes transeunte – com uma galeria dentro duma oficina, um festival de performance no espaço público, uma peça de teatro numa sala ou num cabeleireiro, uma exposição de artes visuais num sótão de uma casa particular, num armazém, ou numa casa degradada e com intenso odor a humidade.

Devido à diversidade de projectos e manifestações em espaços menos convencionais, surgiu o projecto Roteador (ver links externos). A iniciativa é igualmente de Teixeira Barbosa, que pretende, através da construção de uma plataforma web, unificar as diferentes propostas que vão emergindo no Porto, dando deste modo, a conhecer a um mais vasto público o que os artistas e criadores do norte do país vão realizando, na maioria dos casos com os seus próprios meios.

* Teixeira Barbosa é também artista, possui licenciatura em Artes Plásticas – escultura na FBAUP, lecciona a disciplina de desenho na FAUP e actualmente frequenta o doutoramento na mesma instituição.

Entrevista com Teixeira Barbosa

Podes explicar-nos sucintamente o projecto Extéril?

O projecto Extéril procura produzir o máximo com o mínimo! É uma galeria, uma obra que inicialmente surgiu como um espaço virtual na Internet e só posteriormente enquanto espaço físico. A plataforma exteril.com foi também o primeiro espaço de arte na Internet, em Portugal. Ao longo do projecto constitui-se, para além da galeria, uma fundação e uma colecção da qual fazem parte os artistas que mais assiduamente mostraram na galeria o seu trabalho durante esta década.

Qual é para ti a urgência e necessidade de um projecto como a Extéril no Porto?

A importância destes espaços – que vão surgindo com artistas a criarem as suas condições para expor – será o de permitirem a experimentação, e falo neste caso específico do objectivo da Extéril.

Os artistas podem experimentar, desenvolver projectos que se enquadrem e tenham algum espírito relacionado com a Extéril em si, dentro da lógica sempre presente de produzir o máximo com o mínimo.

Têm existido bons exemplos, nesse sentido, com os últimos projectos aqui realizados. Por exemplo a exposição Acerca da Sobrevivência, ainda patente do António de Sousa, que está fantástica! Um projecto extremamente simples, barato, não custou rigorosamente nada e é prova de que se pode produzir muito bom trabalho, sem se gastar rios de dinheiro. A base da Extéril é essa mesma: produzir o máximo com o mínimo. Uma grande parte dos artistas que hoje em dia são reconhecidos, são-no porque possuem uma base económica por trás muito grande que lhes permite estar sempre a apostar no seu trabalho pois, financeiramente estão bastante bem.

Uma boa parte dos artistas que expõem na Extéril não têm essa base de maneira nenhuma. Isto é uma prova de que realmente há muitos bons artistas que podem produzir o seu trabalho sem dinheiro e mostrá-lo com criatividade!

Existem duas palavras-chave que podemos associar ao projecto Extéril – portátil e virtual.

Sim, a Extéril é portátil e virtual porque existe na Internet (ver links externos), mas não só! Todas as exposições que se realizaram, estão online. Até agora foram oitenta e duas! O site está ainda em remodelação, mas a informação está toda actualizada. A Extéril, pelas suas dimensões físicas, é também transportável para qualquer lado com muita facilidade! Já esteve em exposição em diversos espaços, dentro e fora de Portugal como: nos Maus Hábitos, na Casa das Artes, no Espaço Imerge aqui no Porto, numa feira de arte alternativa em Barcelona (a convite dos Maus Hábitos), no Clube Literário do Porto. A versão light esteve também no Museu dos Biscainhos em Braga e participou no Festival Internacional de Artes Performativas Ada, onde foi construída em 45 minutos no meio da Praça Gomes Teixeira no Porto, durante a acção Playing Artists.

O que nos remete para a terceira palavra-chave – auto-suficiente! O projecto que desenvolvemos em parceria em 2007 para o Ada, partiu essencialmente da ironia do artista auto-suficiente que para conseguir produzir o seu trabalho, tem de assumir outras tantas tarefas que nada têm a ver com a criatividade mas que também estão implicadas no processo de produção e mostra do seu trabalho. Playing Artists foi uma acção construtiva e performativa inspirada nas diversas identidades que tu assumes para conseguir manter todos estes anos este teu projecto. Fala-me um pouco dessas tarefas e identidades que assumes no projecto Extéril.

Assumir diferentes entidades ou personagens vem de encontro ao que o artista, normalmente já alimenta. Os agentes que deveriam ter essa responsabilidade pouco fazem para promover o artista. Na verdade, as galerias em Portugal estão sempre à espera que o artista resolva quase tudo. A Extéril ao ter sido em 99 o primeiro site de arte em Portugal, demonstra bem a nossa realidade enquanto promotores daquilo que fazemos…Só uns anos mais tarde é que começaram a aparecer sites de galerias e museus. Por outro lado, essas personagens que assumo na Extéril são uma ironia com todo o processo em que o artista se vê envolvido, desrespeitado pela maioria dos galeristas. Com o que digo pretendo apenas mostrar o desânimo que muitas vezes assola o artista que luta para produzir o seu trabalho. Em Portugal, praticamente só pode ser artista profissional quem tem uma protecção económica que lhe permita seguir caminho. A outra alternativa, é andar a tentar furar por tudo quanto é lado à espera de uma oportunidade. Enquanto isso, serão sempre os outros. Nesse sentido, os espaços alternativos têm vindo a mostrar que existem muitos mais artistas do que aqueles que aparecem no circuito comum e, neste sentido, o Porto deve ser a cidade com melhores exemplos dessa atitude.

Falando em identidade, o que é o Projecto Roteador e de que forma o mesmo pode contribuir para o assumir de uma identidade independente na produção criativa da cidade do Porto?

O Projecto Roteador surge de uma ideia que tive há cerca de dois anos, de juntar todos os espaços alternativos e independentes que existem no Porto. Existem bastantes, e já na altura comecei a falar com algumas pessoas para começar a desenvolver o projecto que não avançou muito. Entretanto decidi que agora ia arrancar com o projecto independentemente do que surgisse! Comecei a fazer um levantamento desses espaços e a Ana Carvalho ofereceu-se para fazer o design da página. Na realidade sou apenas eu que oriento e desde o início coordenei-o. Com tantos espaços a existirem como pequenos nichos na cidade, pareceu-me que era importante que os mesmos começassem a ter outra visibilidade, que as pessoas começassem a saber que eles existem.

A cidade é pequena e estes projectos concentram-se muito no centro da cidade o que é bestial pois, permite um melhor acesso a tudo. Permite criar um roteiro por todos esses espaços. A própria cidade está a ser habitada por artistas, arquitectos, músicos, e o facto de estarem a aparecer cada vez mais espaços e cada vez mais eventos é a prova de que realmente o Porto tem mesmo muita coisa para mostrar! O Roteador é essa ponte. Essa necessidade de criar uma rede com esses eventos. A ideia é dar a conhecer a outras pessoas estes espaços que normalmente não frequentam e que são apenas conhecidos por alguns e frequentados por amigos. Estes espaços merecem ter outra visibilidade pois não costumam chegar ao público através dos media e no entanto merecem a atenção de todos! Há tanta coisa a acontecer que sai fora do circuito dos media, que as pessoas têm o direito de conhecer; que realmente os artistas na cidade fazem muitas coisas, há mesmo muito para se ver! Depois se as pessoas gostam ou não gostam, é outra questão! Mas pelo menos têm acesso à informação, sabem o que vai acontecer e podem escolher o que lhes interessa ver.

Como é que podemos aceder e participar no Roteador?

Toda a informação para participar e inscreveres-te no Roteador está explicada no site, sendo extremamente simples! E tudo acaba por ser supervisionado por mim. Quem se inscreve, tem que enviar-me o nome do projecto, a morada, um contacto e uma breve descrição. Se eu achar que de alguma forma não se enquadra no Roteador, obviamente que envio um e-mail a explicar as razões. Mas isto para já é uma plataforma relativa à área metropolitana do Porto e apenas os projectos desenvolvidos nesta zona podem surgir nesta plataforma. Já pensei em criar uma para Lisboa, mas para já estou concentrado aqui, porque realmente dá muito trabalho e isto é um processo lento! Lanço o convite a quem estiver interessado, para que divulgue o seu projecto nesta plataforma. Não precisa ser um espaço, pode ser qualquer evento, mesmo que efémero, desde que aconteça de forma independente e na cidade do Porto!

Falando em redes de espaços independentes da cidade, é curioso verificar que o projecto Extéril vai comemorar os seus 10 anos apresentando no próximo sábado a sua colecção no interior do Espaço Ilimitado, que é a galeria mais independente do núcleo de Miguel Bombarda, certo?

Sim, a convite do João Baeta, curador e responsável pelo Espaço Ilimitado, decidimos apresentar a colecção Extéril, uma vez que se comemora os 10 anos do projecto e também porque em Dezembro, data real do aniversário, não irá existir nenhuma exposição da Extéril mas a 3ª edição dos 15 Minutos de Fama – projecto que consiste em exposições de 15 minutos para cada artista. A última edição começou às 16h e terminou às 4h da manhã, foram doze horas consecutivas de exposições. A proposta aos artistas será brevemente anunciada no site da Extéril, como tal, aproveito e faço aqui um convite para visitarem a página.

Fica aqui então o convite para conhecerem de uma só vez, dois dos espaços independentes da cidade do Porto, visitando esta exposição comemorativa dos 10 anos da Galeria Extéril. A inauguração será dia 4 de Julho pelas 16h no Espaço Ilimitado – Núcleo de Difusão Cultural, situado no primeiro andar do número 187 da Rua de Cedofeita, perpendicular à Miguel Bombarda.

Apareçam e não se assustem com a festa do whisky! Normalmente não chega ao primeiro andar!



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