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GANA

O humor fresco e não-alinhado.

Chegaram às bocas de todos pelo seu programa na SIC Radical, um talk-show que um cão chamado Bruno Aleixo apresenta com a companhia do seu amigo Busto, que é, apenas e somente, um busto. Aqueles que navegam na Internet já estavam habituados ao conceito; na altura, um Ewok apresentava os seus conselhos. Também como Ewok participa num sketch com Nuno Markl, para o programa no site do Sapo, Os Incorrigíveis, produzido pelas Produções Fictícias.

Na verdade, são três pessoas que compõem o grupo que criou esta personagem. João Moreira, João Pombeiro e Pedro Santo são o Gana (Guionistas e Argumentistas Não-Alinhados), nome com o qual criaram, com o apoio do Sapo, o canal Cena onde têm exibido os seus vídeos.

Fomos a Coimbra, terra que é papel-de-parede para os conselhos de Bruno Aleixo, conversar sobre os seus projectos.

RDB – Como surgiu o Gana?

João Moreira (JM) – Tinhamos um portfólio disperso… Ou seja, cada um tinha trabalhado por si, feito outras coisas. Como separados os nossos trabalhos não eram muitos, achámos que valia a pena juntar-nos, criar um site ou um blog com o portfólio de todos para parecer que era mais.

E foi um bocado assim, eles tinham trabalhado em Webisódios [Há vida em Markl], eu tinha umas coisas feitas em publicidade, na RUC e em blog, e acabámos por juntar tudo no mesmo sítio. Aquilo até acabou por ficar compostinho. Mas no fundo já tinhamos decidido trabalhar juntos, sem nome, só que na altura quisemos formar o blog, ou canal…

João Pombeiro (JP) – Um site!

JM – Ou site. O que quer que fosse… Eles são primos, já trabalhavam juntos nos Webisódios e eu trabalhei com este Cavalheiro [Pedro Santo] no Boa Noite, Alvim. Acabámos por nos juntar todos e na altura trabalhavamos, tirando este cavalheiro [João Santos]. Eu também estava numa agência de publicidade e deixei-a para me dedicar a isto. E estavamos à espera do Pombeiro.

JP – Depois parei e juntamo-nos.

RDB – E porquê o nome não-alinhados?

Pedro Santo (PS) – Não-alinhados porque não nos sentiamos alinhados a nada, era por nossa conta. Não tinhamos ninguém por trás, não tinhamos empresa. Eramos 3 pessoas apenas.

RDB – Queriam fazer uma coisa diferente?

JM – Se calhar, nem foi por aí, se calhar foi mais por não estarmos vinculados a nada.

PS – E queriamos fazer aquilo que gostavamos. Se era diferente ou não, não era o objectivo.

PS – Ser diferente não foi o ponto de partida, somos diferentes porque são as coisas que gostamos.

RDB – E para além do Gana existe o Cena, do qual também fazem parte. São só vocês?

JP – Somos só nós. Cena é o canal de entretenimento não-alinhado, ou seja, há sempre esta ligeira adaptação das siglas que vamos criando.

JM – Tinhamos vídeos que fomos fazendo. Eu tinha um blog antes mesmo de conhecer estes cavalheiros e entretanto começámos a juntar as coisas, fizemos algumas novas, e começámos a pô-las no canal. Entretanto o Sapo contratou-nos e agora estamos lá a fazer o Cena.

PS – É um complemento audiovisual do Gana. Somos nós os 3 que o fazemos na mesma e temos também vozes de outras pessoas convidadas, menos do Pombeiro, que tem uma voz asquerosa.

JP – Eu não tenho voz no “Programa do Aleixo” porque como estou a editar não me quero estar a ouvir constantemente.

RDB – E optaram por fazer humor. Sendo um grupo de guionistas vão sempre andar no campo de humor ou têm como objectivo fazer outras coisas?

JM – Gostava de fazer outras coisas, mas sobretudo para a net o que funciona bem é o humor. Coisinhas pequeninas. E como o programa de televisão surgiu a partir de coisas da net, os tais conselhos e a entrevista [Bruno Aleixo a Nuno Markl] continuou a ser de humor, mas eu não ponho de parte fazer coisas não-humorísticas. Para já, queria explorar o humor.

PS – Ele gosta muito de ler, ver televisão. O Moreira acha que o humor é um género menor.

JM – Isso é mentira. Está a parafrasear outro cavalheiro que trabalha no meio mas que não vou dizer quem é.

PS – Começou com humor porque as pequenas coisas que iamos fazendo separados tinham uma grande base humorística e porque é mais fácil, é muito mais imediato.

JM – Eu entrei na Ruc por humor, não pela música, por exemplo.

RDB – O programa da Rosa Mota?

JM – Isso já foi depois, na antena3. Fazia coisas desde 2004, spots e programas com outros cavalheiros.

PS – O Rosa Mota foi a primeira exteriorização do nosso grupo.

JM – E também a primeira que em grupo fizemos. E depois vem o Aleixo.

JP – Temos feito humor mas acabamos por fazê-lo em grandes partes. Acaba também por ser uma vantagem, não só pelo facto de sermos nós a fazer tudo. Já fizemos rádio, televisão, temos projectos para imprensa. Mas o humor acaba por ser o mais natural.

RDB – Fizeram o programa do Bruno Aleixo e foi a primeira coisa que teve mais receptividade.

JM – Sim, o Rosa Mota foi mais para o público da antena3.

PS – Ainda por cima foi uma coisa muito esporádica, foram três programas… pivots, vá. E aquilo criou algum culto.

JM – Muito ligeiro.

PS – Localizado e ligeiro.

O Bruno Aleixo na sua dimensão foi a primeira explosão. Uma explosão muito localizada. Mas sim, começou com os 3 conselhos, aliás, o convite da SIC vem no seguimento dos 3 conselhos apenas, não tinham visto Os Incorrigíveis com o [Nuno] Markl, do carapau à espanhola.

As coisas quando apareceram foram muito juntas. Eu há dias estive a ver a cronologia da coisa e acabaram por ser muito mais próximas do que tínhamos ideia. Os conselhos apareceram em final de Fevereiro e em Abril já a SIC nos contactava.

JM – Como nós estávamos sem trabalho nessa altura parecia uma eternidade…

PS – Mas foi pouco tempo. Tivemos com poucas coisinhas mas tivemos sempre que fazer.

RDB – O convite para juntar o Bruno Aleixo com Nuno Markl teve a ver com isso, tu mostraste-lhe?

PS – Ele viu aquilo e gostou.

JP – Já trabalhávamos com ele. Eu e o Pedro Santos. O Pedro escrevia e eu editava e realizava. E viu os 3 conselhos uma vez, eu mostrei-lhe. Quando chegou a altura dele fazer o vídeo para Os Incorrigíveis, [o Markl] andava ocupado e sem ideias e perguntou-nos se não queriamos fazer qualquer coisa com ele. E acabou por acontecer. Fizemos o guião, fomos gravar, o Markl acho que ainda nem o tinha lido, não me lembro muito bem, e depois montámos tudo.

RDB – O cavalheiro Moreira já tinha participado antes num webisódio do Markl, fez uma voz-off.

PS – Sim, sim. Mas os Webisódios eram uma coisa do Markl que o Pombeiro realizava, o Markl fazia uma estrutura básica do guião e eu, metia buchas, vá.

JM – E eles convidaram-me na altura que já estávamos a trabalhar. Eles começaram – não quer meter aqui uma voz nisto? – eu experimentei e aquilo até correu bem, ele gostou bastante, daí a abertura dele quando foi os conselhos. E foi assim que as coisas começaram, passo a passo.

PS – O “incorrigível” foi muito em cima do joelho.

JM – Aliás, nós vinhamos no comboio, linha de cascais, a escrever aquela porcaria, não foi?

PS – A base sim, a base foi no comboio ainda. Tivemos basicamente umas horas à tarde para escrever aquilo, tinha ainda de passar por ele. Tinha depois que ser aceite na terça, o Pombeiro vinha gravar na quarta e quinta montavamos para ficar sexta online.

JM – Não há aqui nada que eu não goste, há uma convergência grande. Aliás, quando não há dizemos logo e salta. Todas as pessoas têm directo de veto. Quer dizer, há uma que não tem direito de veto que eu não vou dizer quem é.

JP – Eu?

PS – Posso ser eu.

JP – Eu tenho o voto final. Eu é que gravo a cassete [que vai para a SIC].

RDB – E depois quando tiveram de passar de um conselho para um programa de meia hora, já estava planeado ou tiveram que construir todo esse universo?

JP – Teve de ser construído.

PS – Sim, a ideia da SIC pelo que percebi era…

JP – Usá-los como separadores.

PS – Porque têm aquilo do “Homem sem braços” e assim. Entrou uma direcção nova que esteve à procura de coisas novas e viram aquilo. Não tinham visto o episódio com o Markl, mas quando nós lá fomos era com a ideia de tornar aquilo numa série compacta.

JP – Sendo que o “incorrigível” foi o primeiro desenvolvimento que houve do Bruno Aleixo, da personagem. Ou seja, antes não se via muito e ali já se via mais o carácter dele, aquela coisa de ser manipulador. Isso depois serviu obviamente de base para o programa.

JM – Mas houve uma preocupação na altura. Ao passar de um conselho para uma entrevista num programa inteiro, achámos que não bastava esticar, são contextos diferentes. Assim como, por exemplo, eu costumo usar esta analogia, com uma série boa, não basta fazer um episódio de uma hora e meia para passar a ser um bom filme.

PS – Também há coisas que eu gosto, mas não faço questão de dizê-lo todos os dias.

JM – Deixa-me acabar, ontem não disse.

PS – Eu não estava cá, cá para mim disse.

JM – Daí que achámos que tinhamos de pegar alguma referência que fosse televisiva, para conseguir adaptar a personagem à televisão. O que nós arranjámos foi pegar num formato normal, que não tem nada a ver com o Conan O’Brien ou isso, e adaptamos à personagem.

RDB – O vosso talk-show tem tido muito boas reacções e está-se a criar um género de culto em torno do programa. Como vêem isso? Estavam à espera?

JP – Nós com o “incorrigível”, e depois mais tarde com os conselhos, começámos a ser mais vistos. Percebemos logo do início que quem gostava, gostava muito, e que quem não gostava odiava por completo. Mas acho que apesar de tudo é muito difícil perceber o impacto que está a ter.

JM – Há um tipo de pessoas que utiliza a Internet, sobretudo jovens-adultos e adolescentes, que gostava daquilo. Agora, não pensavamos que conseguisse chegar onde chegou. A aceitação está a ser maior do que o tipo de pessoas que vai a blogs… acho que está a chegar a toda a gente e, isso sim, surpreendeu-nos.

PS – As nossas expectativas eram muito à volta do humor ser contínuo, mas eu pessoalmente estava apreensivo. Quer dizer, iamos ter um programa na televisão pela primeira vez, não tinha ideia que aceitação teria, não diria tão unânime que não é, porque há pessoas que odeiam aquilo.

JP – Houve a transformação do boneco, houve ali uma série de coisas…

PS – E como o programa era maior havia também a tendência para haver mais pontos onde embirrar. Um sketch de cinco minutos com o Markl é mais fácil de controlar.

JM – Essa alteração da cabeça foi também imposição da SIC.

PS – Não quiseram arriscar. Eu falo por mim não estava há espera que fosse tanta gente gostar, se bem que não sei quantas pessoas é que gostam e acho que é muito localizado e muito mínimo.

JP – E eu acho que acabámos também por não dar conta, porque como não estamos a dar a cara, não somos reconhecidos na rua. O Moreira é aqui no contexto de Coimbra, pela voz. Mas não somos reconhecidos, as pessoas ou sabem que somos nós que estamos a fazer aquilo ou também não nos dizem nada. Eu já dei por mim a estar em jantares, onde estão pessoas a falar do Aleixo e contam-me. Olha tu vais gostar, é a tua cara.

PS – Sim, eu tive pessoas, por exemplo, um dos meus melhores amigos, a mandar-me o vídeo do Aleixo com o Markl. “Vê lá se gostas disso”, e pronto, dizia que gostava mais ou menos.

RDB – Vocês fizeram seis episódios e agora já estão a repetir. Vão fazer mais séries?

JP – Desde o início o que quisemos fazer foi um bocado aquele formato inglês do seis mais um. Já passaram seis e agora estamos a fazer um sétimo especial ou com variações em relação aos outros seis, com duração maior. Que é um especial boas festas, vá. Para se inserir nas quadras festivas, vai dar algures em Janeiro, e ainda está a ser produzido.

JM – O Aleixo grava uma gala, daquelas de passagem de ano, e depois passam-a no início de Janeiro. E é isto, formato diferente, sete episódios. E daí que ao fim de 6 esteja já a passar uma repetição.

JP – E até ao sétimo ir para o ar estarão a repetir até porque é um pouco a filosofia da [SIC] Radical, a repetição. Seja pelo snack TV seja pela repetição semanal. E no fundo nunca achamos mal. Também repetem porque o choque que houve se calhar com o primeiro e com o segundo distraiu as pessoas de uns pormenores e coisas que, agora, já estão convertidas ou já com mais gosto. Vão apanhar melhor.

PS – Ainda me lembro do Pedro Ramos, que era o director de conteúdos… o primeiro bocado que mandámos foi a entrevista com o Paulo Furtado e ele estava a dizer que adorou aquilo tudo, a entrevista toda, mas que até ficava cansado porque ele era “metralhado” com informação que era suposto absorver em pouco tempo. Não temos pontos mortos, como não há em conversas normais. Entre pessoas não há pausas para se rir agora, as pausas que nós fizemos foram pausas de conversas normal fluída, como os equívocos.

JP – Não é aquela estrutura de, há uma piada que faça rir, entra a outra. O que acaba por vezes por acontecer é, há uma piada, as pessoas riem-se e ao rirem-se às vezes já não estão a ouvir a próxima coisa que está a ser dita e até se corre o risco de, por não ouvir esse bocadinho, o próximo minuto não tem piada nenhuma.

PS – Nós fizemos um talk show bastante caseiro de alguém que quer dar um ar de profissional, pelo menos ao início, e acabam por entrar pessoas, convidados, com personalidades bastante específicas. Que ora chocavam, ora estavam em uníssono. Aquilo não tem pausas.

JP – Eu até diria o contrário, existem muitas pausas de desconforto. Muitas vezes, há coisas que parecem que são engano. As pessoas estão a ver e ficam a pensar: “Então isto parou… o que é que se passa?” e estranham. E nem sequer há a filosofia da punchline. Por vezes há cenas que acabam completamente em seco, sem piada, porque a piada foi antes ou no meio, e não há aquela coisa do quanto mais alta a punchline no final melhor.

RDB – Nota-se no vosso trabalho que se inspiram bastante nas pessoas, no português.

JM – Mas isso não é uma coisa que nos faça ir à procura.

JP – Tem a ver um bocado com as nossas histórias…

JM – Nós não vivemos propriamente em grandes meios urbanos. Eu em Coimbra, eles em Leiria.. são cidades pequenas, houve sempre um contacto com este lado.

JP – Sim, já é racional, ou seja, as nossas infâncias tiveram – e agora os miúdos nessas cidades já não têm – tiveram ainda o contacto com uma certa ruralidade. Nós andámos a subir árvores mas também apanhámos o início da internet e da televisão por cabo.

JM – O meu pai é da zona de Anadia, tenho um contacto um bocado estreito com a minha família desse lado e o que me fez também conhecer um bocado essa realidade. Nunca com o intuito de troça mas pela autenticidade. Eu acho que o Aleixo é escrito não com um olhar trocista.

PS – Não é o saloio que é simplesmente saloio porque é burro, tem um bigode, e tem um sotaque.

JP – Não há caricaturização desses meios, e dessas pessoas.

PS – Pode haver uma personalidade bastante específica e forte, que é o Aleixo, mas de troça ou do tipo de sotaque, não.

JM – E o sotaque como vês é igual ao meu. Não forço o sotaque para ser matarruano, não. Há muita gente que pensa que eu fabrico o sotaque, até porque em Coimbra dizem que não há sotaque. Há algum, mas não é este. Este é das aldeias à volta.

JP – Isto acaba por funcionar de duas formas. Uma é, pessoas da nossa geração que como nós tiveram contacto com esses meios reconhecem-se e acham piada por isso. E depois há pessoas de meios urbanos que nunca tiveram contacto com isso e vêem a coisa de fora.

JM – E funciona das duas maneiras, o interessante é isso.

RDB – E agora como vai ser o vosso futuro?

JP – Temos mais projectos, temos agora o canal do sapo mais uns 5 meses, por volta disso.

JM – Aleixo vai continuar a existir nesse canal.

JP – Não sabemos ainda se vamos ter uma segunda série ou não, depende da SIC e de muitos factores. Porque, apesar de tudo, isto é uma coisa de baixo orçamento, fizemos tudo os três apenas. Ou seja, para já não queremos esgotar o formato. Ao fim de uma certa habituação já é difícil de surpreender, que é o que penso que tentámos fazer em todos os episódios, dar a volta. Mas vai chegar a uma altura que as pessoas se vão habituar e a nossa ideia não é gastar isto até ao ultimo cartuxo.

JM – É preferível que saiba a pouco do que saiba a mais.

PS – Sabemos bem que as pessoas que mandam estão notoriamente interessadas no Aleixo.

JM – As pessoas que mandam querem que saiba a mais. Até dar. E nós não.

JP – Temos tido ideias e projectos para vários meios até, mas também temos de ver o que é que será mais apropriado na altura, tem de haver alguma gestão a esse nível. Não queremos ser os Gato Fedorento nesse sentido, estar ali a insistir até à ultima.



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